Quarta-feira, 18.04.12

Paz Podre

Não escrevo há muito tempo. As preocupações quebraram-me a pena e tenho vivido egoisticamente, até de mim própria. São pequenos nadas que compõem um vazio abismal de coisa nenhuma que me entorpece a alma e a envolve num lamentável buraco negro de onde é difícil escapar. Temo que a minha alegria se desvaneça por completo... Mesmo hoje parece mais que essa alegria foi substituída por uma estranha sensação de revolta lunática, frenética... estimulada pela misérias humanas que resultam na indignidade pestilenta da Injustiça.

 

Estou em erupção ideológica, creio eu. No fundo, isso confunde-se estranhamente com esperança, porque nada há de mais sagrado do que o principio basilar da Dignidade Humana, onde tudo se funde, até a própria Vida. A ideologia que governa o país tresanda a bafio, envolta em fungos tóxicos de um verde putrefacto que destroem qualquer partícula de oxigénio.

 

Não tenho outra força que não esta, a escrita. Este é o meu instrumento de revolta. Este é o insignificante espaço onde alivio a alma de todos os encontrões do dia a dia. Este é o meu antro de confissão, onde me insurjo contra o incessante espezinhamento das Instituições deste país, tão solitária e sobranceiramente afastadas dele... inertes num cubículo onde do horizonte não se esboça sequer uma sombra.

 

Mas atenção, incautos! É na sombra que desperta uma (ainda) ténue massa de revolta.

 

Queirosiana às 12:32 | Link do post | Comentar | partilhar
Terça-feira, 27.03.12

Desmantelamento

Dilaceram-me a alma em segundos. Insensíveis.

Vivo, sim... sempre à beira do precipicio, a aguardar o colapso. Sobrevivo.

É esta porca hipocrisia, um nojo de gente humana que despreza a dignidade dos outros como se nada mais no mundo houvesse que não eles e o seu pretenso brilhantismo. Certamente, detentores de genes superiores e que por isso, e só por isso, se acham com legitimidade para me machucar assim, colocando-me ao pescoço uma corda. Fico assim, aparentemente, à mercê das suas impertinências, desses caracteres reles e imundos que, infelizmente, só conhecem um lado da vida e não têm sequer a sensibilidade para tentar compreender o outro.

Essa corda que me colocam deliberadamente ao pescoço serve dois propósitos nas suas mentes depravadas, ignóbeis e cruéis; ou para enforcamento, ou para domesticação. Mas eu não me domestico! Mais vale antes que me matem e que manchem as suas porcas mãos de sangue inocente que até hoje tudo fez para merecer respeito e que só pede isso, mesmo quando a espezinham. Pode ser que então, este país acorde desta podre conformação, amarfanhada pelo medo.

 

Constança Fernandes

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Queirosiana às 09:49 | Link do post | Comentar | partilhar
Sexta-feira, 09.09.11

Fragmentos

Hoje deambulei por sombras da cidade. Na minha mente apenas a minha arquitectura existia, a realidade era um sombra sem contornos. Dos olhos saltavam lágrimas sem pudor. Estava triste. Minto. Estou triste. Estou incapaz de sorrir, embora tudo me corra bem. Tudo me corre bem depois de uma luta imensa, mas não sei saborear esta vitória, porque para aqui chegar mutilei pedaços da minha alma. Irrecuperáveis. Estou triste. Muito triste. Perdi a inocência idílica da infância. Já não há mais castelos nem palácios onde possa viver. Já não há mundos mágicos onde me refugiar. Tiraram-me tudo isso. Não. Fui eu que retirei tudo isso a mim própria. És responsável agora. És adulta. Nunca me prometeram facilidades, não, nada disso. Mas nunca referiram quão difícil isto era. Aliás, nunca me explicaram porque razão faço parte do grupo para quem tudo é ainda mais complicado.

Queirosiana às 22:10 | Link do post | Comentar | partilhar
Quarta-feira, 08.06.11

Desafio

- Existe um livro que leias e releias várias vezes?


Sim.  Os sete livros de Harry Potter de J.K. Rowling... nunca me canso; e Persuasão de Jane Austen, a história de amor mais fabulosa de sempre.
2 - Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?

Sim. Guerra e Paz de Leão Tolstoi. Comecei a ler uma primeira vez e parei trinta páginas depois, retomei no Verão passado, mas se passei dessas trinta páginas, pouco mais foi do que isso. Mas ainda não desisti; outro livro é O Velho e o Mar de Hemingway, comecei a lê-lo mais do que três vezes, mas sempre se meteu outro livro no meio que o abafou e lá permance ele eternamente na minha mesinha de cabeceira à espera de ser acabado.
3 - Se escolhesses um livro para o resto da tua vida, qual seria ele?

Hum... O Retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde, o livro mais arrebatador que alguma vez li, certamente teria sempre novo para descobrir no seu interior.
4 - Que livro gostarias de ter lido mas que por algum motivo nunca leste? 


São vários... mas os mais imediatos talvez sejam The Golden Notebook de Doris Lessing, Orlando de Virginia Woolf, As Pupilas do Senhor Reitor de Júlio Dinis e Great Expectations de Charles Dickens.
5 - Que livro cuja "cena final" jamais conseguiste esquecer? 


Expiação de Ian McEwan... um final inesperado e com uma profundidade belíssima.
6 - Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura? 

 

Sim. O primeiro livro que li foi aos sete anos "Os Cinco na Ilha do Tesouro", depois desse, seguiram-se outros dessa colecção, Uma Aventura, Patrícia, muitos muitos da Alice Vieira, outros tantos de Sophia de Mello Breyner Andersen, e obviamente, Harry Potter que me acompanhou dos nove aos dezoito anos.

 

7 - Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê? 

A Duas Vozes de William Golding - o enredo começou por ser interessante, mas a meio perdi-me um pouco da "mensagem" da história e tive dificuladade em perceber o final
8 - Indica alguns dos teus livros preferidos - sem ordem

 

Emma, Jane Austen

Northanger Abbey, Jane Austen

Persuasão, Jane Austen

Jane Eyre, Charlotte Bronte

O Monte dos Vendavais, Emily Bronte

O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde

Mrs. Dalloway, Virginia Woolf

O Sonho Mais Doce, Doris Lessing

Os Maias, Eça de Queirós

O Fio da Navalha, Somerset Maugham

A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera

Anna Karenina, Leão Tolstoi

Expiação, Ian McEwan

 

Queirosiana às 22:18 | Link do post | Comentar | Ver comentários (2) | partilhar
Sexta-feira, 06.05.11

Fragmentos

É estranho a forma como alguém pode deixar em nós um pouco da sua alma, mesmo que seja como uma marca de água, ténue quase invisível. Pensei em ti ontem num momento de desespero. Na minha cabeça ecoava o teu nome que depois se tornou num grito incessante expresso em lágrimas caladas. Queria um abraço teu. Queria um pouco de alento e segurança. Mas não estavas lá nem podias, muitos quilómetros de distância nos separam. Pensei em como seria bom meter-me num comboio e ir ter contigo. Podia nem te contar nada sobre o que me assusta e me cansa a alma, podia nem sequer falar-te na chama quase extinta da minha coragem, podia até esconder o desespero alucinado que me tinha levado até ti. Podia servir-me da minha bela máscara, do meu retrato perfeito... tu saberias como puxar o véu. Porque tu e eu partilhamos almas.

 

Queirosiana às 14:05 | Link do post | Comentar | Ver comentários (3) | partilhar
Quinta-feira, 28.04.11

Ne Me Quitte Pas

Queirosiana às 23:30 | Link do post | Comentar | partilhar
Terça-feira, 26.04.11

Fragmentos

Quando te vejo, te sinto, te leio e cheiro, sinto uma profunda tristeza. Uma tristeza sádica e moribunda de uma louca que insiste em te querer perto quando há muito o teu barco abandonou a terra. É triste. É triste teimar nesta melancolia. É a tristeza de desejar viver de uma dor silenciosa e contínua que apenas sabe questionar "porquê?", uma tristeza que derrama lágrimas exasperantes, sufocantes, ruidosas... mas porquê? Porquê?

 

E o sábio respondeu à Constança: Menina, é apenas o desejo de encontrar uma razão. Mesmo ilógica, encontrar uma razão sossega-nos, mas nunca te esqueças que essa procura é insaciável. É preciso aprender a aceitar. E tu, Constança, ainda não aceitaste...

 

Queirosiana às 23:12 | Link do post | Comentar | partilhar
Sexta-feira, 08.04.11

Dispersos

Gosto de imaginar que tudo vai correr bem. E mesmo quando não acredito invento uma máscara e mostro-a sem receios, apresento aos espectadores um teatro de optimismo que aos poucos me torna em crente.

Mas hoje, fui assaltada por dúvidas, eternas dúvidas. A apatia geral que me provoca o calor, afundou-se ainda mais no dia de hoje por mergulhar nas profundas águas da incerteza.

Tenho muito medo daquilo que poderei (quiçá) ter de deixar para trás. Uma antecipação idiota, sem dúvida. Mas a expectativa esmoreceu em contraposição aos termómetros que à medida que aumentam, acentuam este desespero calado. Hoje não há máscaras.

 

Queirosiana às 20:04 | Link do post | Comentar | partilhar
Sexta-feira, 04.03.11

Fragmentos

Quando sou assaltada por memórias tuas choro. Mas não de desespero, simplesmente de saudade, porque nessas memórias sorris e ris e brilhas. Não há nada de triste nisso, apenas a tua eterna ausência. Só isso. Por não ter havido adeus.


 

Queirosiana às 18:57 | Link do post | Comentar | Ver comentários (1) | partilhar
Sábado, 26.02.11

A Mulher Sem Consciência (vii)

Encostei-me na poltrona. A dor intensa que sentia no peito alertava-me para a minha pobre saúde. Tomei um comprimido da longa receita médica que me acompanhava há uma década e esperei que tudo passasse, na calma intemporal da minha velha poltrona. Numa mesa ao lado estava um grande álbum antigo, muito antigo, tinha sido eu o seu herdeiro. Pertencera a minha mãe. Tinha uma capa negra. Peguei nele e senti o peso da minha história. Abri e aconcheguei-o no colo. Percorri as suas páginas, numa encontrei-me em calções e suspensórios com uma bota da tropa na mão, devia ter os meus três anitos pois o meu cabelo ainda era encaracolado; na página seguinte uma fotografia de um aniversário, ou meu ou dela... já não recordo claramente. A última vez que estive com ela foi há uns anos, depois da prematura morte da Matilde. É estranho como a rotina com alguém nos torna tão dependentes dessa pessoa. Amei a Matilde. Aprendi a amá-la. Os anos passaram e nunca nos cansámos irremediavelmente um do outro. Porém, houve sempre uma certa reserva inultrapassável imposta por um estranho ideal de respeito que nos impediu a espontaneadade dos sentimentos. A verdade é que fomos sempre muito contidos. A Matilde tinha uma forma de ser muito passiva e talvez tenha sido isso que permitiu uma convivência sempre tão serena entre ambos. Nunca me enfrentou, nunca se impôs, as críticas que fazia eram ternas e meigas que quase sempre passavam despercebidas, muito calada - lembro-me de um amigo me dizer que eu casara com uma sombra de outro mundo. Mas Matilde era apenas um anjo. A vida dela parecia aos olhos dos outros inexistente, mas isso apenas porque tudo nela se desenrolava no seu interior. Era dentro dela que vivia. E notem bem, digo dentro dela e não para ela. Escrevia muitos diários. Tenho-os na gaveta guardados, hei-de de os entregar à Sara. Nunca os li.


 



 

Queirosiana às 11:19 | Link do post | Comentar | Ver comentários (4) | partilhar
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