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Queirosiana

Blogue sobre livros, leituras, escritores e opiniões

David Copperfield, Charles Dickens

28.03.12

Publicado em 1850, esta foi a minha primeira grande obra de Charles Dickens. Até então apenas tinha lido Contos de Natal. 

Achei o livro de uma enorme genialidade. Aprofunda o carácter humano em todos os níveis. A multiplicidade de personagens, a diversidade de histórias, a mudança constante de cenário, fazendo com que a história nunca, mas nunca perca o interesse, tudo isso é brilhante!

Acompanhamos David Copperfield deste o dia do seu nascimento até à fase adulta de realização pessoal. Acima de tudo, esta obra é uma biografia de Copperfield, alguns peritos insinuam inclusive, tratar-se igualmente de uma espécie de autobiografia ficcionada de Charles Dickens, pois é possível encontrar várias similitudes com a sua própria vida. 

David nasce órfão de pai, mas vive feliz na sua Rookery com a mãe e com Peggoty a sua criada que mostrará ao longo do livro o profundo amor, dedicação e carinho que tem pelo seu pequeno David. Às mãos do padrasto e da irmã do padrasto sofre terríveis provações, tanto, que pouco tempo depois de ficar também órfão de mãe, foge à procura da uma tia, Miss Betsy. Esta última personagem proporciona-nos momentos hilariantes, de rir até mais não, aliás, Dickens tem uma escrita com muito sentido de humor, do qual se parece servir para criticar os defeitos da sociedade. 

Depois, a história segue vários rumos, muito interessantes e que obrigam a uma certa análise do carácter humano. Mr. Heep, uma criatura vil e repugnante, que nos é apresentada inicialmente de forma dúbia e que depois se revela um verdadeiro traste! 

Nesta história podemos encontrar desde os pequenos dramas que todos vivemos em criança - que Dickens analisa de forma magistral -, a necessidade precoce de enfrentar o mundo, as mais diversas provações sentimentais até financeiras - agora estou a lembrar-me de Mr. Micawber e sua família, que juntamente com Betsy Trotwood são o auge da diversão! Temos depois a descoberta do mundo pelo jovem Copperfield, a profunda admiração que tem por Steerforth e todas as consequências que daí advém, um casamento apaixonado mas incompleto, uma fuga que trará consequências devastadoras para Mr. Peggoty que perde a sua adorada Emily e que não cessa nunca de a procurar, uma paixão que sempre lá esteve mas que só é descoberta no final, graves problemas económicos em virtude das fraudes de Mr. Heep que levam David Copperfield a entregar-se a todo o esforço do trabalho para vingar na vida. 

É um grande herói, David Copperfield, uma personagem que jamais esquecerei. Nesta obra vamos aos mais recônditos sítios do ser humano, a todas as suas fraquezas e às suas melhores qualidades, uma verdadeira lição de vida, sempre com atenção à dignidade humana e às injustiças sociais que se viviam então, mas que se mantêm hoje apenas com uma outra máscara.

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Amor e Sedução Segundo Jane Austen, Lauren Henderson

15.03.12

Este é um daqueles livros do género auto-ajuda. Confesso que estava à espera de algo diferente quando o trouxe da biblioteca, porque julguei que se tratava de um romance inspirado na autora.

Em Amor e Sedução segundo Jane Austen, Lauren Henderson, a escritora, enumera uma série de dicas, lições e exemplos a seguir para arranjar o homem indicado da forma indicada, tomando como modelo (ainda que adaptando aos dias de hoje) as regras que Jane Austen descreve nas suas obras.

É um exercício interessante... li o livro em menos de dois dias, pois é extremamente simples e descomplicado, embora tenha algumas dúvidas quanto a este tipo de livros que pretendem estandardizar e modelar as relações entre as pessoas pois aprecio, acima de tudo, a espontaneidade!

A parte interessante do livro foi para mim o exercício de comparação entre a vida real e as relações das nossas heroínas-heróis, transportando os seus comportamentos para aquilo que são as relações quotidianas. Acho que a análise que Lauren Henderson faz das personagens de Jane Austen está muito bem explorada, e no geral, confesso que não podia estar mais em sintonia.

É dos poucos livros relacionados com Jane Austen traduzidos para português e embora não tenha ficado extasiada, não considero que tenha sido uma total perda de tempo. Acabei por descobrir que sou uma Lizzie e que o meu homem ideal seria Henry Tilney.

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Os Mistérios do Castelo de Udolfo, Ann Radcliffe

14.03.12

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Qual Catherine Morland, embarquei nesta aventura e li um dos primeiros romances góticos da história da literatura, publicado em 1794. 
 
Li esta obra apenas e só por causa de Abadia de Northanger de Jane Austen.
 
Adorei a obra do principio ao fim, fiquei presa e agarrada às páginas do livro como uma lunática, quem me visse durante a viagem de autocarro para casa ao longo desta última semana, julgar-me-ia demente tal era a minha abstracção da realidade que quase me fez esquecer de mandar parar o autocarro para ir para casa! Ainda um pouco de ressaca de tamanha história, vou tentar ser o mais lúcida possível.
 
Emilie, é a nossa personagem principal e digna da nossa admiração. Vive com os pais numa linda e pitoresca região de França, é a única filha viva do casal, cujo amor é incondicional e recíproco. Tem uma infância feliz e longe da cidade e de todas as suas tentações. Perde a mãe, vítima de uma doença súbita, e o pai decide fazer com ela uma viagem pelo sul de França e por Itália. Nessa viagem conhecem Valancourt, um jovem que viaja na solidão, dono de um carácter integro, puro e culto. Valancourt acaba por se juntar a eles nessa viagem e serve de grande ajuda pois Saint-Aubert (pai de Emilie) adoece gravemente no decorrer da jornada. Já não está com eles quando Saint-Aubert morre, numa cabana longe da sua casa, perto de um castelo que muitos dizem assombrado e que pertenceu à Marquesa de Villeroi, nome que suscita grande emoção de Saint Aubert. No leito de morte pede a Emilie que cumpra um último desejo, o de destruir umas cartas escondidas num soalho da sua casa no Valee e pede-lhe que nunca as leia. No testamento, deixa Emilie, ainda menor, a cargo da sua irmã Chéron - uma mulher fútil e sem grande sensibilidade.
 
Emilie, órfã de pai e mãe, parte para junto da tia. É por essa altura que Valancourt declara o seu amor por Emilie, totalmente correspondido, mas embora cheguem a ficar noivos, tudo cai por terra quando Chéron casa com Montoni, um italiano que se revelará um bandido da pior espécie. É ele que as leva para Itália e prepara um casamento forçado entre Emilie e um Conde italiano de grande fortuna. Tal casamento nunca se chega a realizar pois partem de rompante para um castelo, propriedade de Montoni - o Castelo de Udolfo. Aí, Emilie viverá os piores medos e terrores - desde quadros cobertos com um véu negro que escondem segredos impensáveis, a estranhos barulhos e gemidos durante a noite, corredores frios onde criadas julgam ver espíritos, estranhas melodias pela meia-noite, uma estranha porta que só fecha por fora no quarto destinado a Émilie longe de todos os outros, assaltos ao castelo durante a noite com severas batalhas de inimigos, passagens secretas, ... enfim, um terror!
 
Não posso contar mais nada, até porque o que me deu mais gozo ao ler a obra, foi não ter nenhuma ideia do que me esperava à partida, só uns pequenos lamirés dados por Jane Austen através de Catherine Morland. Aliás, este livro mostra até que ponto Cathy se encontrava influenciada por ele aquando da estadia em Northanger Abbey onde tenta a todo o custo chegar ao quarto da falecida Mrs. Tilney. Na obra de Ann Radcliffe, existe um mistério semelhante, respeitante à Marquesa de Villeroi que morreu vitima da tirania do marido e muita coisa estranha acontece no quarto onde morreu, que esteve fechado por largos anos, escondido da vista de todos. 
 
Aconselho qualquer pessoa a ler este livro, basta gostar de mistério e não ter pesadelos à noite por causa de relatos sobrenaturais que são o pão nosso de cada dia neste livro! Mas para quem leu Abadia de Northanger é uma enorme mais valia, pois grande parte das atitudes de Cathy são calaramente compreensíveis depois de ler Os Mistérios de Udolfo.
 

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