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Queirosiana

Blogue sobre livros, leituras, escritores e opiniões

O Fantasma dos Canterville e Outros Contos, Oscar Wilde

31.05.11

Depois de O Retrato de Dorian Gray fiz uma tentativa de ler mais da obra de Oscar Wilde e debrucei-me sobre este pequeno livro de contos.

O Conto principal fala-nos de uma casa pretensamente assombrada para onde decidem ir viver um casal de americanos com os respectivos filhos sem dar ouvido a tais disparates. Todavia, confrontam-se de facto com o fantasma que faz de tudo para assustar a pobre família.

A história tem tudo para ser um autêntico filme de terror e, de facto, era disso que estava à espera. Porém, fui totalmente surpreendida quando percebi que a família não se assustava com o fantasma, aliás, descurtinava todas as suas tentativas de provocar terror, ridicularizando-o. Posso afirmar que se virou o feitiço contra o feiticeiro, o fasntasma foi totalmente humilhado e gozado, em grande parte pelos pequenos filhos da família. É na filha do casal que o fantasma encontra um certo conforto que lhe dará o descanso eterno.

Um livro invulgar mas muito fácil de ler e excelente para rir.

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O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde

06.05.11

O Retrato de Dorian Gray, publicado em 1890, é considerado pela crítica como a melhor obra de Oscar Wilde.

Pergunto-me como consegui viver literariamente até hoje sem nunca ter lido esta obra?! Certo, é uma afirmação exagerada, mas o efeito estrondoso que este livro teve em mim foi de tal forma que em menos de três dias, durante intervalos de aulas e viagens de autocarro, absorvi-o por completo, vibrando a cada frase.

Apaixonei-me por Lord Henry (se é que nos podemos apaixonar por um personagem), cada diálogo dele "envenenava-me" o cérebro (embora seja ele mesmo a dizer que um livro não envenena), mas ele é o eterno paradoxo, fiar-mo-nos nas suas palavras ou confiar-mos no seu cinismo seria um tremendo erro. Mas isso não impede que seja um personagem fascinante, nas palavras de Dorian Gray, "o que não significa que tenha gostado dele". Podia continuar aqui a divagar utilizando as sublimes frases que enchem esta obra, creio que ainda estou com o "efeito ressaca" por só ontem à noite a ter terminado.

Dorian Gray é um jovem encantador e detentor de uma extrema e rara beleza. No início do livro a beleza de Dorian está incólume, assim como a sua alma, ingénua, limpa, pura. Ao longo da história a sua beleza permanece assim, tal e qual como quando nos foi apresentado no início, contudo, a sua alma envereda pelos tortuosos caminhos do pecado, da vaidade, luxúria, do crime e do prazer; sendo o estranho retrato pintado por Basil Hallward que arca com todo esse peso, modificando e envelhecendo em vez de Dorian. Há algo de sublime aqui que nos atrai profundamente, a eterna juventude é sem sombra de dúvida uma grande tentação. Dorian também o acha, influenciado pela idolatração que Basil lhe ganha e pela sinuosa influência de Lord Henry.

Dorian Gray é um eterno insatisfeito, assim como todos aqueles que buscam, como objectivo de vida, o prazer. O arrependimento ou ataque de consciência de que é vítima no final, mostram-nos cruamente a sua fraqueza. Eu mantive por muito tempo a última página aberta, na expectativa idiota de que algo ressuscitasse, pois tal como Dorian, o livro tornou-me insatisfeita.

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O Crime do Padre Amaro, Eça de Queiroz

04.05.11

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O Crime do Padre Amaro surgiu na forma de folhetim na "Revista Ocidental", em 1875. Mais tarde, tomando uma versão compilada em 1876. De uma crueza atroz, este romance ataca os vícios e corrupção do clero e da sociedade burguesa da época. Considerado por muitos, a principal obra do escritor, exemplo magnífico do movimento Realista português, ainda que a minha preferência se mantenha em Os Maias

Em 2013, tive a oportunidade de ler a edição desta obra com as ilustrações da nossa ilustre pintora Paula Rego, publicado pela Quetzal Editores, uma versão sublime de uma obra magistral. 

Li o livro em pouco tempo, estranhei até a rapidez com que o fiz, mas a história é terrivelmente sedutora e é impossível resistir à tentação!

No início, Eça apresenta-nos um Amaro "sem sal". A sua infância foi repleta de algumas tragédias e de muitos "frus frus" de saias de mulheres. A ida para o seminário por ordem da sua benfeitora, revela-nos um Amaro com pouca convicção na Igreja, sem qualquer vocação. A temporada nos confins da Serra, que ocorre um ano antes de se tornar pároco em Leiria, onde irá decorrer toda a acção de O Crime do Padre Amaro, talvez o tenham despertado para a sua fé, mas não o suficiente. Vai para Leiria por influências de um conhecido seu.

Em Leiria, Amaro conhece Amélia, uma jovem rodeada por um clã de beatas que me causaram um certo desconforto, não só pela fé desnorteada que representam como pela contradição entre aquilo que acreditam cega e radicalmente e aquilo que fazem, pois as intrigas discutidas e provocadas por aquele clã de beatas era, no mínimo, desconcertante. Aliás, aquela sociedade escrita por Eça transpirava intriga e mesquinhez, um atraso de pensamento incrível, uma convicção religiosa doentia e temente.

A ideia que esta obra transmite, e que até há uns anos atrás não era invulgar, era de que o Padre tinha um poder enorme na comunidade. Nesta obra isso é claro e límpido, assim como a vida faustosa que muitos daqueles padres/personagens levavam, grandes barrigas, grandes festins de comida... o papel da religião é o grande tema em "O Crime do Padre Amaro".

Confesso que as personagens religiosas nesta obra são profundamente ridicularizadas, à excepção do Abade Ferrão que, no fim da história, tenta "resgatar" Amélia sem a julgar severamente. É uma personagem curiosa, um religioso que encara a religião da forma, que a meu ver, é a mais indicada - uma fé por Amor e não por Temor.

Há depois umas figuras "anti-religião" muito curiosas, como João Eduardo, o enamorado de Améliazinha, que escreve o estrondoso "Comunicado"; o Dr. Godinho, que no início é um forte opositor da Igreja, mas que termina a história, manso como um cordeirinho pois, por via da sua mulher, os padres conseguem controlá-lo; Gustavo, o tipógrafo revolucionário; o Dr. Gouveia, o médico, que tem uma conversa com João Eduardo que me deliciou e que li por duas vezes.

A crítica feroz, está, mais uma vez, presente nesta obra de Eça. Critica fortemente a Igreja com muito pouco pudor e com tremenda coragem. é uma obra magistral.

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