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Queirosiana

Blogue sobre livros, leituras, escritores e opiniões

A Morte Feliz, Albert Camus (1971)

Ficção - Filosofia

19.01.19 | L.F. Madeira

A Morte Feliz é a primeira obra de Albert Camus, escrita entre 1936 e 1938, ainda que apenas tenha sido publicada postumamente em 1971. Considerado como a antecâmara daquele que viria a ser o livro mais famoso do autor (O Estrangeiro), em A Morte Feliz acompanhamos Patrice Mersault no seu dia a dia e na sua incessante busca pela felicidade.

Os paralelismos com O Estrangeiro são muitos. Por exemplo, ambas as personagens principais são escriturários e ambos cometem assassínio. Até os nomes das personagens são parecidos!

O livro divide-se em duas partes. A primeira é um retrato da monotonia e repetição do dia a dia de Mersault em Argel. Contudo, é neste início que conhecemos Zagreus, um homem de meia idade, rico e inválido, mas que surge como uma luz ao fundo do túnel para a vida de Mersault, ao afirmar que "a felicidade é uma coisa possível, desde que haja tempo, e que ter dinheiro é a única maneira de se libertar do domínio do tempo". É depois desta conversa que Mersault decide cometer tão atroz crime. 

Na segunda parte, seguimos Mersault na sua busca pela felicidade e tranquilidade. No seu repentino abandono da terra natal, na sua viagem pela Europa onde começa a mostrar sinais de doença. Uma segunda parte que se inicia inquietante e desassossegada, talvez pela assombração do terrível crime. Por fim, Mersault decide regressar a Argel e, aparentemente, a sua busca pela felicidade é alcançada. Ainda que haja sempre uma sensação de descontentamento, de incompletude. Mersault morre feliz, consciente da vida e consciente da morte, mas sozinho e numa indiferença apática.

Confesso que durante a leitura senti sempre algo de opressivo na escrita do autor. Ainda que me seduza a ideia da felicidade e do tempo e acredite que a felicidade está intimamente relacionada com a liberdade, não consigo criar um elo de causalidade absoluto entre a felicidade e o dinheiro. Não que não estejam relacionados, mas a simbiose não é total, não pode ser... não deve ser. 

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Orlando, Virginia Woolf (1928)

Ficção - Fantasia - Clássicos - LGBT

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Orlando, publicado em 1928 é considerado um clássico do feminismo e baseia-se, parcialmente, na vida íntima da amiga e amante de Woolf, Vita Sackville-West. 

Orlando é escrito como biografia da personagem com o mesmo nome. A narrativa foge um pouco do estilo de escrita de Virginia Woolf, no sentido em que não saltamos de consciência em consciência entre as várias personagens. 

Orlando tem a peculiaridade de ser imortal ou pelo menos, de viver o suficiente para acompanhar dois séculos de história - História de Inglaterra. Orlando nasce como homem e assim é até aos seus trinta anos, altura porém, em que se torna mulher da noite para o dia, depois de um estranho sono prolongado. É imensamente interessante o paralelismo e pensamentos e sentimentos antagónicos entre o Orlando-homem e o Orlando-mulher. 

Ao longo da narrativa, há muitas críticas e teorias acerca da escrita, do que é escrever, de quem são os escritores e poetas e das ilusões que criamos a seu respeito. 

Não posso dizer que tenha gostado tanto deste romance como dos outros que já li da autora. Aliás, em termos de expectativas este ficou muito aquém de uma "Mrs. Dalloway" ou "As Ondas". Gosto mais da escrita de Woolf quando vagueia pelos pensamentos das suas personagens. Aqui em Orlando, apreciei, todavia, o discurso que o narrador (biógrafo) estabelece directamente com o leitor. 

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Jane Eyre, Charlotte Brontë (1847)

Ficção - Romance - Clássicos

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Já há muito tempo que queria ler este livro. A grande rivalidade que parece haver entre Brontë e Austen animavam ainda mais o meu espírito e incitavam-me a agarrar nesta obra. É sem surpresa que digo que gostei bastante.

Jane Eyre, publicado em 1847, é a autobiografia ficcional dessa personagem. Começa por nos apresentar a sua triste vida em criança em casa de Mrs. Reed, sua tia, que lhe tem uma aversão hedionda e que acaba por a mandar para um Colégio interno de caridade - Lowood, onde a vida de Jane Eyre não melhora, pelo menos nos primeiros tempos, depois conhece Helen Burns (a sua única amiga até conhecer Mr. Rochester) que tem um fim triste. Embora não tenha sido um tempo particularmente feliz, em Lowood Jane estuda durante seis anos e acaba por lá ficar a ensinar durante dois anos.

Aos 18 anos faz um anúncio num jornal a procurar um lugar como preceptora. Mrs. Fairfax responde e Jane parte para Thornfield Hall, onde vai ser feliz. Aí conhece o sarcástico Mr. Rochester que brinca fortemente com os sentimentos de Jane Eyre, cego de paixão. Mas Thornfield Hall esconde um segredo muito bem guardado que por vezes se solta e vagueia durante a noite. Confesso que sentimos alguns arrepios nessas partes. A paixão entre Jane Eyre e Mr. Rochester acaba por se desenvolver e chegam mesmo a (quase) casar-se - mas há um impedimento. Esse impedimento levará Jane a fugir. Encontrando em Morton uma família que a recolhe e para quem irá tornar-se uma "irmã". Aí ganha a sua independência e nova proposta de casamento. No entanto, antes de aceitar, decide procurar novamente Mr. Rochester e as notícias que recebe ao chegar a Thornfield Hall em ruínas, não são nada boas. Este Mr. Rochester longe de ser aquele que conhecemos nos primeiros capítulos, mantém o seu sarcasmo e ironia e o grande amor por Jane Eyre.

Confesso que achei algumas partes da história demasiado moralistas. Quer dizer, talvez esta não seja a palavra indicada, mas personagens como Helen Burns e St. John massacraram-me as entranhas e não consegui encontrar neles a "tal" grandiosidade de que nos fala a obra. Em Helen Burns não tanto (embora ache alguns dos seus diálogos demasiado forçados, encontrei nela uma certa consolação, tal como Jane) mas St. John tão temente a Deus e tão obstinado fizeram-me desgostar do seu carácter.

Mr. Rochester é daquelas personagens que nos causa um turbilhão de sensações e que vive nos extremos, ou gostamos muito ou não gostamos nada; eu experimentei ambas, embora tenha achado sempre o seu lado irónico e cínico irresistíveis. Jane Eyre, creio que é impossível não gostar dela, em certas alturas fez-me lembrar Elinor Dashwood e também Jane Fairfax. Adorei a batalha mental que ela travou enquanto desconheceu a paixão de Mr. Rochester por ela. Uma diferença que notei é que Brontë exacerba bastante a Independência da mulher, o que me agradou. Em Jane Austen, a mulher está destinada a casar (isto não é uma crítica, uma vez que era assim o pensamento da altura) com Brontë, a quimera da Independência começa a aparecer no horizonte - mas também esta heroína acaba por casar com o amor da sua vida.

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O Primo Basílio, Eça de Queiroz (1878)

Ficção - Romance - Clássicos

01.01.19 | L.F. Madeira

(review/opinião anterior a 2015, não revista)

O Primo Basílio, publicado em 1878,  é um clássico do Realismo da literatura portuguesa. Este romance  retrata a sociedade portuguesa oitocentista, com os seus vícios e virtudes, e muita sátira à mistura, como é típico de Eça de Queiroz.  

Basílio, o primo rico do Brasil; Luísa, a mulher e amante; Jorge, o marido; e Juliana, a empregada - estas são as personagens centrais de um romance que se lê num trago. Assumindo o lar burguês como cenário para o enredo, onde desvelamos os defeitos da sociedade burguesa da época, como a ociosidade e a futilidade. 

Foi o primeiro livro que li de Eça de Queiroz. Foi a minha estreia. Percebe-se pelo título do meu blogue, que sou uma grande fã de Eça de Queiroz, e a bem dizer essa "paixão" começou exactamente com este livro.

Não escondo quão empolgada fiquei logo nas primeiras páginas, tinha apenas quatorze anos. 
A família burguesa no seu melhor, Luísa e Jorge como o casal perfeito; Basílio como o arrebatador de corações; Juliana como a criada execrável. 

Até à data, nunca tinha sentido tanta repulsa por uma personagem como aquela que senti pela criada Juliana. Mandava-lhe pragas e tudo! Embora a tenha abominado do principio ao fim da história, creio que raramente encontrei alguma personagem tão subtilmente complexa quanto ela. De certa forma, fui ganhando uma espécie de admiração repulsiva pela sua amargura e ódio doentio. A forma como ela toma conta da vida da patroa e de como a certa altura a controla, é pura tirania.

Em suma, Luísa e Jorge são, aparentemente, um casal perfeito. Jorge sai de casa por uma temporada em trabalho. Luísa fica sozinha, e num dia aparece o seu primo Basílio, por quem teve uma pequena paixão na juventude. O reencontro resulta mais tarde na traição de Luísa para com o marido. Juliana descobre e guarda cartas que revelam toda a paixão entre Luísa e Basílio e ameaça Luísa de que irá mostrar as ditas a Jorge se ela não lhe der o melhor quarto da casa, as melhores roupas, se não lhe fizer o trabalho doméstico, etc.

No fim, Luísa adoece. Jorge regressa, descobre as cartas e a traição da mulher, mas perdoa-a, morrendo ela prematuramente. 

Uma nota final, reveladora do tempo e época em que foi escrita, mas não deixa de existir sempre um padrão nestes romances de adultério, por qualquer razão, a figura feminina acaba sempre por ser a grande infractora e o alvo de todas as consequências, como se a censura só pendesse para um lado.

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A Duas Vozes, William Golding (1995)

Ficção histórica - Mitologia

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Trouxe este livro da biblioteca por acaso, e simplesmente porque na capa dizia "Prémio Nobel", estava desesperada e nenhum livro me chamava à atenção e pensei, se o autor ganhou um Nobel é porque tem de ser Muito Bom, agarrei no livro e requisitei-o. Bendita a hora em que o fiz!

Adorei o livro do princípio ao fim.

Mas tenho de admitir que algumas partes me passaram ao lado, não que não me tenha esforçado por entender, simplesmente não compreendia - preciso de mais 'background' literário!

Penso que percebi a história, uma rapariga dos tempos em que a Grécia era a Grande Civilização, torna-se no Oráculo de Delfos. É muito interessante, porque ela (Araeka) vai mostrando um pouco da discriminação das mulheres na altura e da Magnificiência de toda a Civilização Grega.

Torna-se numa Pítia, uma mulher que é Oráculo, que é uma espécie de intermédio dos Deuses para falar com os Mortais, embora na história percebamos que isso não passa de uma falsidade. Iódines, Sacerdote de Apolo, acompanha Araeka e ensina-lhe tudo acerca do Oráculo, e como a Pítia não fala directamente com as pessoas, ele, Iónides, transmite o que a Pítia houve dos Deuses, no fundo, inventa o que convém.

Ou seja, acabei o livro e achei que tudo aquilo era falso, uma junção de interesses, que não existiam deuses a quem recorrer, Araeka sente isso, diz que há um 'vazio' que os deuses lhe viraram as costas e no fim, já ela se conformou, já não lhe importa que Iónides invente as profecias. Iónides acaba por morrer demente.

No fim, Araeka, pede para que quando ela morra não lhe façam nenhuma estátua (como era costume fazerem às Pítias) que lhe façam simplesmente uma lápide e escrevam "ao Deus Desconhecido".

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O Grande Gatsby, F. Scott Fitzgerald (1925)

Ficção - Romance - Clássicos

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Publicado em 1925, o enredo tem por cenário a cidade de Nova Iorque e Long Island durante o Verão quente de 1922.  Um excelente retrato daquilo que era a sociedade norte-americana nos loucos anos 20

Estava à espera de um personagem com um carisma arrebatador, Gatsby soava a singularidade e transpirava originalidade. Mas afinal, não passava de um excêntrico com pouco interesse. 

Não posso dizer que não tenha gostado ou que se trata de um livro intragável, longe disso, a leitura faz-se limpa e ligeiramente. Aliás, embora considere que se demora muito com adjectivos, o efeito visual do livro é muito forte.

Tenho dúvidas de que o romance Gatsby-Daisy tenha sido bem concebido, de comum encontrei muito pouco. O próprio mistério acerca da história de vida e passado de Gatsby é revelado rápido demais, sem nos deixar expectantes. 

O ponto forte, julgo, será o passeio a Nova Iorque de Daisy, Tom, Gatsby, Jordan e Nick - a ida e o regresso naquele carro amarelo. 

Gatsby é um personagem que subiu com esforço na vida, vindo do nada, ganhou milhares de dólares - de forma um pouco obscura, de facto. As estrondosas festas que dava em sua casa, mais não eram do que a prova provada da sua solidão profunda e amarga, a espera ansiosa por um sonho que nunca poderia acontecer e do qual se alimentou sem dele resultarem quaisquer frutos.

O final trágico teria de ocorrer, pois a vida de Gatsby não fazia sentido sem o amor idílico que criara, pois ele já alcançara tudo, excepto a harmonia que se consegue quando se ama e se é amado. Mas manteve a esperança até ao fim e isso, se calhar, é aquilo que lhe dá a originalidade que eu julguei não encontrar.

Um clássico moderno da literatura norte-americana e que deve constar de uma capaz lista de livros. Gatsby não me arrebatou o coração, mas recomendo-o vivamente, mais não seja, para me contradizerem na minha apreciação!

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Ana Karenina, Lev Tolstoi (1877)

Ficção - Romance - Clássicos

01.01.19 | L.F. Madeira

(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Um grande, imenso clássico. Quando decidi começar a lê-lo achei que tomava em mãos apenas uma grande obra, mas não, naquele dia, tomei em mãos uma das magistrais obras-primas da literatura mundial.

Tendo começado a ser publicado num periódico, assume a forma de livro em 1877. Se é certo que Guerra e Paz é o título maior de Leo Tolstoy, Anna Karenina segue-lhe de imediato. O livro é intenso, envolvente e ultrapassa a história de amor de Ana e Vronsky. É tão intenso quão complexo, basta recordar a imensidão de personagens que o integram e o tempo que demoramos a assimilar quem é quem, pois na literatura russa, as mesmas personagens podem ter vários nomes. Mas não só, dependendo das edições, o livro ronda as 800 páginas. Enfim, tal como disse, este livro é uma imensidão!

A história desenrola-se na Rússia do século XIX e mostra-nos não só a sociedade aristocrática ou imperial russa, mas também a sociedade rural, por exemplo, quando lemos as passagens relativas a Kostya um proprietário rural, um filósofo, um homem sério e íntegro que acaba por se casar com Kitty depois desta o ter rejeitado.

A história principal é a que envolve Ana Karenina num caso extra-conjugal com o Conde Vronsky. A ideia que tinha era de que a ia culpar, de que ia ver nela defeitos e fraquezas, que ela iria ser destituída de carácter, mas não, mesmo nos próprios erros que comete, nunca a consegui julgar porque, a história envolve-nos de tal forma, que Ana parece sempre inocente e vítima aos nossos olhos, inocente e vítima de um amor que não pode controlar tal é a sua genuinidade e afeição. E o final mostra-nos precisamente quão verdadeiramente vítima Ana era da sua situação.

Mas essa não é a única história, em paralelo, a paixão de Kitty por Vronsky, a sua decepção, o seu crescimento e amadurecimento, o seu casamento com Kostya, são também deveras interessantes. Assim como a história análoga de Oblonsky (irmão de Ana) e da sua mulher que em tudo se parece com o que sucedeu com Ana (pelo menos, ambos tiveram amantes durante o casamento), mas em que os géneros estão alterados e para Oblonsky não existe qualquer consequência, nem a nível familiar, nem a nível da sociedade, graças à ajuda de Ana que convenceu a cunhada a não terminar o casamento (o que não deixa de ser irónico).

Existem muitos temas discutidos no livro, para além do adultério, discutem-se muito temas políticos. Igualmente nos dá uma imagem do que viria a ser a Rússia mais tarde sob a hegemonia comunista. São também abordados temas morais, como a distinção entre o Bem e o Mal, o justo e injusto, questões latentes em toda a obra.

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Mrs. Dalloway, Virginia Woolf (1925)

Ficção - Romance - Clássicos

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

É preciso gostar do género de escrita de Virginia Woolf para ler os livros dela, de outra forma, creio que se tornará impossível e até enfadonha a sua leitura. Eu tenho a sorte de gostar e de poder desfrutar da sua escrita quase cinematográfica, onde tudo é descrito e onde existe sempre um movimento constante entre as vidas das personagens que se cruzam no quotidiano.

Mrs. Dalloway é a grande obra de Virginia Woolf, o primeiro dos seus romances a sair do tradicional tipo de escrita britânico. Publicado em 1925, e constando da lista dos melhores livros de sempre, nesta obra acompanhamos a personagem principal durante um único dia da sua vida.

Clarissa Dalloway, uma socialite da Inglaterra pós I Guerra Mundial, é a personagem central, e a acção de todo o livro decorre num único dia, que culmina com a festa que Clarissa irá proporcionar aos seus amigos e conhecidos nessa noite.

Nesse curto espaço de tempo, apresentam-nos imensas personagens que pertenceram ao passado de Clarissa, e através delas, conhecemos a época áurea de Clarissa - a sua juventude, que em tudo contrasta com aquilo que Clarissa é hoje.

Enquanto leitores, vemos o passado, o presente e o futuro das diversas personagens a passar-nos pela frente e partilhamos com eles os seus desejos, anseios e opiniões; assistimos às suas críticas aos outros e ao seu conformismo com o presente.

A escrita de Woolf é envolvente, tão envolvente ao ponto de nos confundirmos com as personagens, ou pelo menos de as entranharmos na nossa pele. Mrs. Dalloway é um dos meus livros preferidos e que releio em tempos de maior ansiedade. 

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Carlota Joaquina - O Pecado Espanhol, Marsilio Cassotti (2009)

Ficção histórica - Romance

01.01.19 | L.F. Madeira

(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Não se trata de uma obra ficcionada onde a personagem principal é Carlota Joaquina, mas antes, uma biografia daquela que viria a ser a última rainha portuguesa vinda de Espanha.

Temos, generalizadamente, uma má imagem de Carlota Joaquina - quem não recorda a insistência em não jurar a Constituição? Ou o apoio constante na subida de D. Miguel (seu filho) ao trono, em busca do poder absoluto?

Bem, confesso que o livro mostra várias facetas de Carlota desde tenra idade até aos seus 55 anos, mas aquilo que ressalta é a busca constante e quase sempre frustrada na tentativa de alcançar um verdadeiro poder recorrendo a muitos subterfúgios, intrigas, rupturas conjugais, preferências filiais para o alcançar.

Podemos estar em desacordo com o pensamento e atitudes desta rainha, mas que tinha carisma e um certo grau excentricismo, isso tinha, sem dúvida!

Um excelente romance histórico para os amantes deste género!

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As Ondas, Virginia Woolf (1931)

Ficção - Clássicos

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Na sinopse desta obra, consta a seguinte afirmação "a mestria de Woolf está em ter chegado a esses fugidios cantos do espírito humano. Como as ondas", e de facto, é essa a sensação ao terminar este romance - provavelmente o trabalho mais experimental de Woolf, publicado em 1931. 

Foi o primeiro romance de Virginia Woolf que tomei em mãos e não foi tarefa fácil. O livro é magnífico e deixou em mim uma profunda marca, mas aviso os leitores de que é um livro que precisa de disponibilidade, tempo para absorver, para ir e vir com as ondas. 

Em As Ondas, não há diálogos entre as personagens, apenas há o seu pensamento. É quase como se, numa mesa, estivessem seis pessoas que intercomunicavam uns com os outros, mas nós, leitores, não ouvíamos as suas falas, ao invés, íamos percorrendo, um a um, tudo aquilo que lhes ia passando pela cabeça, todos os seus pensamentos - o livro é exactamente assim!

E vamos lendo os seus pensamentos ao longo do seu crescimento, pois o romance acompanha os personagens desde a infância até à idade adulta, o que é fascinante!

O livro tem seis personagens, Rhoda, Susan, Jinny, Louis, Neville e Bernard com quem temos contacto directo com os seus pensamentos. Mas depois, entre eles, tudo gira em torno de um personagem ao qual não temos acesso - Percival, cuja morte marca todo o livro. Devo admitir que não percebi o que é que levava aqueles seis personagens a ter uma adoração tão grande por aquele personagem desconhecido (pelo menos aos leitores), viu-o como algo que nós desejamos muito alcançar - o poder. E a morte dele vai arruinar toda a vida dos outros, tanto que todos parecem desistir da vida, atribuindo essa perda de vontade à idade.

Outra coisa engraçada é que ao longo da história, cada um tem os seus medos, e em todos, encontramos os nossos próprios medos, fazendo com que sejamos um pouco de um e de outro.

É uma obra monumental, linda, capaz de misturar prosa e poesia. Para mim, e gosto muito de Mrs. Dalloway, As Ondas são a obra prima de Woolf. 

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O Verão Antes das Trevas, Doris Lessing (1973)

Ficção - Romance

01.01.19 | L.F. Madeira

(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Publicado em 1973, Doris Lessing apresenta-nos como personagem principal Kate Brown, uma mulher nos seus 45 anos. 

A história inicia-se no principio do Verão e termina no fim do mesmo e a mudança que ocorre nesta personagem é tal que me senti perturbada no fim da leitura.

Kate tem 45 anos, quatro filhos já crescidos, um casamento aparentemente saudável. No fundo, tinha uma vida encaminhada. "Mas com o terminar daquele Verão, a mulher que era - vivendo por detrás de uma camuflagem protectora repleta de encanto e doçurafeminina - já não mais existe."

A história mostra-nos a viragem da juventude para a velhice, mostra-nos a loucura desse Verão de Kate que começa por ir trabalhar como intérprete em Londres e depois vai para a Turquia onde se involve numa relação com um americano mais novo que ele e que a leva para Espanha. Volta a Londres doente, sem saber de quê. Acaba por alugar um quarto em casa de uma rapariga com pouco mais de 19 anos e é aí que se confronta com a sua nova realidade - a meia idade.

É uma obra bastante feminina, não falássemos nós de Doris Lessing. É cativante mas sinto que não a compreendi totalmente. É daqueles livros para rever mais tarde.

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