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Queirosiana

Blogue sobre livros, leituras, escritores e opiniões

Orlando, Virginia Woolf (1928)

Ficção - Fantasia - Clássicos - LGBT

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Orlando, publicado em 1928 é considerado um clássico do feminismo e baseia-se, parcialmente, na vida íntima da amiga e amante de Woolf, Vita Sackville-West. 

Orlando é escrito como biografia da personagem com o mesmo nome. A narrativa foge um pouco do estilo de escrita de Virginia Woolf, no sentido em que não saltamos de consciência em consciência entre as várias personagens. 

Orlando tem a peculiaridade de ser imortal ou pelo menos, de viver o suficiente para acompanhar dois séculos de história - História de Inglaterra. Orlando nasce como homem e assim é até aos seus trinta anos, altura porém, em que se torna mulher da noite para o dia, depois de um estranho sono prolongado. É imensamente interessante o paralelismo e pensamentos e sentimentos antagónicos entre o Orlando-homem e o Orlando-mulher. 

Ao longo da narrativa, há muitas críticas e teorias acerca da escrita, do que é escrever, de quem são os escritores e poetas e das ilusões que criamos a seu respeito. 

Não posso dizer que tenha gostado tanto deste romance como dos outros que já li da autora. Aliás, em termos de expectativas este ficou muito aquém de uma "Mrs. Dalloway" ou "As Ondas". Gosto mais da escrita de Woolf quando vagueia pelos pensamentos das suas personagens. Aqui em Orlando, apreciei, todavia, o discurso que o narrador (biógrafo) estabelece directamente com o leitor. 

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Jane Eyre, Charlotte Brontë (1847)

Ficção - Romance - Clássicos

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Já há muito tempo que queria ler este livro. A grande rivalidade que parece haver entre Brontë e Austen animavam ainda mais o meu espírito e incitavam-me a agarrar nesta obra. É sem surpresa que digo que gostei bastante.

Jane Eyre, publicado em 1847, é a autobiografia ficcional dessa personagem. Começa por nos apresentar a sua triste vida em criança em casa de Mrs. Reed, sua tia, que lhe tem uma aversão hedionda e que acaba por a mandar para um Colégio interno de caridade - Lowood, onde a vida de Jane Eyre não melhora, pelo menos nos primeiros tempos, depois conhece Helen Burns (a sua única amiga até conhecer Mr. Rochester) que tem um fim triste. Embora não tenha sido um tempo particularmente feliz, em Lowood Jane estuda durante seis anos e acaba por lá ficar a ensinar durante dois anos.

Aos 18 anos faz um anúncio num jornal a procurar um lugar como preceptora. Mrs. Fairfax responde e Jane parte para Thornfield Hall, onde vai ser feliz. Aí conhece o sarcástico Mr. Rochester que brinca fortemente com os sentimentos de Jane Eyre, cego de paixão. Mas Thornfield Hall esconde um segredo muito bem guardado que por vezes se solta e vagueia durante a noite. Confesso que sentimos alguns arrepios nessas partes. A paixão entre Jane Eyre e Mr. Rochester acaba por se desenvolver e chegam mesmo a (quase) casar-se - mas há um impedimento. Esse impedimento levará Jane a fugir. Encontrando em Morton uma família que a recolhe e para quem irá tornar-se uma "irmã". Aí ganha a sua independência e nova proposta de casamento. No entanto, antes de aceitar, decide procurar novamente Mr. Rochester e as notícias que recebe ao chegar a Thornfield Hall em ruínas, não são nada boas. Este Mr. Rochester longe de ser aquele que conhecemos nos primeiros capítulos, mantém o seu sarcasmo e ironia e o grande amor por Jane Eyre.

Confesso que achei algumas partes da história demasiado moralistas. Quer dizer, talvez esta não seja a palavra indicada, mas personagens como Helen Burns e St. John massacraram-me as entranhas e não consegui encontrar neles a "tal" grandiosidade de que nos fala a obra. Em Helen Burns não tanto (embora ache alguns dos seus diálogos demasiado forçados, encontrei nela uma certa consolação, tal como Jane) mas St. John tão temente a Deus e tão obstinado fizeram-me desgostar do seu carácter.

Mr. Rochester é daquelas personagens que nos causa um turbilhão de sensações e que vive nos extremos, ou gostamos muito ou não gostamos nada; eu experimentei ambas, embora tenha achado sempre o seu lado irónico e cínico irresistíveis. Jane Eyre, creio que é impossível não gostar dela, em certas alturas fez-me lembrar Elinor Dashwood e também Jane Fairfax. Adorei a batalha mental que ela travou enquanto desconheceu a paixão de Mr. Rochester por ela. Uma diferença que notei é que Brontë exacerba bastante a Independência da mulher, o que me agradou. Em Jane Austen, a mulher está destinada a casar (isto não é uma crítica, uma vez que era assim o pensamento da altura) com Brontë, a quimera da Independência começa a aparecer no horizonte - mas também esta heroína acaba por casar com o amor da sua vida.

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O Primo Basílio, Eça de Queiroz (1878)

Ficção - Romance - Clássicos

01.01.19 | L.F. Madeira

(review/opinião anterior a 2015, não revista)

O Primo Basílio, publicado em 1878,  é um clássico do Realismo da literatura portuguesa. Este romance  retrata a sociedade portuguesa oitocentista, com os seus vícios e virtudes, e muita sátira à mistura, como é típico de Eça de Queiroz.  

Basílio, o primo rico do Brasil; Luísa, a mulher e amante; Jorge, o marido; e Juliana, a empregada - estas são as personagens centrais de um romance que se lê num trago. Assumindo o lar burguês como cenário para o enredo, onde desvelamos os defeitos da sociedade burguesa da época, como a ociosidade e a futilidade. 

Foi o primeiro livro que li de Eça de Queiroz. Foi a minha estreia. Percebe-se pelo título do meu blogue, que sou uma grande fã de Eça de Queiroz, e a bem dizer essa "paixão" começou exactamente com este livro.

Não escondo quão empolgada fiquei logo nas primeiras páginas, tinha apenas quatorze anos. 
A família burguesa no seu melhor, Luísa e Jorge como o casal perfeito; Basílio como o arrebatador de corações; Juliana como a criada execrável. 

Até à data, nunca tinha sentido tanta repulsa por uma personagem como aquela que senti pela criada Juliana. Mandava-lhe pragas e tudo! Embora a tenha abominado do principio ao fim da história, creio que raramente encontrei alguma personagem tão subtilmente complexa quanto ela. De certa forma, fui ganhando uma espécie de admiração repulsiva pela sua amargura e ódio doentio. A forma como ela toma conta da vida da patroa e de como a certa altura a controla, é pura tirania.

Em suma, Luísa e Jorge são, aparentemente, um casal perfeito. Jorge sai de casa por uma temporada em trabalho. Luísa fica sozinha, e num dia aparece o seu primo Basílio, por quem teve uma pequena paixão na juventude. O reencontro resulta mais tarde na traição de Luísa para com o marido. Juliana descobre e guarda cartas que revelam toda a paixão entre Luísa e Basílio e ameaça Luísa de que irá mostrar as ditas a Jorge se ela não lhe der o melhor quarto da casa, as melhores roupas, se não lhe fizer o trabalho doméstico, etc.

No fim, Luísa adoece. Jorge regressa, descobre as cartas e a traição da mulher, mas perdoa-a, morrendo ela prematuramente. 

Uma nota final, reveladora do tempo e época em que foi escrita, mas não deixa de existir sempre um padrão nestes romances de adultério, por qualquer razão, a figura feminina acaba sempre por ser a grande infractora e o alvo de todas as consequências, como se a censura só pendesse para um lado.

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A Duas Vozes, William Golding (1995)

Ficção histórica - Mitologia

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Trouxe este livro da biblioteca por acaso, e simplesmente porque na capa dizia "Prémio Nobel", estava desesperada e nenhum livro me chamava à atenção e pensei, se o autor ganhou um Nobel é porque tem de ser Muito Bom, agarrei no livro e requisitei-o. Bendita a hora em que o fiz!

Adorei o livro do princípio ao fim.

Mas tenho de admitir que algumas partes me passaram ao lado, não que não me tenha esforçado por entender, simplesmente não compreendia - preciso de mais 'background' literário!

Penso que percebi a história, uma rapariga dos tempos em que a Grécia era a Grande Civilização, torna-se no Oráculo de Delfos. É muito interessante, porque ela (Araeka) vai mostrando um pouco da discriminação das mulheres na altura e da Magnificiência de toda a Civilização Grega.

Torna-se numa Pítia, uma mulher que é Oráculo, que é uma espécie de intermédio dos Deuses para falar com os Mortais, embora na história percebamos que isso não passa de uma falsidade. Iódines, Sacerdote de Apolo, acompanha Araeka e ensina-lhe tudo acerca do Oráculo, e como a Pítia não fala directamente com as pessoas, ele, Iónides, transmite o que a Pítia houve dos Deuses, no fundo, inventa o que convém.

Ou seja, acabei o livro e achei que tudo aquilo era falso, uma junção de interesses, que não existiam deuses a quem recorrer, Araeka sente isso, diz que há um 'vazio' que os deuses lhe viraram as costas e no fim, já ela se conformou, já não lhe importa que Iónides invente as profecias. Iónides acaba por morrer demente.

No fim, Araeka, pede para que quando ela morra não lhe façam nenhuma estátua (como era costume fazerem às Pítias) que lhe façam simplesmente uma lápide e escrevam "ao Deus Desconhecido".

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O Grande Gatsby, F. Scott Fitzgerald (1925)

Ficção - Romance - Clássicos

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Publicado em 1925, o enredo tem por cenário a cidade de Nova Iorque e Long Island durante o Verão quente de 1922.  Um excelente retrato daquilo que era a sociedade norte-americana nos loucos anos 20

Estava à espera de um personagem com um carisma arrebatador, Gatsby soava a singularidade e transpirava originalidade. Mas afinal, não passava de um excêntrico com pouco interesse. 

Não posso dizer que não tenha gostado ou que se trata de um livro intragável, longe disso, a leitura faz-se limpa e ligeiramente. Aliás, embora considere que se demora muito com adjectivos, o efeito visual do livro é muito forte.

Tenho dúvidas de que o romance Gatsby-Daisy tenha sido bem concebido, de comum encontrei muito pouco. O próprio mistério acerca da história de vida e passado de Gatsby é revelado rápido demais, sem nos deixar expectantes. 

O ponto forte, julgo, será o passeio a Nova Iorque de Daisy, Tom, Gatsby, Jordan e Nick - a ida e o regresso naquele carro amarelo. 

Gatsby é um personagem que subiu com esforço na vida, vindo do nada, ganhou milhares de dólares - de forma um pouco obscura, de facto. As estrondosas festas que dava em sua casa, mais não eram do que a prova provada da sua solidão profunda e amarga, a espera ansiosa por um sonho que nunca poderia acontecer e do qual se alimentou sem dele resultarem quaisquer frutos.

O final trágico teria de ocorrer, pois a vida de Gatsby não fazia sentido sem o amor idílico que criara, pois ele já alcançara tudo, excepto a harmonia que se consegue quando se ama e se é amado. Mas manteve a esperança até ao fim e isso, se calhar, é aquilo que lhe dá a originalidade que eu julguei não encontrar.

Um clássico moderno da literatura norte-americana e que deve constar de uma capaz lista de livros. Gatsby não me arrebatou o coração, mas recomendo-o vivamente, mais não seja, para me contradizerem na minha apreciação!

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Ana Karenina, Lev Tolstoi (1877)

Ficção - Romance - Clássicos

01.01.19 | L.F. Madeira

(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Um grande, imenso clássico. Quando decidi começar a lê-lo achei que tomava em mãos apenas uma grande obra, mas não, naquele dia, tomei em mãos uma das magistrais obras-primas da literatura mundial.

Tendo começado a ser publicado num periódico, assume a forma de livro em 1877. Se é certo que Guerra e Paz é o título maior de Leo Tolstoy, Anna Karenina segue-lhe de imediato. O livro é intenso, envolvente e ultrapassa a história de amor de Ana e Vronsky. É tão intenso quão complexo, basta recordar a imensidão de personagens que o integram e o tempo que demoramos a assimilar quem é quem, pois na literatura russa, as mesmas personagens podem ter vários nomes. Mas não só, dependendo das edições, o livro ronda as 800 páginas. Enfim, tal como disse, este livro é uma imensidão!

A história desenrola-se na Rússia do século XIX e mostra-nos não só a sociedade aristocrática ou imperial russa, mas também a sociedade rural, por exemplo, quando lemos as passagens relativas a Kostya um proprietário rural, um filósofo, um homem sério e íntegro que acaba por se casar com Kitty depois desta o ter rejeitado.

A história principal é a que envolve Ana Karenina num caso extra-conjugal com o Conde Vronsky. A ideia que tinha era de que a ia culpar, de que ia ver nela defeitos e fraquezas, que ela iria ser destituída de carácter, mas não, mesmo nos próprios erros que comete, nunca a consegui julgar porque, a história envolve-nos de tal forma, que Ana parece sempre inocente e vítima aos nossos olhos, inocente e vítima de um amor que não pode controlar tal é a sua genuinidade e afeição. E o final mostra-nos precisamente quão verdadeiramente vítima Ana era da sua situação.

Mas essa não é a única história, em paralelo, a paixão de Kitty por Vronsky, a sua decepção, o seu crescimento e amadurecimento, o seu casamento com Kostya, são também deveras interessantes. Assim como a história análoga de Oblonsky (irmão de Ana) e da sua mulher que em tudo se parece com o que sucedeu com Ana (pelo menos, ambos tiveram amantes durante o casamento), mas em que os géneros estão alterados e para Oblonsky não existe qualquer consequência, nem a nível familiar, nem a nível da sociedade, graças à ajuda de Ana que convenceu a cunhada a não terminar o casamento (o que não deixa de ser irónico).

Existem muitos temas discutidos no livro, para além do adultério, discutem-se muito temas políticos. Igualmente nos dá uma imagem do que viria a ser a Rússia mais tarde sob a hegemonia comunista. São também abordados temas morais, como a distinção entre o Bem e o Mal, o justo e injusto, questões latentes em toda a obra.

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Mrs. Dalloway, Virginia Woolf (1925)

Ficção - Romance - Clássicos

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

É preciso gostar do género de escrita de Virginia Woolf para ler os livros dela, de outra forma, creio que se tornará impossível e até enfadonha a sua leitura. Eu tenho a sorte de gostar e de poder desfrutar da sua escrita quase cinematográfica, onde tudo é descrito e onde existe sempre um movimento constante entre as vidas das personagens que se cruzam no quotidiano.

Mrs. Dalloway é a grande obra de Virginia Woolf, o primeiro dos seus romances a sair do tradicional tipo de escrita britânico. Publicado em 1925, e constando da lista dos melhores livros de sempre, nesta obra acompanhamos a personagem principal durante um único dia da sua vida.

Clarissa Dalloway, uma socialite da Inglaterra pós I Guerra Mundial, é a personagem central, e a acção de todo o livro decorre num único dia, que culmina com a festa que Clarissa irá proporcionar aos seus amigos e conhecidos nessa noite.

Nesse curto espaço de tempo, apresentam-nos imensas personagens que pertenceram ao passado de Clarissa, e através delas, conhecemos a época áurea de Clarissa - a sua juventude, que em tudo contrasta com aquilo que Clarissa é hoje.

Enquanto leitores, vemos o passado, o presente e o futuro das diversas personagens a passar-nos pela frente e partilhamos com eles os seus desejos, anseios e opiniões; assistimos às suas críticas aos outros e ao seu conformismo com o presente.

A escrita de Woolf é envolvente, tão envolvente ao ponto de nos confundirmos com as personagens, ou pelo menos de as entranharmos na nossa pele. Mrs. Dalloway é um dos meus livros preferidos e que releio em tempos de maior ansiedade. 

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Carlota Joaquina - O Pecado Espanhol, Marsilio Cassotti (2009)

Ficção histórica - Romance

01.01.19 | L.F. Madeira

(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Não se trata de uma obra ficcionada onde a personagem principal é Carlota Joaquina, mas antes, uma biografia daquela que viria a ser a última rainha portuguesa vinda de Espanha.

Temos, generalizadamente, uma má imagem de Carlota Joaquina - quem não recorda a insistência em não jurar a Constituição? Ou o apoio constante na subida de D. Miguel (seu filho) ao trono, em busca do poder absoluto?

Bem, confesso que o livro mostra várias facetas de Carlota desde tenra idade até aos seus 55 anos, mas aquilo que ressalta é a busca constante e quase sempre frustrada na tentativa de alcançar um verdadeiro poder recorrendo a muitos subterfúgios, intrigas, rupturas conjugais, preferências filiais para o alcançar.

Podemos estar em desacordo com o pensamento e atitudes desta rainha, mas que tinha carisma e um certo grau excentricismo, isso tinha, sem dúvida!

Um excelente romance histórico para os amantes deste género!

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As Ondas, Virginia Woolf (1931)

Ficção - Clássicos

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Na sinopse desta obra, consta a seguinte afirmação "a mestria de Woolf está em ter chegado a esses fugidios cantos do espírito humano. Como as ondas", e de facto, é essa a sensação ao terminar este romance - provavelmente o trabalho mais experimental de Woolf, publicado em 1931. 

Foi o primeiro romance de Virginia Woolf que tomei em mãos e não foi tarefa fácil. O livro é magnífico e deixou em mim uma profunda marca, mas aviso os leitores de que é um livro que precisa de disponibilidade, tempo para absorver, para ir e vir com as ondas. 

Em As Ondas, não há diálogos entre as personagens, apenas há o seu pensamento. É quase como se, numa mesa, estivessem seis pessoas que intercomunicavam uns com os outros, mas nós, leitores, não ouvíamos as suas falas, ao invés, íamos percorrendo, um a um, tudo aquilo que lhes ia passando pela cabeça, todos os seus pensamentos - o livro é exactamente assim!

E vamos lendo os seus pensamentos ao longo do seu crescimento, pois o romance acompanha os personagens desde a infância até à idade adulta, o que é fascinante!

O livro tem seis personagens, Rhoda, Susan, Jinny, Louis, Neville e Bernard com quem temos contacto directo com os seus pensamentos. Mas depois, entre eles, tudo gira em torno de um personagem ao qual não temos acesso - Percival, cuja morte marca todo o livro. Devo admitir que não percebi o que é que levava aqueles seis personagens a ter uma adoração tão grande por aquele personagem desconhecido (pelo menos aos leitores), viu-o como algo que nós desejamos muito alcançar - o poder. E a morte dele vai arruinar toda a vida dos outros, tanto que todos parecem desistir da vida, atribuindo essa perda de vontade à idade.

Outra coisa engraçada é que ao longo da história, cada um tem os seus medos, e em todos, encontramos os nossos próprios medos, fazendo com que sejamos um pouco de um e de outro.

É uma obra monumental, linda, capaz de misturar prosa e poesia. Para mim, e gosto muito de Mrs. Dalloway, As Ondas são a obra prima de Woolf. 

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O Verão Antes das Trevas, Doris Lessing (1973)

Ficção - Romance

01.01.19 | L.F. Madeira

(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Publicado em 1973, Doris Lessing apresenta-nos como personagem principal Kate Brown, uma mulher nos seus 45 anos. 

A história inicia-se no principio do Verão e termina no fim do mesmo e a mudança que ocorre nesta personagem é tal que me senti perturbada no fim da leitura.

Kate tem 45 anos, quatro filhos já crescidos, um casamento aparentemente saudável. No fundo, tinha uma vida encaminhada. "Mas com o terminar daquele Verão, a mulher que era - vivendo por detrás de uma camuflagem protectora repleta de encanto e doçurafeminina - já não mais existe."

A história mostra-nos a viragem da juventude para a velhice, mostra-nos a loucura desse Verão de Kate que começa por ir trabalhar como intérprete em Londres e depois vai para a Turquia onde se involve numa relação com um americano mais novo que ele e que a leva para Espanha. Volta a Londres doente, sem saber de quê. Acaba por alugar um quarto em casa de uma rapariga com pouco mais de 19 anos e é aí que se confronta com a sua nova realidade - a meia idade.

É uma obra bastante feminina, não falássemos nós de Doris Lessing. É cativante mas sinto que não a compreendi totalmente. É daqueles livros para rever mais tarde.

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A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera (1984)

Ficção - Romance - Clássicos

01.01.19 | L.F. Madeira

(review/opinião anterior a 2015, não revista)

O seu título original (em Checo), Nesnesitelná lehkost bytí, surgiu pela primeira vez em 1984. Foi mais tarde adaptado para cinema com o nome "The Unbearable Lightness of Being"

Escolhemos então o quê?

Não sei quanto a vocês, mas certamente escolheria o peso. No livro existem personagens distintas, Tereza parece-me ser aquela que segue a teoria do "peso", Tomas e Sabina a "leveza". No livro, nem uma nem outra resulta em coisa alguma. Apesar de no fim, o "peso" da idade revelar uma certa felicidade que, na minha opinião, não é suficiente para apagar toda a "leveza" do amor de Tomas.

O livro possui algumas partes muito brutas e cruas, que revelam aquilo que o ser humano também é. O amor surge-nos como algo triste e doloroso (pesado) e a infidelidade como algo simples para aqueles que seguem a "leveza", dá a ideia de que é algo que não podem controlar.

É sem dúvida alguma dos melhores livros que li. As relações humanas estão longe de ser perfeitas, contudo, gosto de acreditar (talvez ingenuamente) que as relações humanas podem ter algo mais dignificante do que aquelas apresentadas neste livro.

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O Sonho Mais Doce, Doris Lessing (2001)

Ficção - Romance

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Publicado em 2001, este é um dos grandes títulos da renomada Doris Lessing.

Um livro marcante, inesquecível... é o meu terceiro livro da escritora e começa a tornar-se óbvio que o meu apreço pela escritora, mesmo antes de ler qualquer obra sua, é verdadeiro.

Este livro fala-nos dos "dourados" anos 60. Acompanhamos três gerações distintas, os seus sucessos, os seus fracassos, as suas fraquezas, as suas glórias, e acima de tudo, os seus sonhos.

Nunca vivi os anos 60, estou muito longe deles até, mas este livro revive o espírito, a mudança latente, a ruptura emergente, a rebeldia incessante, o pensamente de esquerda, as relações "liberalíssimas" e o Sonho constante de querer Mudar o Mundo...

Julia é a personagem mais velha, sogra de Frances e avó de Andrew e Colin e, mais tarde, Sylvia. Representa a geração que ainda viveu, na juventude, a 2ª Guerra e que guarda ainda dentre de si uma educação rígida e conservadora.

Frances, mãe de Andrew e Colin é a mãe liberal que torna a sua casa num albergue para jovens (amigos dos filhos, amigos dos amigos dos filhos...) que fogem de casa das suas famílias porque se sentem "incompreendidos", divorciada de Johnny um eterno comunista que defende a todo o custo da doutrina da Revolução e incentiva todos os actos contra o regime e que negligencia a educação e sustento dos filhos.

Sylvia, filha da segunda mulher de Johnny, sofre na infância os tormentos de uma mãe louca que a culpa por não ter sucesso na vida. Acaba por ir para casa de Julia, que a acolhe como uma segunda mãe e lhe dá a educação que acaba por a tornar Médica. Decide fazer voluntariado numa zona de África - Zimlia - onde se inicia o confronto com a doença, que nessa altura começava a surgir, a SIDA. Esta parte do livro é a mais inquetante e a mais crua e isso torna-a, sem dúvida, na parte fulcral e culminante de todo o enredo.

Existem depois uma série de personagens secundárias, cuja vida também acompanhamos de próximo e que demonstram, muitas delas, a sua hipocrisia, que mais não é do que a perda do Sonho, que está constantemente presente nesta obra - esse Sonho de mundar o mundo. Que resiste e persiste mesmo depois do Muro cair, mesmo depois de se conhecer o tamanho das atrocidades cometidas pelo Regime Soviético, e com uma citação do livro ... "mas onde está a surpresa, se, (apesar de tudo) é sempre O Sonho que conta?".

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As Avós E Outras Histórias, Doris Lessing (2003)

Ficção - Contos

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Desde que conheci (pela TV) esta senhora pela primeira vez, em 2007, um dia depois de ter ganho o prémio nobel, achei que tinha de ler qualquer coisa dela, enfim, três anos passaram e finalmente, leio algo desta brilhante escritora, por quem nutro uma admiração imensa, mesmo sem ter lido nenhuma obra dela (pelo menos até agora!).

Tendo em conta que este livro está dividido em quatro histórias independentes, achei que devia, para cada uma, fazer o respectivo artigo, em vez de fazer tudo de uma vez.

Esta pequena história - "As Avós", parece, se apenas vos contar um resumo uma autêntica novela, como constatei ao falar com alguns colegas meus. Mas não, pelo contrário, embora a história pareça um tanto ou quanto estranha de mais, fala simplesmente das relações humanas e de que como as nossas acções podem ter consequências inimagináveis.

Liz e Roz são duas amigas inseparáveis, desde sempre. Crescem, casam, têm filhos, uma separa-se a outra fica viúva. Tanto uma como a outra são fabulosas naquilo que fazem, e aparentemente, vistas pelos outros como perfeitas. Perfeitas amigas, perfeitas trabalhadoras, perfeitas mulheres com uma família perfeita. No entanto, algo estranho sucede quando os filhos de ambas têm por volta dos dezoito anos. Uma e outra apaixonam-se pelo filho da amiga, respectivamente.

E depois a história corre, muito rapidamente, pelo efeito que essa realação tem nos rapazes. Ambos os rapazes casam-se com raparigas das idades deles, têm filhas... e tudo, aparentemente e estranhamente normal. (Não posso contar o fim... perderia toda a graça...).

A história começa já a meio, só depois é que se dá uma "analepse" e o leitor conhece a história passada de Roz e Liz, que irá culminar no fim, onde finalmente o leitor irá compreender a situação confusa do início da história, eu tive de reler novamente depois de terminar o livro essa página e meia para compreender melhor.

Achei esta história muito semelhante ao "Leitor" de Bernhard Schilnk. Isto porque, penso que reflecte sobre uma situação semelhante - o impacto terrível que algumas acções têm na nossa vida e que as alteram de forma irremediável, tomando conta do nosso próprio carácter.

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Jane Austen e Júlio Dinis, Irwin Stern (1976)

Não-ficção - Artigo científico

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Trouxe este livro da biblioteca. Não é um livro, é um artigo de uma Revista da Gulbenkian, meia dúzia de páginas que me fizeram parar e ler.
Nunca li nada de Júlio Dinis, comecei a ler uma vez "Uma Família Inglesa", mas nunca fui adiante. Qual não é a minha surpresa quando, através deste pequeno artigo descubro que Júlio Dinis teve, eventualmente, influências de Jane Austen!?
Neste artigo descubro muitas semelhanças entre "A Morgadinha dos Canaviais" e "Sensibilidade e Bom Senso" e além disso, muitas semelhanças entre o estilo de vida e escrita de Austen e o de J. Dinis. Nesse artigo falam do facto de ambos escreverem sobre a sociedade rural da sua época e do seu país e também o facto de ambos darem relevância à figura feminina.
Não vai faltar muito até me agarrar à Morgadinha dos Canaviais, disso não haja dúvida! Deixo a sugestão para as leitoras também!

O artigo pode ser lido integralmente na versão digital aqui: http://coloquio.gulbenkian.pt/bib/sirius.exe/issueContentDisplay?n=30&o=s 

1984, George Orwell (1949)

Ficção científica - Utopia/Distopia - Clássicos

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Este livro foi escrito por Eric Arthur Blair, sob o seu pseudónimo George Orwell e publicado a 8 de Junho de 1949.

Um livro muito pesado, embora super interessantíssimo, por vezes até, sufocante!

Toda a história está envolta num clima muito opressor, onde tudo é vigiado e controlado pelo Grande Irmão através do Telecrã que existe em cada casa e que nunca desliga, passando continuamente propaganda do Partido.

Uma coisa que me impressionou muito foi a ideia da Novilíngua, que existia com o objectivo de acabar com todo o vocabulário desnecessário de forma a que, sem linguagem, os seres humanos deixassem de pensar livremente.

Já para não falar dos dois minutos de ódio, uma coisa horrenda que passava no telecrã e que apelava ao ódio e à guerra contra os inimigos do Partido.

Outra coisa que me suscitou muita curiosidade foi o facto de a personagem principal, Winston, não se recordar muito bem do seu passado, ainda sem a existência do Partido, isto porque todo o passado, presente e futuro era controlado pelo Partido. Julia é também uma personagem curiosa, gostei dela, marcante.

A existência dos "proles", desconsiderados totalmente pela restante população eram aqueles que no meio daquilo tudo tinham mais liberdade, uma vez que não eram controlados.

O fim é muito diferente de qualquer espécie de Revolução contra o Partido. Acaba mostrando a fraqueza do Homem perante o controlo total e a traição à própria dignidade e liberdade humana. Winston, depois de torturado e de ter confessado os seus crimes termina o livro dizendo que "Finalmente ama o Grande Irmão".

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A Vida era Assim em Middlemarch, George Eliot (1871)

Ficção - Romance - Clássicos

01.01.19 | L.F. Madeira

(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Parti para esta obra às escuras. Conhecia um pouco da biografia da autora e uma adaptação de Daniel Deronda, mas sobre Middlemarch nada sabia. 

Achei Middlemarch uma obra muito completa e extremamente rica em personagens. A história tem a vila de Middlemarch como cenário para diversas histórias que compõem um vasto enredo. 

Doroteia Brooke, julgo, ser a personagem principal, todavia, estou longe de a considerar uma heroína unânime. Só granjeou a minha simpatia no último livro, o sétimo, pois até lá, a sua bondade e o seu espírito de sacrifício foram sempre abafados por uma certa afectação de carácter que me impedia de render às suas qualidades. Para mim, Mary Garth é a verdadeira heroína, pois, embora amando Fred como era, não desistiu de o orientar pelo bom caminho. 

Outra história que me cativou muito mais do que a de Doroteia Brooke e o seu disparatado e ridículo casamento com Casaubon - celebrado não por amor ou interesse económico, mas sim por um interesse intelectual frustrado, como era de esperar, tendo em conta o facto de Casaubon ter mais de 30 anos de diferença de Dodo e ter uma alma velha e um espírito gasto - a relação com Will Ladislaw também não me prendeu a atenção como seria de esperar. Mas a história de Lydgate e Rosamund, essa sim, foi a que me captou toda a atenção, pois desenvolve profundamente o nível emocional da questão da (in)felicidade conjugal. Infelizmente, o meu desejo de George Eliot juntar Dodo com Lydgate não se concretizou - digo isto porque o desenvolvimento intelectual que Dodo visava seria muito mais conseguido se se tivesse juntada a alguém como Lydgate. 

Aconselho vivamente a obra, os pequenos detalhes do quotidiano de Middlemarch são todos eles interessantes, a questão das eleições para o Parlamento, a aprovação da lei, a eleição do vigário, as intrigas com Mr. Bulstrode... o universo de Middlemarch está construído sobre fortes alicerces, sem que se caia em contradições.

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A Fenda, Doris Lessing (2007)

Ficção - Fantasia - Feminismo

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Quando um livro inicia com a possibilidade "de a estirpe humana básica e primordial ser feminina e de o aparecimento dos homens ser mais tardio", a expectativa tem de ser muita e aqui me confesso, não saí de todo frustrada. 

A Fenda, publicada em 2007, precisamente no ano em que Doris Lessing foi galardoada com o Prémio Nobel de Literatura, traz à superfície o estilo irreverente e controverso de Lessing e uma perspectiva feminista muito sua. 

A Fenda trata uma história muito peculiar: E, se em tempos muito idos, as mulheres tivessem sido os primeiros seres humanos. E, ao contrário da história de Adão e Eva, o homem nascesse da mulher e não o contrário?

Esta ideia mexeu muito comigo, aliás, foi isto que me fez ler o livro. O narrador, é um cidadão romano do tempo do Imperador Nero que, paralelamente, nos vai dando alguns exemplos muito singulares da sua experiência marital e familiar.

A história começa com as Fendas, figuras femininas, que dão à luz outras Fendas pelo poder da Lua ou do Grande Peixe. A comunidade em que vivem, podemos caracterizá-la como tranquila, até ao momento em que começam a surgir os primeiros "Monstros", seres estranhos, repulsivos que, sem dó nem piedade, Elas atiram do penhasco abaixo. No entanto, alguns são salvos pelas Águias que os levam para o Vale onde sobrevivem graças à amamentação dos veados.

A partir daqui, começa a transformação desta comunidade feminina, cujo auge da "mudança" surge quando Elas decidem subir a montanha e ver o Vale e aí se deparam com os Monstros, a quem passaram também a chamar de Esguichos. A mudança começa a surgir com Maire e Astre, que dão à luz os primeiros bebés Fenda/Monstro. A partir daqui, dá-se uma profunda alteração, as mulheres deixam de dar à luz bebés sozinhas, começam a precisar dos homens.

Na história, contudo, a duas comunidades são sempre independentes uma da outra: as mulheres vivem no litoral e os homens no Vale, visitando-se mutuamente. A história termina com as mulheres a terem de ir viver com os homens para um novo litoral, uma nova fase da história, em que já se dizia que o primeiro ser humano tinha sido um Homem.

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Os Mistérios do Castelo de Udolfo, Ann Radcliffe (1794)

Ficção - Romance - Horror/Gótico - Clássicos

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)
 
Qual Catherine Morland, embarquei nesta aventura e li um dos primeiros romances góticos da história da literatura, publicado em 1794. 
 
Li esta obra apenas e só por causa de Abadia de Northanger de Jane Austen.
 
Adorei a obra do principio ao fim, fiquei presa e agarrada às páginas do livro como uma lunática, quem me visse durante a viagem de autocarro para casa ao longo desta última semana, julgar-me-ia demente tal era a minha abstracção da realidade que quase me fez esquecer de mandar parar o autocarro para ir para casa! Ainda um pouco de ressaca de tamanha história, vou tentar ser o mais lúcida possível.
 
Emilie, é a nossa personagem principal e digna da nossa admiração. Vive com os pais numa linda e pitoresca região de França, é a única filha viva do casal, cujo amor é incondicional e recíproco. Tem uma infância feliz e longe da cidade e de todas as suas tentações. Perde a mãe, vítima de uma doença súbita, e o pai decide fazer com ela uma viagem pelo sul de França e por Itália. Nessa viagem conhecem Valancourt, um jovem que viaja na solidão, dono de um carácter integro, puro e culto. Valancourt acaba por se juntar a eles nessa viagem e serve de grande ajuda pois Saint-Aubert (pai de Emilie) adoece gravemente no decorrer da jornada. Já não está com eles quando Saint-Aubert morre, numa cabana longe da sua casa, perto de um castelo que muitos dizem assombrado e que pertenceu à Marquesa de Villeroi, nome que suscita grande emoção de Saint Aubert. No leito de morte pede a Emilie que cumpra um último desejo, o de destruir umas cartas escondidas num soalho da sua casa no Valee e pede-lhe que nunca as leia. No testamento, deixa Emilie, ainda menor, a cargo da sua irmã Chéron - uma mulher fútil e sem grande sensibilidade.
 
Emilie, órfã de pai e mãe, parte para junto da tia. É por essa altura que Valancourt declara o seu amor por Emilie, totalmente correspondido, mas embora cheguem a ficar noivos, tudo cai por terra quando Chéron casa com Montoni, um italiano que se revelará um bandido da pior espécie. É ele que as leva para Itália e prepara um casamento forçado entre Emilie e um Conde italiano de grande fortuna. Tal casamento nunca se chega a realizar pois partem de rompante para um castelo, propriedade de Montoni - o Castelo de Udolfo. Aí, Emilie viverá os piores medos e terrores - desde quadros cobertos com um véu negro que escondem segredos impensáveis, a estranhos barulhos e gemidos durante a noite, corredores frios onde criadas julgam ver espíritos, estranhas melodias pela meia-noite, uma estranha porta que só fecha por fora no quarto destinado a Émilie longe de todos os outros, assaltos ao castelo durante a noite com severas batalhas de inimigos, passagens secretas, ... enfim, um terror!
 
Não posso contar mais nada, até porque o que me deu mais gozo ao ler a obra, foi não ter nenhuma ideia do que me esperava à partida, só uns pequenos lamirés dados por Jane Austen através de Catherine Morland. Aliás, este livro mostra até que ponto Cathy se encontrava influenciada por ele aquando da estadia em Northanger Abbey onde tenta a todo o custo chegar ao quarto da falecida Mrs. Tilney. Na obra de Ann Radcliffe, existe um mistério semelhante, respeitante à Marquesa de Villeroi que morreu vitima da tirania do marido e muita coisa estranha acontece no quarto onde morreu, que esteve fechado por largos anos, escondido da vista de todos. 
 
Aconselho qualquer pessoa a ler este livro, basta gostar de mistério e não ter pesadelos à noite por causa de relatos sobrenaturais que são o pão nosso de cada dia neste livro! Mas para quem leu Abadia de Northanger é uma enorme mais valia, pois grande parte das atitudes de Cathy são calaramente compreensíveis depois de ler Os Mistérios de Udolfo.
 

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O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde (1890)

Ficção - Horror/Gótico - Clássicos

01.01.19 | L.F. Madeira

(review/opinião anterior a 2015, não revista)

O Retrato de Dorian Gray, publicado em 1890, é considerado pela crítica como a melhor obra de Oscar Wilde.

Pergunto-me como consegui viver literariamente até hoje sem nunca ter lido esta obra?! Certo, é uma afirmação exagerada, mas o efeito estrondoso que este livro teve em mim foi de tal forma que em menos de três dias, durante intervalos de aulas e viagens de autocarro, absorvi-o por completo, vibrando a cada frase.

Apaixonei-me por Lord Henry (se é que nos podemos apaixonar por um personagem), cada diálogo dele "envenenava-me" o cérebro (embora seja ele mesmo a dizer que um livro não envenena), mas ele é o eterno paradoxo, fiar-mo-nos nas suas palavras ou confiar-mos no seu cinismo seria um tremendo erro. Mas isso não impede que seja um personagem fascinante, nas palavras de Dorian Gray, "o que não significa que tenha gostado dele". Podia continuar aqui a divagar utilizando as sublimes frases que enchem esta obra, creio que ainda estou com o "efeito ressaca" por só ontem à noite a ter terminado.

Dorian Gray é um jovem encantador e detentor de uma extrema e rara beleza. No início do livro a beleza de Dorian está incólume, assim como a sua alma, ingénua, limpa, pura. Ao longo da história a sua beleza permanece assim, tal e qual como quando nos foi apresentado no início, contudo, a sua alma envereda pelos tortuosos caminhos do pecado, da vaidade, luxúria, do crime e do prazer; sendo o estranho retrato pintado por Basil Hallward que arca com todo esse peso, modificando e envelhecendo em vez de Dorian. Há algo de sublime aqui que nos atrai profundamente, a eterna juventude é sem sombra de dúvida uma grande tentação. Dorian também o acha, influenciado pela idolatração que Basil lhe ganha e pela sinuosa influência de Lord Henry.

Dorian Gray é um eterno insatisfeito, assim como todos aqueles que buscam, como objectivo de vida, o prazer. O arrependimento ou ataque de consciência de que é vítima no final, mostram-nos cruamente a sua fraqueza. Eu mantive por muito tempo a última página aberta, na expectativa idiota de que algo ressuscitasse, pois tal como Dorian, o livro tornou-me insatisfeita.

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O Fantasma dos Canterville e Outros Contos, Oscar Wilde (1887)

Ficção - Contos - Horror/Gótico

01.01.19 | L.F. Madeira

(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Depois de O Retrato de Dorian Gray fiz uma tentativa de ler mais da obra de Oscar Wilde e debrucei-me sobre este pequeno livro de contos.

O Conto principal fala-nos de uma casa pretensamente assombrada para onde decidem ir viver um casal de americanos com os respectivos filhos sem dar ouvido a tais disparates. Todavia, confrontam-se de facto com o fantasma que faz de tudo para assustar a pobre família.

A história tem tudo para ser um autêntico filme de terror e, de facto, era disso que estava à espera. Porém, fui totalmente surpreendida quando percebi que a família não se assustava com o fantasma, aliás, descurtinava todas as suas tentativas de provocar terror, ridicularizando-o. Posso afirmar que se virou o feitiço contra o feiticeiro, o fasntasma foi totalmente humilhado e gozado, em grande parte pelos pequenos filhos da família. É na filha do casal que o fantasma encontra um certo conforto que lhe dará o descanso eterno.

Um livro invulgar mas muito fácil de ler e excelente para rir.

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A Metamorfose, Franz Kafka (1915)

Ficção - Clássicos

01.01.19 | L.F. Madeira

(review/opinião anterior a 2015, não revista)

A Metamorfose foi publicada pela primeira vez em 1915.

Tenho de dizer que, no impacto da leitura da primeira página, nada me poderia parecer mais absurdo e tinha plena consciência de que toda a história era uma alegoria.

Esta sensação de absurdo acompanhou-me durante toda a leitura e também no final. Contudo, depois de uma reflexão e "conversazinha" com o meu pai, consegui desmembrar a alegoria da história.

Tudo começa com Gregor, a personagem principal, que se transforma num insecto e a sua primeira preocupação é de como irá apanhar o comboio para ir para o emprego.

Gregor Samsa, caixeiro-viajante, trabalha para sustentar a família e pagar as dívidas da antiga empresa do pai. No início do livro vemos quão contrariado ele está em ter de trabalhar naquela empresa. Ele é quem sustenta a família e daí que os seus primeiros pensamentos enquanto insecto é quem irá cuidar da família agora.

A repulsa que a família demonstra para com aquela metamorfose de Gregor é cruelmente demonstrada, apenas a irmã se digna a ir dar-lhe de comer e a limpar-lhe o quarto, mas com o passar dos meses, também nisso se começa a descuidar.

Como li algures, mais do que uma metamorfose de Gregor, a questão retratada no livro é uma metamorfose da família. Todos eles que viviam à sombra de Gregor, como que "renascem" para a vida. O pai arranja um emprego como porteiro, a mãe começa a trabalhar fazendo costuras e a irmã começa a trabalhar também. A dependência que tinham de Gregor até então, desaparece, e por isso, ele é esquecido, porque é um insecto (porque é insignificante) e não fala, acaba por morrer no esquecimento e na ingratidão da família.

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Contos de Natal, Charles Dickens (1843)

Ficção - Contos - Clássicos

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

O Natal, tal qual o entendemos hoje em dia, uma época de paz, bondade e partilha, deve muito a Charles Dickens e aos seus contos, publicados originalmente em 1844. 

Este foi o primeiro livro que li do autor. Embora já há muito ansiasse por ler Charles Dickens. Foi uma boa estréia. Neste livro encontramos dois contos: O Natal do Sr. Scrooge e Sinos de Ano Novo.

O Natal do Sr. Scrooge está amplamente difundido por todo lado, a origem da história do "fantasma do futuro", "fantasma do presente" e "fantasma do passado" está aqui neste pequeno conto. Mr. Scrooge é um avarento, mesquinho e desprezível homem. Não gosta do Natal e tem ódio aos que gostam. Na véspera de Natal recebe a visita do espírito do seu antigo sócio que o avisa que nos dias seguintes receberá a visita do espírito do passado, presente e futuro e de cada um Mr. Scrooge retirará as devidas lições e no fim, será um homem novo.

Os Sinos de Ano Novo fez-me chorar, o que não é difícil, ainda para mais com Dickens. Toby Veck é um homem pobre, miserável e bom. E na noite de Ano Novo tem um sonho que lhe mostra o futuro, o seu e o da sua filha. Quando acorda, tem a esperança renovada, assim como nós, leitores.

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Crime e Castigo, Fiódor Dostoiévski (1866)

Ficção - Clássicos

01.01.19 | L.F. Madeira

(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Publicado em 1866, Crime e Castigo explora a ideia da salvação pelo sofrimento, bem como do existencialismo. Dostoiévski ocupa com Tolstoi o lugar de melhor escritor russo de todos os tempos. 

Fui levada a ler este livro depois de assistir à minha primeira aula de Direito Penal. O Professor mencionou nessa aula uma série de livros que estavam indirectamente relacionados com a matéria, e de todos os que mencionou, apenas me faltava este. Foi este o mote.

Surpreendi-me logo quando iniciei a leitura, num dos primeiros capítulos fiquei horrorizada a propósito de uma cena onde aparecia uma mula morta a sangue frio. Acho que nunca mais me esqueço desta cena.

A história passa-se na Rússia, num período de extrema miséria onde uma casa servia para várias famílias, cada uma alugava uma divisão onde vivia. Raskolnikov é a personagem principal, um jovem ex-estudante de Direito que deixa de ter dinheiro para pagar a Universidade e abandona os estudos, abandonando praticamente o mundo, vivendo fechado no seu cubículo onde engendra mentalmente um crime hediondo. Leva-o avante contra as suas próprias expectativas.

O curioso e interessante desta história é a forma como o escritor explora a criação do crime, a execução do crime e o pós-crime, num caminho para a expiação.

Raskolnikov é-nos apresentado como alguém antipático, reservado, lunático consciente; mas ao mesmo tempo, surgem-nos cenas onde o mesmo Raskolnikov é capaz de ajudar o outro sem esperar nada em troca, é capaz de se horrorizar com comportamentos e atitudes de outros menos próprios contra pessoas indefesas, aliás, é capaz de as defender e proteger. E este é o mesmo Raskolnikov que comete um crime por uma razão mesquinha, quase sem valor.

A exploração do drama psicológico em que caí Raskolnikov depois de cometer o crime é quase brutal. Em momento algum julguei precipitadamente Raskolnikov, em momento algum senti necessidade de lhe apontar o dedo, porque de certa forma entramos no seu consciente e subconsciente e vamos acompanhando as suas justificações, muitas delas incoerentes. Ele comete um crime, é certo, mas não é repulsa aquilo que se sente por aquela personagem, mais uma vontade imensa de que ele se arrependa. Mas também me apercebi que era escusado tentar perceber o porquê de tal crime.

A história encaminha-se numa direcção em que achamos que Raskolnikov ficará impune, não deixa de ser interessante o impacto que teve em mim o último capítulo. 

Este é um essencial da literatura universal, se não está nas vossas listas, apontem-no.

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A Peste, Albert Camus (1947)

Ficção - Clássicos

01.01.19 | L.F. Madeira

(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Publicado em 1947 A Peste é considerada uma alegoria à inumanidade. Contudo, tenho de confessar que este não entrou para a lista dos meus livros predilectos.

Talvez não tenha percebido devidamente o livro, mas começou a tornar-se cansativo a partir de determinada altura. Não deixo, contudo, de vos contar um pouco da história.

Tudo se passa em Orão, uma cidade Argelina. A história começa com o aparecimento de ratos mortos por tudo quanto é sítio, sem aparente razão. Ninguém sabe o que se passa.

O porteiro de Rieux (a personagem central) é o primeiro a morrer, devido a um inchaço anormal de gânglios (o que refiro, desde já, que é uma descrição um pouco enjoativa).

Os médicos, entretanto, reunem-se na Prefeitura e, ainda que sem provas, dizem tratar-se de peste. Uma série de medidas para prevenção são tomadas, até que as portas da cidade são obrigadas a ser fechadas. A quarentena é imposta e os seus habitantes iniciam um percurso de sofrimento e loucura. 

Tal como começou, sem aviso ou razão aparente, a peste desaparece. E há uma passagem muito engraçada, em que dizem que até já há gatos nas ruas!

Penso que é um livro para reler, pois não creio que tenha tirado as conclusões acertadas.

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O Deus das Moscas, William Golding (1954)

Ficção - Clássicos

01.01.19 | L.F. Madeira

(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Publicado em 1954, William Golding, que viria mais tarde a ser laureado com o Nobel da Literatura, apresenta-nos O Deus das Moscas, uma obra que tem sido descrita como uma fábula dos tempos modernos e que, nas palavras do autor reflete o “mal existente no coração” quando seres humanos são despojados das redes da civilização ou regras da sociedade. 

O título não é muito convidativo, mas o livro é mais do que interessante, é interessantíssimo!

Imaginem um grupo de miúdos, com pouco mais de 12 anos, que caem de avião numa ilha onde não há ninguém, não há nativos, não há adultos, simplesmente eles.

É o início para uma incrível história de aventuras, de peripécias, de heróis, de amizade. Poderia ser, no mínimo, com tamanha introdução, seria o mais provável. Agora voltemos ao grupo de miúdos sozinhos numa ilha deserta que "reinventam o mal", tornam-se autênticos selvagens, capazes de matar os próprios amigos.

Imaginem o caos, a maldade, e uma única personagem (ignorada e desprezada por todos os outros) que mantém a coerência, a rectidão e é gozada, ridicularizada, maltratada e por fim, morta.

Percebemos que há uma cisão no grupo, quando Rafael e Jack formam dois grupos distintos na ilha. Rafael deseja apenas que todos se preocupem em manter a fogueira acesa para que faça fumo e sejam salvos; Jack apenas quer caçar, quer carne e correr atrás da "Fera".

Acabam por ser salvos no fim da história, mas sem dúvida que perderam toda a ingenuidade e inocência característica da infância. Este livro deixa-nos inquietos perante a ideia de como seria se, de um momento para o outro, fôssemos despojados de qualquer civilização e quaisquer regras. E acabamos o livro a pensar ... "mas eram simplesmente crianças ... como poderia surgir tanta maldade?".

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Harry Potter e os Talismãs da Morte, J.K. Rowling (2007)

Ficção - Fantasia - Jovem-Adulto

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Aqui está ele, por fim. Uma longa viagem de (no meu caso) sete anos, que chega agora ao fim.

Ainda me lembro de quando o comecei a ler, tinha nove anos, andava no meu 4º ano e foi a minha professora da primária que me incentivou a lê-lo.

Admito, demorei um ano a ler o primeiro, mas tinha só nove anos e a minha aventura literária estava ainda no início, desculpa-se tão larga demora!

Não tive de esperar pelo segundo, pois já tinha saído. Esse era o meu pai que mo lia, pelo menos os primeiros capítulos assim foi, numa espécie de partilha de algo mais mágico que o próprio livro e o mesmo aconteceu com o terceiro (onde conheci a minha personagem preferida - Sirius).

A dolorosa e penosa espera (impaciente, por vezes) começou com o quarto livro. Foi a partir do mesmo que eu me comecei a tornar numa fã obcecada, dando início a um "estudo intensivo" com a minha amiga Amélia, onde tirávamos frases e passagens do livro que tinham algo de contraditório, ou algo que achássemos estar realcionado com qualquer coisa importante. Enfim, foi uma altura engraçada!

O quinto livro, foi doloroso. A minha personagem preferida morrera, fiz um luto, nas devidas proporções, é claro, e dei ao meu diário o nome de Sirius.

O sexto livro... não sei, tive sempre a sensação de que havia muitas lacunas que, espero sinceramente, que este último venha a preencher.

A sensação hoje, é uma espécie de vazio que julgo que se acentuará mais assim que terminar o último livro.

Todas as acusações feitas ao livro, à escritora, à história, são apenas a mostra de quem nunca leu o livro com outros olhos, senão aqueles que lhes impedem a visão. Aqueles olhos que não conseguem ver para lá da magia que enche toda a história.

História essa que, para além de toda a magia que a arrebata, tem escondida, atrás de toda essa imagem fantasiada, uma moral mais real e concreta do que aquilo que algum dia poderemos imaginar!

Obrigada J. K. Rowling!

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Contos, Eça de Queiroz (1902)

Ficção - Contos

01.01.19 | L.F. Madeira

(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Este livro fazia parte da leitura obrigatória do 9º ano e li-o com enorme gosto.

Deste livro fazem parte inúmeros contos, dos quais destaco "A Aia", "José Matias" e "O Tesouro" para o qual tive de fazer um final de história como trabalho para a aula de Português.

Foi a primeira vez que li um livro neste estilo tipicamente britânico das "shortstories".

"O Tesouro" foi a minha história preferida, pela moral que se tira. Os irmãos de Medranhos, cuja caracterização feita pelo autor, aterroriza qualquer um... e depois toda a ganância pelo tesouro que leva os irmãos a matarem-se uns aos outros.

"A Aia" também gostei bastante, a história conta que a tal Aia deu o próprio filho a morrer para salvar o principe, suicidando-se de seguida. Um tanto ou quanto trágico mas bastante aliciante!

Deste livro, consta também o tão conhecido Conto "Singularidades de uma Rapariga Loira".

Publicado postumamente, em 1902, em Contos conhecemos o Eça contista e percebemos que, também aqui ele foi e é genial!

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As Farpas, Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão (1871)

Não-ficção - Crónicas

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

As Farpas, aqui compiladas num só volume, foram publicações mensais escritas por Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, corria o ano de 1871. Mais tarde, em 1890, Eça de Queiroz publicaria as suas "Farpas" numa obra intitulada Campanha Alegre e Ramalho Ortigão, faria o mesmo com As Farpas Esquecidas e as Últimas Farpas

Não estranhem qualquer coincidência com a realidade actual, ou pelo menos, estranhem e depois entranhem. Em As Farpas, existe quase assustadora semelhança com a actualidade que acontece de página para página. É um livro essencial para compreendermos este nosso país e para nos apercebermos da falta de originalidade que nos persegue desde o séc. XIX, uma vez que as críticas ferozes que Eça e Ortigão fazem nesta obra, mantêm-se, agravam-se, perpetuam-se. Embora a obra nos faça rir das nossas desgraças, é com esse ridículo que despertamos - um pouco como o efeito balde de água fria.
 

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Amor e Sedução Segundo Jane Austen (2005), Lauren Henderson

Não-ficção - Autoajuda

01.01.19 | L.F. Madeira

(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Este é um daqueles livros do género auto-ajuda. Confesso que estava à espera de algo diferente quando o trouxe da biblioteca, porque julguei que se tratava de um romance inspirado na autora.

Em Amor e Sedução segundo Jane Austen, Lauren Henderson, a escritora, enumera uma série de dicas, lições e exemplos a seguir para arranjar o homem indicado da forma indicada, tomando como modelo (ainda que adaptando aos dias de hoje) as regras que Jane Austen descreve nas suas obras.

É um exercício interessante... li o livro em menos de dois dias, pois é extremamente simples e descomplicado, embora tenha algumas dúvidas quanto a este tipo de livros que pretendem estandardizar e modelar as relações entre as pessoas pois aprecio, acima de tudo, a espontaneidade!

A parte interessante do livro foi para mim o exercício de comparação entre a vida real e as relações das nossas heroínas-heróis, transportando os seus comportamentos para aquilo que são as relações quotidianas. Acho que a análise que Lauren Henderson faz das personagens de Jane Austen está muito bem explorada, e no geral, confesso que não podia estar mais em sintonia.

É dos poucos livros relacionados com Jane Austen traduzidos para português e embora não tenha ficado extasiada, não considero que tenha sido uma total perda de tempo. Acabei por descobrir que sou uma Lizzie e que o meu homem ideal seria Henry Tilney.

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Amantes dos Reis de Portugal, Maria Paula Marçal Lourenço, Ana Cristina Duarte Pereira, Joana Almeida Troni (2009)

Não-ficção - História

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Esta obra da autoria de três historiadoras, Maria Paula Lourenço, Ana Cristina Pereira e Joana Troni, acompanha a vida conjugal e extraconjugal das nossas quatro dinastias. É um livro que se lê muito depressa porque o tema em si é fascinante e curioso. Nele encontramos um grande número de reis "fogosos" e um número simpático, mas reduzido, de reis "sérios" e que amaram verdadeiramente as suas rainhas. Mas tenhamos sempre em conta que os casamentos reais eram casamentos de Estado, o amor era algo acessório.

Mas este livro não trata só de "revista cor-de-rosa" medieval, ao mesmo tempo que nos fala da vida conjugal dos reis, conta-nos a história política do Reino de Portugal.

Fui surpreendida negativamente pelo Rei D. Dinis e D. Pedro II, reis que tinha em alta conta, mas que neste livro mostraram que o seu carácter era um tanto ou quanto duvidoso.

Fiquei encantada com a história de D. Duarte, D. Maria II e o seu conto de fadas com D. Fernando...

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Os Maias, Eça de Queiroz (1888)

Ficção - Romance - Clássicos

01.01.19 | L.F. Madeira

(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Leitura obrigatória do 11º ano mas que no entanto já tinha lido dois anos antes. Foi o segundo livro de Eça de Queirós que li, e fiquei totalmente apaixonada.

É o livro mais conhecido do autor. Publicado em 1888. É um romance realista com uns "cheirinhos" a Romantismo, presentes no fatalismo das personagens.

A obra conta-nos a história da família Maia ao longo de três gerações, dando maior relevo à última, cuja personagem principal é Carlos da Maia.

A acção principal baseia-se no romance de Carlos da Maia e Maria Eduarda, relação que no fim se descobre ser incestuosa - o grande Drama de "Os Maias".
O livro passa-se, maioritariamente numa Lisboa decadente e que se revela inalterada ao longo dos anos.

O Ramalhete é a casa pela qual nos apaixonamos e a mesma casa onde ocorrem as maiores desgraças... representando também o auge e a decadência.

Em paralelo à acção principal, existe também uma feroz crítica à sociedade da época, ao estado do país, aos costumes, à tentativa de imitar tudo o que é estrangeiro caindo no ridículo. Devo confessar que são momentos hilariantes!

A minha parte preferida do livro é o último capítulo que finaliza com Ega (a minha personagem preferida... cujas semelhanças com Eça de Queirós são muitas) e Carlos da Maia a correr atrás do "americano".

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Eça de Queirós, Maria Filomena Mónica (2003)

Não-ficção - Biografia

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Nunca tinha lido nenhuma Biografia, e não me podia ter estreado com nenhuma melhor, ou não estivessemos a falar do meu idolatrado Eça de Queirós.

Conheci uma série de factos sobre a vida do escritor que nem em sonhos me passara pela cabeça.

Eça de Queirós viveu até tarde com uns avós, pois nascera antes dos pais se casarem e ficara escrito na cédula de nascimento "filho de mãe incógnita". Maria Filomena Mónica refere também a relação entre as figuras feminas na vida de Eça e as personagens femininas da obra queirosiana, uma teoria surpreendente!

Um facto que eu achei muito curioso na altura, foi o do casamento de Eça com Emília, uma mulher muito mais nova que ele. O percurso diplomático de Eça é também, "brilhantemente" contado.

Li também algo que adorei, já não recordo as palavras exactas, mas era mais ou menos assim (Eça escrevia numa carta, segundo me lembro, sobre o porquê de não existirem muitos factos sobre a sua vida privada): "Se um homem de Letras não escreve a sua própria Biografia é porque não quer que se escreva alguma!".

Para os amantes de Eça de Queirós, é sem dúvida, um livro a não perder. Maria Filomena Mónica, segundo li, também ela uma amante de Queirós, fez um excelente trabalho com esta Biografia, nunca li outra, por isso não posso opinar no assunto.

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Os Novos Mistérios de Sintra, Alice Vieira, João Aguiar, José Fanha, José Jorge Letria, Luísa Beltrão, Mário Zambujal, Rosa Lobato de Faria (2005)

Ficção - Mistério/Thriller

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Um livro diferente, sem dúvida! Inesperado, rápido e incrivelmente misterioso.

Escrito por vários autores (Alice Vieira, João Aguiar, José Fanha, José Jorge Letria, Luísa Beltrão, Mário Zambujal e Rosa Lobato de Faria) adquire uma grande dinâmica.

A história é imprevisível, uma vez que cada capítulo é escrito por um escritor diferente, o que fazia com que personagens, que no início eram totalmente inofensivas, no fim se tornassem criminosas.

A personagem principal é Gonçalo, um professor universitário de História, um enamorado de Sintra e de todos os seus segredos.

Um dia, numa visita ao Palácio da Vila, perdido entre os pensamentos descobre, sem saber como, uma sala com uma porta sem fechadura e sem janelas. Pensa que algo bizarro lhe está a acontecer e começa a sentir-se como D. Afonso VI, preso durante 9 anos num quarto. Desmaia e quando acorda, ainda no Palácio, descobre uma chavinha no seu bolso - a chave de um tesouro.

Personagens como satânicos e maçons juntam-se à história, até neozelandeses e templários.

O fim é colocado à nossa discrição, podendo o leitor escolher o fim que mais gosta entre quatro hipóteses.

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O Cartógrafo do Infante, Frank G. Slaughter (1957)

Ficção histórica - Romance

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Um Romance Histórico giríssimo. Ainda mais quando o espaço e o tempo da acção decorre num Portugal na época dos Descobrimentos!

A personagem principal, André Bianco, um cidadão veneziano, é capturado e tornado escravo numa galé.

Numa súbita batalha em alto mar, escapa e é salvo por uma caravela Portuguesa, de D. Bartolomeu Perestrelo.

Parte para a Vila do Infante onde inicia uma série de viagens aos "Novos Mundos".

Mas aquilo que mais gostei no livro foi sem dúvida a forma como os portugueses eram retratados: pessoas justas e honestas.

O Monte dos Vendavais, Emily Brontë (1847)

Ficção - Romance - Horror/Gótico - Clássicos

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

O Monte dos Vendavais publicado em 1847, hoje um dos grandes clássicos universais, foi a única obra da escritora Emily Bronte e no século XIX foi fortemente criticado, gerando muita controvérsia a propósito da crueldade mental e física latentes no enredo, bem como das desigualdades de género.

O que dizer deste livro? Arrepiante, sórdido e pesado. Não é uma leitura leve, nem sequer é um romance com os comuns predicados. Atravessa tudo o que há de pior no ser humano, a sede de vingança, a inveja, o ódio, a humilhação, o ressentimento e o sofrimento são figuras sempre presentes em toda a obra. É um livro assustador com alguns laivos sobrenaturais próprios da literatura gótica.

A história de Catherine Earnshaw, Heathcliff e Catehrine Linton é nos contada por uma terceira figura, a empregada Nelly Dean que nos vai relatando a vida destas personagens. Tudo começa com Mr. Lockwood, inquilino de Mr. Heathcliff a ter de pernoitar na casa deste senhorio tão pouco civilizado. Aí acontece algo muito estranho que leva Lockwood a ter uma certa curiosidade em conhecer a história de vida do seu novo senhorio e aí se inicia o relato de Nelly Dean. A vida destas personagens é estranha e doentia, todas elas trágicas e todas elas dramáticas.

É uma leitura inquietante que não nos deixa indiferentes e que nos causa (por vezes) alguma repulsa, todavia, o magnetismo que se cria entre o leitor e a obra é estranhamente ilógico, quase mágico!

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David Copperfield, Charles Dickens (1850)

Ficção - Romance - Clássicos

01.01.19 | L.F. Madeira

(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Publicado em 1850, esta foi a minha primeira grande obra de Charles Dickens. Até então apenas tinha lido Contos de Natal. 

Achei o livro de uma enorme genialidade. Aprofunda o carácter humano em todos os níveis. A multiplicidade de personagens, a diversidade de histórias, a mudança constante de cenário, fazendo com que a história nunca, mas nunca perca o interesse, tudo isso é brilhante!

Acompanhamos David Copperfield deste o dia do seu nascimento até à fase adulta de realização pessoal. Acima de tudo, esta obra é uma biografia de Copperfield, alguns peritos insinuam inclusive, tratar-se igualmente de uma espécie de autobiografia ficcionada de Charles Dickens, pois é possível encontrar várias similitudes com a sua própria vida. 

David nasce órfão de pai, mas vive feliz na sua Rookery com a mãe e com Peggoty a sua criada que mostrará ao longo do livro o profundo amor, dedicação e carinho que tem pelo seu pequeno David. Às mãos do padrasto e da irmã do padrasto sofre terríveis provações, tanto, que pouco tempo depois de ficar também órfão de mãe, foge à procura da uma tia, Miss Betsy. Esta última personagem proporciona-nos momentos hilariantes, de rir até mais não, aliás, Dickens tem uma escrita com muito sentido de humor, do qual se parece servir para criticar os defeitos da sociedade. 

Depois, a história segue vários rumos, muito interessantes e que obrigam a uma certa análise do carácter humano. Mr. Heep, uma criatura vil e repugnante, que nos é apresentada inicialmente de forma dúbia e que depois se revela um verdadeiro traste! 

Nesta história podemos encontrar desde os pequenos dramas que todos vivemos em criança - que Dickens analisa de forma magistral -, a necessidade precoce de enfrentar o mundo, as mais diversas provações sentimentais até financeiras - agora estou a lembrar-me de Mr. Micawber e sua família, que juntamente com Betsy Trotwood são o auge da diversão! Temos depois a descoberta do mundo pelo jovem Copperfield, a profunda admiração que tem por Steerforth e todas as consequências que daí advém, um casamento apaixonado mas incompleto, uma fuga que trará consequências devastadoras para Mr. Peggoty que perde a sua adorada Emily e que não cessa nunca de a procurar, uma paixão que sempre lá esteve mas que só é descoberta no final, graves problemas económicos em virtude das fraudes de Mr. Heep que levam David Copperfield a entregar-se a todo o esforço do trabalho para vingar na vida. 

É um grande herói, David Copperfield, uma personagem que jamais esquecerei. Nesta obra vamos aos mais recônditos sítios do ser humano, a todas as suas fraquezas e às suas melhores qualidades, uma verdadeira lição de vida, sempre com atenção à dignidade humana e às injustiças sociais que se viviam então, mas que se mantêm hoje apenas com uma outra máscara.

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O Fio da Navalha, W. Somerset Maugham (1944)

Ficção - Clássicos

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Li este livro recentemente. Estava esquecido numa prateleira da minha sala, até que o meu pai me incentivou a lê-lo. O Verão ficou maravilhosamente mais luminoso desde esse dia!

Demorei cerca de 200 páginas até perceber quem era a personagem principal - Larry, era um emaranhado de personagens cruciais que fiquei um pouco confusa acerca de quem seria aquela que o autor queria evidenciar.

O estilo de escrita é baseado em vários "flashbacks" o que torna difícil a previsão da história. Ou seja, é obrigatório esperar pelo fim, para saber o final.

A parte engraçada era o autor fazer-nos crer (a nós, leitores) que toda aquela história se passara, de facto. Que aquelas personagens existiram na realidade e que ele apenas narrava o que presenciara ou aquilo que lhe iam contando. Devo dizer que isso tornou o livro fascinante, tornou as personagens mais próximas de nós. Outra coisa curiosa, era o próprio autor ser uma personagem do livro, que funcionava, ao mesmo tempo, activa e passivamente (funcionando como narrador).

Bem, Larry era uma personagem fenomenal, cativante e misteriosa até ao fim. Aliás, era uma personagem tão perfeita (pelo menos num olhar feminino) que custava acreditar que existisse de facto.

Este livro abriu-me uma série de portas para a crescente questão da origem do Bem e do Mal. Fiquei entusiasmadíssima com a Filosofia Vedanta.

Recomendo a qualquer um que aqui venha parar por acaso que leia este livro, um clássico imortal sobre a condição humana.

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Expiação, Ian McEwan (2001)

Ficção histórica - Romance - Clássicos

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Assombroso este livro. Se o filme é dos meus preferidos de sempre, o livro rebentou essa escala. Ao ler esta obra tive laivos de Virginia Woolf e sombras de Jane Austen. É pura e simplesmente brilhante.

É um romance em que a personagem principal é uma promissora escritora e em que o próprio romance que lemos é da sua autoria, uma biografia fantasiada da sua vida e do seu crime. A história começa por nos mostrar a mesma situação vista de três pontos de vista diferentes, depois, vem o crime que perseguirá Briony para o resto da vida e por fim, a tentativa desta por remediar o mal causado.

A forma como uma criança (inocente) põe em causa a vida de terceiros é brutal; mas o livro dá-nos todas as explicações, mostra-nos a sua mente e nós compreendêmo-la - Briony acusa o namorado da irmã Cecilia de ter cometido um crime hediondo e a vida desse futuro médico entra num verdadeiro caos que o levará para a frente de batalha da 2ª Guerra. No decorrer da história vemos que é o seu amor por Cecilia que o mantém vivo, pensando constantemente nas suas palavras "Espero por ti. Volta". O crime de Briony, por ter acusado um inocente, irá sempre persegui-la, e é por isso que, em vez de entrar para a faculdade, como a irmã fizera, decide tornar-se enfermeira - este seu percurso, que acompanhamos, mostra-nos uma Briony diferente daquela que nos foi apresentada no início do romance e é nesta parte que nos reconciliamos com ela. E no último capítulo, perdoamo-la.

É um livro comovente. Mostra-nos como uma acção pode alterar o rumo de uma vida; mostra-nos a dura e cruel realidade do que foi a 2ª Guerra Mundial; mostra-nos um amor que superou todas as barreiras; mostra-nos o sofrimento da culpa e a busca pelo perdão. Eu não sustive as lágrimas, nem no fim do filme, nem no fim do livro.

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O Mistério da Estrada de Sintra, Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão (1871)

Ficção - Mistério/Thriller

01.01.19 | L.F. Madeira

(review/opinião anterior a 2015, não revista)

O Mistério da Estrada de Sintra é o primeiro livro deste género em Portugal - mistério e suspense, data de 1871. Surge da ideia de Eça e Ramalho de "abanarem" a cidade de Lisboa com um dos Mistérios mais incríveis de sempre. A população acreditou quando leu a primeira carta do Doutor*** no Diário de Notícias, muitos ficaram receosos de andar pelas estradas de Sintra. Durante dois meses Lisboa viveu na ânsia de saber mais sobre este mistério que se inicia com um morto deitado num sofá de uma casa desconhecida.

A história cativa-nos como cativou os leitores há dois séculos atrás, se bem que nós partimos da desvantagem de saber que é um romance e não uma situação verídica, a adrenalina seria muito maior se, como outros, acreditássemos na veracidade daquelas palavras. Ainda assim, deliciamo-nos com a história de amor entre Rytmel e a Condessa W. - em certos aspectos lembrei-me várias vezes de Anna Karenina e Vronsky (embora este só tenha sido publicado em 1873, portanto, nada de confusões plagiadas!). Carmén Puebla, também ela fortemente apaixonada por Rytmel, capitão inglês que parece quebrar os corações de todas as mulheres, surge como a personagem ciumenta e é um pouco a antecipação daquilo em que a Condessa W. se virá a transformar, também ela dilacerada pelos ciúmes. Uma mulher despeitada é sempre um perigo. 

Mas como disse, tudo começa com um morto - razão pela qual o doutor*** e F. são raptados por um grupo de mascarados enquanto passeiam na estrada de Sintra, pois pretendem que o doutor*** confirme a morte e as suas causas. Chegados à casa misteriosa, pois é de localização desconhecida, é-nos apresentada outra personagem que primeiro se declara o assassino e que depois nega - falamos de A.M.C. um jovem médico de Viseu que entra neste enredo de forma suspeita mas com boas intenções. É pelo Mascarado Alto que conhecemos a história entre Rytmel e a Condessa. O culpado será julgado no fim, por este grupo de homens que, afinal de contas, circulam todos no mesmo meio. 

Recomendo vivamente a leitura desta magnífica obra que nos prende às páginas como nenhuma outra!

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O Parque de Mansfield, Jane Austen (1814)

Ficção - Romance - Clássicos

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Publicado pela primeira vez em 1814. Juntamente com "Northanger Abbey", é a obra que menos atrai as "Janeittes", coisa que julguei que também se aplicava a mim, mas no entanto...

Este livro surpreendeu-me positivamente. Tenho de admitir que fui, à partida, sem grandes expectativas. Já tinha visto o filme e a série, que estão muito aquém da obra e não lhe fazem qualquer espécie de justiça.

Agradavelmente surpreendida, será o termo correcto. Fanny Price, a personagem principal e a heroína desta obra, é diferente de qualquer outra heroína de Jane Austen e diferente de qualquer heroína em geral... Fanny Price, é fisicamente débil, tímida, humilde, ingénua, infantil, submissa e, nalgumas alturas, considerada como "chorona". Enfim, devo dizer que é isso tudo, e que no início há uma espécie de decepção, tendo em conta que Jane Austen nos habitou a heroínas repletas de um carácter forte. Contudo, Fanny Price acabou por se tornar muito querida, pelo menos para mim.

Uma coisa que reparamos nesta obra, diferente de todas as outras de Jane Austen, é de que o "romance" propriamente dito, acontece somente no último capítulo; a obra possui também um carácter moral que está quase sempre adjacente a duas personagens muito curiosas - Mary e Henry Crawford - que surgem nesta obra como resultado de uma sociedade insípida e sem princípios; nesta obra, Jane Austen, mostra-nos também outro lado desconhecido (entre as suas obras) da época, relatando o dia-a-dia de uma família pobre.

É curioso notar também que, a nossa heroína possui o enorme dom de avaliar correctamente o carácter das pessoas e fazer juízos acertados... foi algo que gostei bastante nela.

A história em resumo pode ser contada da seguinte forma: Fanny Price é levada (com 9 anos) para Mansfield Park, casa do tio e da tia (irmã de sua mãe) para aí crescer com mais vantagens do que aquelas que teria no seio da sua família muito pobre e repleta de crianças.

Apenas o seu primo Edmund contribui para a sua adaptação e bem-estar, tornando-se desde logo o seu melhor amigo.

Quando Mary e Henry Crawford (irmãos) chegam a Mansfield Park, a moral de todos os membros de Mansfield Park é posta à prova, embora Fanny nunca tenha gostado de nenhum deles. Henry Crawford seduz ambas as suas primas, levando uma a perder toda a sua dignidade e Edmund fica perdidamente apaixonado por Mary Crawford, que só lhe trará decepção.

O contraste entre Mansfield Park e a família Price, que conhecemos graças à visita de Fanny passados quase 9 anos da sua saída, é enorme e só nessa altura Fanny se apercebe que a sua casa não é aquela, mas sim Mansfield Park.

Uma série de desgraças sucedem-se à sua saída (temporária) de Mansfield Park, e só depois de muitas decepções é que Fanny encontra a felicidade - o que acontece somente no último capítulo, que devo dizer, escrito de forma genial!

O último grande livro que me faltava ler de Jane Austen, não é uma história que nos exalte as emoções, mas denota uma escrita madura e também um romance que primeiro estranha-se, depois entranha-se. 

O Processo, Franz Kafka (1925)

Ficção - Clássicos

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Dizem que à terceira é de vez, e comigo foi. Já por duas vezes tinha começado este livro e por duas vezes tinha ficado a meio. Mas agora terminei-o.

Esquisito é a palavra que melhor o descreve para mim. Vivi um misto de revolta e de absurdo de estranheza e impotência enquanto lia este romance.

Tudo começa com Josef K. a acordar de manhã e a ser interrogado e acusado sem saber como, por quem, nem porquê. E é isso que acontece ao longo de toda a obra, um profundo desconhecimento do porquê de ser acusado e de não ter como declarar inocência e de se ver envolto num buraco negro chamado Justiça.

Ninguém sabe como funciona a Justiça, como funcionam os tribunais. Os funcionários dos tribunais são-nos descritos como corruptos embora de pouca utilidade; os magistrados são descritos como crianças mimadas e rabugentas como quando lhes tiram um brinquedo; os advogados são praticamente inúteis, apenas contribuem para arrastar o processo, adiar o julgamento, não têm acesso às acusações que fazem ao seu cliente e nem podem apresentar defesa que não seja por escrito.

Acima de tudo, é o desconhecimento da razão pela qual se é acusado que angustia Josef e nos angustia a nós também... a certa altura, Josef duvida da sua inocência, embora o alegue sempre, porque simplesmente não sabe do que o acusam mesmo que se arraste pelos corredores do tribunal toda a sua vida, que arranje mil e um advogados ou "Grandes Advogados" tudo está envolto numa tamanha burocracia e secretismo que qualquer um se sente impotente.

Não há lugar à Defesa, foi uma das grandes ideias que tirei do livro. Não há lugar há defesa porque a acusação (sem justificação) como que serve de julgamento. A possível inocência que se pode ter num julgamento é parcial, como uma das personagens do livro nos explica, a inocência verdadeira não existe, apenas em teoria; a inocência parcial consegue-se à custa de corrupção e interesses tal como o adiamento constante do julgamento. É por isso que não há lugar à defesa porque a simples acusação sem fundamento é ela própria a sentença. 

 

O Príncipe, Nicolau Maquiavel (1532)

Não-ficção - Política - Filosofia - Clássicos

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Conheci este título desde sempre, constantemente a aparecer como exemplo nos livros do ciclo de História. Agarrei agora nele porque novamente me falaram dele em Direito Administrativo e achei chegada a altura de lhe passar uma vista de olhos. Perante o pequeno volume que me apareceu diante dos olhos, mais não tive senão de o ler por inteiro.

Esta obra (ensaio) dedicado ao filho de Piero de Medici, Lorenzo, começa, desde logo com uma saborosa introdução em que Maquiavel se autodiminui perante Lorenzo de Piero Medici. Depois seguem-se uma série de capítulos que aos poucos nos vão explicando a forma de alcançar e manter o poder, com os devidos exemplos históricos e opinião do autor.

Não é um romance, mas lê-se muito bem e ajuda a que nos confrontemos com exemplos antigos que podem perfeitamente ser aplicados hoje em dia, com as devidas alterações democráticas, claro está! Fiquei fascinada com esta obra.
 

Ema, Jane Austen (1815)

Ficção - Romance - Clássicos

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Na qualidade de fã de Jane Austen, quando penso em sinceridade, Emma  é a obra que aponto como favorita. Este romance de Jane Austen foi escrito e publicado em menos de dois anos (1815), enquanto Jane Austen viveu em Chawton, Hampshire.

Antes de começar o romance, Jane Austen escreve: " Vou construir uma heroína que poucos, além de mim, irão gostar". Bem, tenho de concordar com isso, embora, tenha terminado o livro a adorar Emma Woodhouse. No início ela é apresentada como: "Emma Woodhouse, bonita, inteligente e rica", mas percebemos também quão 'mimada', convencida e orgulhosa ela é. Mas por favor, não a tomem por alguém desagradável, de todo, não o é. Mas esta é a imagem que nos fica dela, nos primeiros 10 capítulos, talvez. Mas que melhora daí para a frente.

Os romances de Jane Austen não são normalmente lidos pelos seus comentários sociais, ou por qualquer ideia de como seriam as classes sociais nos inícios do séc. XIX. Contudo, nas entre linhas, podemos encontrar variados pontos de vista sobre diferentes aspectos acerca do quotidiano para além dos jardins. Emma, publicado ainda em vida da autora, em 1815, pode ser considerado o romance mais provinciano de Jane Austen, confinado ao quotidiano e preocupações pessoais de um pequeno grupo de pessoas. É em Emma que encontramos um comentário distinto da vida social britânica, coisa que não se encontra nos romances daquele tempo. Neste romance Jane Austen esteve sublime na crítica à sociedade da sua época. Não podemos ficar indiferentes a figuras como Mrs. Elton, Miss Bates, Mr. Woodhouse. Não podemos, acima de tudo, porque são caricaturas de personagens com quem nos cruzamos na vida real.

Não referi propositadamente Emma na lista de personagens que apresentei acima. Emma, é fabulosa por ter todos os defeitos que tem. Emma Woodhouse é uma personagem que, quando nos é primeiramente apresentada, tem algo em comum com os Darcys deste mundo. Ela vem do dinheiro, é a filha de um “gentleman”, e é ela a herdeira de uma fortuna muito confortável. Ela não precisa de casar, tal como a mesma o diz – uma característica que a separa de quase todas as outras heroínas dos romances de Jane Austen.

Jane leva-nos a conhecer Emma profundamente, sabemos por várias vezes tudo o que lhe vai na mente, até os desejos menos benévolos, como quando ela deseja que Miss Smith nunca lhe tivesse aparecido à frente - enquanto leitoras somos obrigadas a criticar este sentimento, mas simultaneamente, compreendemo-lo tão bem! E Emma suscita-me constantemente esta sensação, criticar certas atitudes, mas ao mesmo tempo, compreende-las.

Em Emma assistimos a uma gigante evolução, acompanhamos o crescimento da nossa heroína e, juntamente com ela, melhoramos um pouco também, porque Emma é o espelho de muitos dos nossos defeitos e das nossas qualidades.

O Leitor, Bernhard Schlink (1995)

Ficção - Romance - Clássicos

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

O Leitor (Der Vorleser) é um romance da autoria de um professor de direito e juíz, chamado Bernhard Schlink. Foi publicado pela primeira vez na Alemanha em 1995.

Já tinha visto o filme, que já agora, achei fenomenal. Podem pensar que se perde a expectativa do final quando se lê um livro quando já se sabe o fim... mas isso não me aconteceu. O livro, como sempre, melhor que o filme, graças aos pormenores e explicações que não são apresentados no filme. Muito daquilo que tinha ficado pouco esclarecido durante o filme, vi espelhado nas páginas do livro.

Michael de 15 anos, conhece Hanna (muito mais velha que ele) e fica apaixonado. Começam a ter uma relação que dura um ano e que marca irreversivelmente a vida de Michael.

Mais tarde ela desaparece e ele volta a encontrá-la num julgamento que lhe serve de estudo para o curso de Direito. Nesse julgamento, ela é acusada de ter pertencido às SS do regime Nazi. Este acontecimento tem um impacto muito forte em Michael que começa a ter uma verdadeira guerra mental que assenta basicamente na contradição, culpa e compreensão.

No fim ficamos perplexos perante o efeito que uma só pessoa pode ter na nossa vida, não só para o mal como também para o bem.

Onde Vais Isabel?, Maria Helena Ventura (2008)

Ficção histórica - Romance

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Tenho uma predilecção por livros deste tipo. Sou fã de tudo o que envolva história das dinastias portuguesas e tenho uma certa admiração pelas discretas figuras femininas que participaram na história de Portugal.

Trouxe este livro da biblioteca porque há muito que pretendia conhecer a história da Rainha Santa, até porque desde que li o livro "As Amantes dos Reis de Portugal" e descobri a tremenda infidelidade de D. Dinis, coisa que me espantou, pois tinha dele uma ideia muito diferente, se bem que na época este género de comportamentos era tido como normal, convenhamos que o D. Dinis tinha maior tendência que os restantes!

Com este livro, vamos acompanhando a vida do casal régio pela perspectiva de uma terceira figura. Acompanhamos D. Isabel desde os 12 anos até ao último suspiro, na felicidade e na amargura, presenciando as tão conhecidas histórias das rosas e do "ide vê-las!".

Um livro que romanceia este trecho da história de Portugal, mas que ao mesmo tempo explica muitas das difíceis situações do Reino.

Orgulho e Preconceito, Jane Austen (1813)

Ficção - Romance - Clássicos

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

De início (ainda em rascunho) este livro chamava-se "First Impressions". É por muitos, considerado a obra prima de Jane Austen. Repleto de um humor muito próprio da autora e composto por duas personagens brilhantes: Elizabeth Bennet e Mr. Darcy.

De todas as histórias clássicas, não há nenhuma que se compare à complexa relação de Elizabeth Benner e Fitzwilliam Darcy, duas pessoas muito teimosas que, só depois de muito tempo e de uma jornada turbulenta, descobrem a verdadeira natureza do coração um do outro, mostrando quão importante as primeiras impressões são.

A relação de Elizabeth e Darcy está repleta de testes e atribulações, maus julgamentos e preconceitos. Tudo começa num terrível ponto quando eles se conhecem durante a festa em Meryton, com ambos a formar primeiras impressões pouco favoráveis. Elizabeth acha Darcy um homem orgulhoso e frio, resultado da sua reserva e por a ter recusado numa dança. A sua prévia avaliação do carácter de Darcy dá-lhe um conhecimento limitado da sua pessoa, o que nestas circunstâncias tão infortunadas é natural e compreensível. Darcy, por seu lado, pode ser acusado de alguma falta de diligência e de orgulho, que o leva a criticar injustamente Elizabeth nos seus primeiros encontros. Contudo, à medida que o romance se desenvolve, Darcy demonstra flexibilidade suficiente e o bom senso de mudar a sua opinião sobre a heroína. Por isso, a sua primeira inclinação de a rejeitar dissolve-se à medida que ele se enamora dela pela sua inteligência e espírito perspicaz.

Depois de encontros repetidos e discussões verbais, a opinião de Darcy é totalmente substituída por um total afecto à medida que ele descobre nela um espírito familiar. É o seu prudente juízo e flexibilidade que controla a sua inclinação para ser duro e crítico, e que o faz reconhecer que Elizabeth seria uma boa mulher e companheira, apesar do seu estatuto social e fuga de Lydia. Por tudo isso, devemos dar crédito à sua mudança de coração que dá forma ao caminho para a sua futura felicidade. Infelizmente Elizabeth mostra pouco decoro no que toca a Darcy, é somente por esta razão que a sua relação com ele está cheia de dificuldades. Depois do seu primeiro encontro, Elizabeth mantém determinantemente o seu preconceito contra Darcy, mesmo depois de repetidos incidentes que atestam a credibilidade do seu carácter, aliás, Elizabeth mostra uma incaracterística falta de inteligência e juízo.

Mas quando ela conhece Wickham, rende-se totalmente à sua aparência e charme, e está de coração aberto para acreditar em cada palavra dele; isso resulta numa maior convicção de que Darcy tem um carácter pouco recomendável. Ela confia no outro homem que desonra toda a família de Darcy em frente de um estranho, depois de ele próprio se declarar determinado a honrar a reputação do falecido Mr. Darcy. Depois disso ele evita propositadamente Darcy no Baile de Netherfield, depois de ter afirmado de não ter qualquer receio de se encontrar com Darcy e que não teria medo de qualquer confronto entre eles. Elizabeth contudo, não encontra razões para duvidar dele. Ela não leve em consideração nem a opinião de Bingley a respeito de Darcy, nem o aviso de Miss Bingley em relação a Wickham, e recusa-se a moderar as suas primeiras impressões com uma mente aberto, mesmo depois de Jane, que apenas vê o melhor nas pessoas, confessa que Wickham não é alguém em quem se deve confiar. A sua falta bom senso leva-a a uma recusa muito dura aquando da primeira proposta de Darcy que expõe a sua possível felicidade ao seu lado. É apenas quando Elizabeth lê a carta de Darcy que se vê forçada a aceitar a verdade e a admitir o seu grotesco erro. Depois desta inesquecível apresentação da verdade, o antigo desagrado de Elizabeth por Darcy reverte-se, e depois de mais alguns obstáculos, eles revelam o mútuo afecto um ao outro, e as duas almas gémeas ficam finalmente juntas.  

Colateralmente, a família Bennet é uma das melhores criações de Jane Austen, na minha opinião. Um pai cínico e repleto daquele humor tipicamente British, uma mãe totalmente histérica, cinco filhas que não podiam ser mais diferentes umas das outras. Ler as cenas do livro que mostram a convivência desta família é delicioso! Outra personagem curiosa é Mr. Collins, um primo que herdará toda a fortuna Bennet, uma vez que não existem descendentes homens. Mr. Collins é uma personagem "melosa", ridícula e mesquinha que nos causa repulsa logo no primeiro instante, mas que nos brinda, com as cartas mais mirabolantes durante a história.

Se nunca leram Jane Austen, esta é sem dúvida, a obra com que se devem estrear. Não foi o meu caso, mas esta é a obra mais afamada e conhecida da autora e é, também na minha opinião, a mais genial, pela forma como as personagens interagem entre si cativando-nos de tal forma que quase nos sentimos membros da família Bennet. 

Sensibilidade e Bom Senso, Jane Austen (1811)

Ficção - Romance - Clássicos

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Publicado em 1811, foi o primeiro romance de Jane Austen a ser publicado, sob o pseudónimo de " A Lady". Jane Austen escreveu o primeiro rascunho desta obra em 1795, quando tinha cerca de 19 anos. Primeiramente chamado "Elinor and Marianne" e depois, definitivamente "Sense and Sensibility".

À semelhança de "Persuasion" este livro é totalmente absorvente, são tantas as desgraças que acontecem à família Dashwood que vivemos a história como se fôssemos uma das irmãs. O livro, fala-nos da possibilidade de amar uma segunda vez, tão fortemente como se ama a primeira vez.

A história possui duas personagens principais: Elinor e Marianne Dashwood (duas irmãs). O contraste entre ambas é enorme. Elinor revela um enorme bom senso e Marianne representa a emoção do seu maior esplendor. Acredita-se que estas duas irmãs foram criadas a partir de Jane Austen e da sua irmã Cassandra.

Tudo começa quando o pai de Elinor, Marianne e Margarett morre. Toda a sua fortuna passa para as mãos do filho do primeiro casamento (meio irmão de Elinor, Marianne e Margarett). As irmãs e a sua mãe ficam com uma pequena renda anual. O irmão e a sua mulher acabam por vir residir para Norland - a morada do pai, madrasta e meias-irmãs.

Mrs. Dashwood começa a procurar uma casa para poder ir viver com as suas filhas, um primo oferece-lhe uma pequena casa de campo em Barton e aí se acabam por estabelecer.

Elinor, razoável, sensata, prudente e com um enorme bom senso é o oposto da sua irmã, que vive tudo com a emoção à flor da pele, que não suporta ficar calada quando julga que algo está mal, que pouco que lhe importa o que os outros pensam das suas acções - Marianne é a eterna romântica que apenas acredita no único amor e que ninguém consegue amar novamente depois de ter encontrado o "amor da sua vida".

Muito acontece entretanto... Elinor, que pode por vezes parecer indiferente e fria, pois nada do que sente se reflete (exageradamente) para fora, embora sinta tudo e de uma forma muito profunda, acaba por se apaixonar por Edward Ferrars, irmão da sua cunhada. Uma relação manifestamente impossível perante os olhos da família de Edward.

Marianne, apaixona-se por Willoughby... e também nós (leitores), a relação deles é claramente aquele "amor perfeito" em que acreditamos fielmente. No entanto, esta personagem acaba por nos dececionar a todos, porque, afinal de contas, não era tão perfeito assim.

Há um capítulo, já no fim, em que Willoughby tem uma conversa com Elinor, onde se justifica ou explica as suas ações... e até eu, que lhe fiquei com um enorme "pó" depois do que ele fez à Marianne, consegui desculpá-lo, de certa forma.

O fim do livro é ao mesmo tempo fantástico e ao mesmo tempo de um certo desapontamento... fiquei muito feliz com Elinor pois acabou por se casar com Edward (o "amor da sua vida"), mas o destino de Marianne é, embora feliz, um destino alternativo, pois ela não acaba com o "amor da sua vida", eu senti que, ao casar-se com o Colonel Brandon, casou-se primeiramente pela grande amizade que tinham e que, acabou por se tornar em amor... o que não deixa de ser irónico, dado que era ela a "eterna romântica".

Persuasão, Jane Austen (1818)

Ficção - Romance - Clássicos

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Persuasão de Jane Austen foi o último romance completo antes da sua morte em 1817 e é, em muitas maneiras, diferente de todos os seus trabalhos prévios. Grande parte da distinção está na própria heroína, Anne Elliot, na sua situação e a forma como ela responde a tudo o que se passa à sua volta.

Anne Elliot é a personagem principal de Persuasão. É a personagem mais velha de Jane Austen, com 27 anos. Se Marianne Dashwood representa a "felicidade alternativa", Anne é a "felicidade da segunda oportunidade". O seu bom senso e inteligência são bem descritos no livro. A sua doçura tem algo de comovente e cativante.

Anne faz parte de uma das famílias mais estranhas criadas por Jane Austen, com duas irmãs neuróticas e um pai narcisista, Anne não podia estar melhor rodeada!

A história conta-nos o reencontro de Anne Elliot com o Capitão Wentworth ao fim de oito anos de separação devido ao facto de Anne ter recusado o seu pedido de noivado quando tinha 19 anos. Ou melhor, persuadida pela sua grande amiga, Lady Russel, a não o fazer, uma vez que o jovem não tinha fortuna e que seria muito arriscado para Anne comprometer-se com tal situação.

O reencontro é frio. Muitos sentimentos se misturam, tristeza, amargura, rancor, saudade, constrangimento. As dúvidas de Anne são mais que muitas e demoram a terminar. Dessa mistura de sentimentos acaba por ressurgir outro, que afinal, nunca deixou de existir e que renasce agora mais forte que nunca. Este é o romance com a carta mais maravilhosa de sempre e com a personagem mais madura e completa de Jane Austen.

O estilo utilizado em Persuasão acentua o sentimento de solidão em que a personagem principal está mergulhada. O romance é muito introspetivo com muito pouco diálogo.

Em comparação com outras obras da escritora, Persuasão distingue-se no seu tom, no plano, no estilo e no facto de a heroína ser descrita mais subtilmente. Tivesse Jane Austen vivido para editar totalmente o romance, e talvez ele fosse um pouco diferente. Mas isso nunca saberemos. 

Esta é a história da segunda oportunidade, do amor que persiste ligado a esperança mais ténue. Na minha opinião, esta a história de amor mais linda e profunda de Jane Austen.

Morreste-me, José Luís Peixoto (2000)

Ficção

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Um livro pequeno, que pela capa me fez lembrar os contos de Sophia de Mello Breyner. Contudo, retrata uma imensidão de sentimentos... dor, saudade, tristeza, luto.

Tenho de admitir que foi um livro que me tocou muito. Retrata as lembranças do autor sobre os últimos momentos de vida do pai e tudo o que seguiu depois. Algumas memórias deixam-nos num limbo estranho por poderem ser também memórias nossas.

Notável a forma de escrita, a utilização das palavras, das repetições que parecem prolongar a dor, prolongar a memória. É inevitável que uma lágrima ou outra teime em surgir.

Nunca tinha lido nada do autor, fiquei bem impressionada. Sem dúvida que este livro, foi num ponto de partida para outras leituras de José Luís Peixoto.

O Estrangeiro, Albert Camus (1942)

Ficção - Clássicos - África

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Um livro pequeno, mas com uma história cativante!

Mersault, a personagem principal, se existisse na realidade, seria profundamente desinteressante, uma vez que não tem qualquer tipo de desejos ou ambições, o seu desinteresse perante a vida é abismal e causa-nos um certo incómodo. A sua falta de sentimentos, a sua frieza, a sua inutilidade é enorme e absurda, a melhor palavra para caracterizar a personagem, a meu ver.

No entanto, ficamos presos a ela.

A exploração do sentido da vida e da existência humana está marcada neste livro, não fosse ele um símbolo do "Existencialismo".

As nossas sensações como leitores são tantas e tão contraditórias e deve ser por isso que este livro me marcou tanto. Vagueamos entre os extremos dos sentimentos e a incompreensão. E é aí que reside a genialidade desta obra!

As Avis, Joana Bouza Serrano (2009)

Não-ficção - Biografia - História

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Esta obra dá-nos a conhecer a biografia das oito rainhas da dinastia de Avis.

Considero muito mais atrativo ler sob a forma de biografia do que ler obras onde romanceiam a vida destas figuras, acima de tudo porque depois fico confusa sobre o que é que será verdadeiro ou não.

Conhecia os nossos valorosos reis da Dinastia de Avis, mas das figuras femininas, apenas conhecia (vagamente) a Rainha Filipa de Lencastre a mãe da Ínclita Geração. Por isso foi com uma certa avidez que me fui imiscuindo na vida pessoal destas rainha:

Filipa de Lencastre, a mãe da Ínclita Geração; Leonor de Aragão, a Triste Rainha; Joana de Castela, conhecida como a Excelente Senhora; Leonor de Lencastre, que mandou construir o Convento de Madre Deus em Lisboa; Isabel de Castela, filha dos Reis Católicos de Espanha; Leonor de Áustria, peça fundamental no jogo político do seu irmão, o imperador Carlos V; Catarina de Áustria, avó de D. Sebastião.

Uma conclusão que se tira desta leitura é a forma instrumental como as mulheres eram "usadas" para fazer valer determinados interesses políticos, diplomáticos e estratégicos. Ao lado desta imagem, surge também a imagem da mulher como "máquina de fazer filhos" pois esta era a grande tarefa, dar ao país, a maior quantidade de filhos de forma a garantir a sucessão, numa altura em que a mortalidade infantil era terrivelmente alta, já para não falar das mortes femininas provocadas por partos mal conseguidos.

Um Mundo em Mudança, Mário Soares (2009)

Não-ficção - Crónicas

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Um pouco incentivada pelo meu pai a dedicar-me a um género de leitura diferente daquele a que estou habituada – os meus eternos clássicos! – embrenhei-me numa grande pesquisa de autores (quando digo grande, significa que arranjei títulos suficientes para me preencherem nos próximos dez anos!). Estava com dúvidas sobre se havia de começar por ler filósofos ou antes temas da atualidade, ou ainda, biografias das grandes personalidades (das melhores e das piores!). Optei pela segunda hipótese.

Este livro, de autoria de Mário Soares – uma personalidade que tenho em grande apreço e consideração – fala-nos do começo da crise económica e financeira que vivemos atualmente e da histórica eleição para o Presidente dos EUA em 2008 (da qual saiu vencedor Barack Obama) e reúne uma série de crónicas do autor publicadas em diversos jornais num período compreendido entre Dezembro de 2007 e Fevereiro de 2009.

Embora siga em linha o pensamento de Mário Soares, penso que mesmo discordando de algumas posições ou opções ideológicas, este livro esclarece o porquê e a origem de tão malfadada crise que se prolonga até aos dias de hoje e parece não ter prazo de validade; além disso, coloca muitos dedos nas feridas e aponta soluções.

Todavia, enquanto lia o livro, não pude evitar sentir constantemente uma enorme frustração e uma total impotência ... isto porque, muitos dos males que Soares acreditava estarem já mal na altura, mantêm-se atualmente, quase quatro anos depois, sem grandes esperanças de melhoras... a total inação da União Europeia, a tendência preocupante deste “diretório europeu” em que são os países mais fortes economicamente que ditam o rumo dos países mais frágeis, esquecendo por completo a essência da União Europeia como centro de tomadas de decisão em consenso, a completa falta de regulação dos mercados – que todos atacaram mas que nada fazem para resolver, e (para mim) esta estranha manutenção da ideologia liberal (para não lhe chamar neoliberal) que prepondera e prevalece na Europa e que, para os que já se esqueceram, foi a origem de todo este mal económico e financeiro (com toda a questão da especulação financeira, do subprime americano, do capitalismo selvagem e de casino totalmente desregulado, a chamada “mão invisível” do mercado) - nesta altura em que mais precisámos do Estado Social é quando nos querem fazer acreditar que foi por culpa dele que estamos hoje onde estamos, e ele não foi o responsável, bem longe disso! Mário Soares faz uma análise curisosa - foi para ele (Estado Social) que se viraram quando inúmeros bancos entraram em falência, nacionalizaram os bancos por esse mundo fora, utilizando o dinheiro dos contribuintes para “tapar” o devaneio de uns certos investidores e de uns certos gestores que, aparentemente, sairam de tudo isto impunes (!); no entanto, vêm agora dizer-nos que o Estado deve ser mínimo (?). Pergunto-me, mas será que não aprenderam nada com o mal da origem desta enorme crise!?

Não sou perita no assunto, nem tão pouco posso ir ao fundo da questão sem cair nalguma demagogia, mas a verdade é que este livro me abriu os olhos para o que foi o começo desta crise, que parece esquecida e erradamente associada ao Estado Social e que desde 2008 que é uma crise internacional com implicações terríveis para todos os estados e não apenas desde Junho de 2011 como alguns julgam ou tendem a fazer crer.

Amor e Amizade, Jane Austen (1793)

Contos - Novela

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Ainda não tinha lido este livro. Julguei, erradamente, que aqui encontraria a história "Lady Susan", mas não, e creio que em português essa história não foi traduzida, pelo menos aqui em Portugal.

Amor e Amizade foi escrito por Jane Austen aos 15 anos de idade. Divide-se em duas novelas epistolares (Amor e Amizade e As Três Irmãs) e cinco contos em forma de carta.

Neste livro notamos já a enorme capacidade de observação e crítica de Jane Austen e reparamos a forma pré-existente de muitas das personagens que iremos encontrar ao longo dos seus romances, muitos nomes e caracteres são reconhecidos nestas histórias e cartas.

Foi uma leitura muito leve, mas muito engraçada, pena não ter lido quando era mais nova.

Amor e Amizade conta-nos a história da vida trágica de Laura, desde do casamento irrefletido até à morte prematura do marido. As Três Irmãs, foi sem dúvida, a minha história preferida - são três irmãs, Mary, Sophy e Charlotte e conta-nos o dilema de Mary em casar com um homem muitíssimo mais velho e a sua indecisão em aceitar ou não o pedido, não porque o ame ou o respeite sequer, simplesmente, porque não quer ficar para trás perante as suas amigas e quer casar-se antes dela... fez-me lembrar Lydia Bennet, talvez esta fosse um esboço dela!

A Bruxa de Oz, Gregory Maguire (1995)

Ficção - Fantasia - Jovem-Adulto

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Quem não se lembra da história do Feiticeiro de Oz, da Dorothy, do Leão, do Homem de lata e do Espantalho?

Bem, este livro reinventa, ou melhor, inventa, toda a história da Bruxa Má do Oeste, que afinal de contas não era tão má quanto isso!

Tudo começa com o nascimento de uma menina verde com repulsa à água, no mundo encantado de Oz (e diga-se de passagem que, mesmo no mundo de Oz ser verde, era ser esquisito). E, aos poucos, este livro vai acompanhando a vida de Elphaba, a menina verde e personagem principal.

Primeiro, enquanto ainda nos conta a história de Elphaba bebé, aborda as questões raciais, neste caso entre os povos de Vinkus (considerados tribos nómadas), Gillikin (considerados o povo sábio), Munchkilandia (considerados o povo “agrícola”) e Quadling (considerados o povo selvagem) e também questões religiosas entre os Lurlinistas (defendem a existência de uma fada como criadora do Mundo de Oz) e os Unionistas (defendem a existência de um Deus Inominado).

Mais tarde, quando Elphaba parte para Gillikin, para uma Universidade Feminina, começa-se a abordar as questões de igualdade entre Homens, Animais e animais (isto porque, no mundo de Oz, existem os “Animais”, aqueles que possuem o dom da fala, e os “animais”, tal e qual os conhecemos) e também as questões do Bem e do Mal.

Entretanto Elphaba abandona a escola em busca de se tornar uma Revolucionária, tentando derrubar o poder do Feiticeiro de Oz. Entretanto envolve-se numa relação amorosa com um antigo amigo de escola que por culpa dela é morto. A partir daí vive com essa culpa. Parte para Vinkus, para encontrar a mulher do amigo de escola, para nela encontrar o perdão. Acaba por lá ficar a viver e transforma-se numa Bruxa. É esta a famosa “Bruxa do Oeste” do tão conhecido “Feiticeiro de Oz”, que acaba morta (acidentalmente) por Dorothy, a menina do Texas.

O sucesso de Wicked (A Bruxa de Oz) foi tal que a Broadway fez uma adaptação do livro para musical.
 

A Erva Canta, Doris Lessing (1950)

Ficção - Romance - África

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Penso que já aqui referi o meu fascínio por esta escritora, vencedora do Prémio Nobel da Literatura em 2007. Este é o segundo livro que leio da autora.

Uma história inquietante que não tendo nada de estranho nela, mexe connosco, consegue alcançar o nosso íntimo e o nosso maior medo - a solidão.

Mary, a personagem principal, é uma mulher indiferente, superficial e só, embora no início da sua vida, esteja rodeada de gente. Casa-se com Dick, sem saber porquê. Não o ama, apenas lhe tem uma indiferença amável ou piedosa, tirando isso, ele é-lhe insuportável. Vai viver para a Fazenda de Dick, em plena África do Sul rural, numa altura em que os preconceitos raciais eram latentes - a África do Sul ainda era uma colónia inglesa.

Mary no meio de "nenhures" passa a viver em solidão, vira-se para si própria... e se no início ainda tinha energia para executar tarefas que a mantivessem ocupada, no fim, é o exemplo concreto do estoicismo, da apatia total. Apaixona-se pelo criado negro - Moses, mas isto é algo implícito no livro nunca é descrito. 

Mais uma vez, a escritora me surpreendeu pela sua enorme capacidade genial de trabalhar as suas personagens. A personagem é ela mesma a história, os acontecimentos que vão sendo descritos estão num plano abaixo.

O impacto que Doris Lessing tem no leitor em "A Erva Canta", consegue-o pela estrondosa capacidade de descrever olhares e tornar audíveis os tons de voz, que tanto dizem sobre nós.