"A Erva Canta transporta até nós a beleza rude e majestosa e os impiedosos valores sociais da África do Sul, numa escrita vigorosa e cheia de colorido."
Penso que já aqui referi o meu fascínio por esta escritora, vencedora do Prémio Nobel da Literatura em 2007.
Este é o segundo livro que leio da autora.
Uma história inquetante, que não tendo nada de estranho nela, mexe connosco, consegue alcançar o nosso íntimo e o nosso maior medo - solidão.
Mary, a personagem principal, é uma mulher indiferente, superficial e só, embora no início da sua vida, esteja rodeada de gente.
Casa-se com Dick, sem saber porquê. Não o ama, apenas lhe tem uma indiferença amável ou piedosa, tirando isso, ele é-lhe insuportável.
Vai viver para a Fazenda de Dick, em plena África Sul rural, numa altura em que os preconceitos raciais eram latentes - a África do Sul ainda era uma colónia inglesa.
Mary no meio de "nenhures" passa a viver em solidão, vira-se para si própria... e se no início ainda tinha energia para executar tarefas que a mantessem ocupada, no fim, é o exemplo concreto do estoicismo, da apatia total.
Apaixona-se pelo criado negro - Moses, mas isto é algo implícito no livro nunca é descrito. É ele que a mata, mas tenho de confessar que a razão me passou ao lado.
Mais uma vez, a escritora me surpreendeu pela sua enorme capacidade de trabalhar as suas personagens (quase genialmente).
A personagem é ela mesma a história, os acontecimentos que vão sendo descritos estão num plano abaixo.
O impacto que Doris Lessing tem no leitor em "A Erva Canta", consegue-o pela estrondosa capacidade de descrever olhares e tornar audíveis os tons de voz, que tanto dizem sobre nós.
Mary Turner, filha de um modesto ferroviário, tem uma infância miserável e cresce no meio da solidão. Chegada à juventude, vai trabalhar para a cidade e acaba por casar com um fazendeiro. Porém, não consegue estabelecer qualquer relação íntima com ele e continua solitária. É então que inicia a primeira verdadeira relação da sua vida, mas fá-la com Moses, um negro, a única pessoa a quem lhe é vedado ligar-se.








