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Queirosiana

Blogue sobre livros, leituras, escritores e opiniões

A Abadia de Northanger, Jane Austen

28.07.19

A Abadia de Northanger.jpg

Julga-se que foi a primeira obra completada para publicação de Jane Austen, em 1803, embora se saiba que já tinha começado a escrever Sensibilidade e Bom Senso e Orgulho e Preconceito.

De acordo com a irmã da escritora, Cassandra Austen, o título inicial desta obra era "Susan" e terá sido escrito entre 1798-1799. Contudo, só foi publicado em 1817, postumamente, juntamente com Persuasão.

A Abadia de Northanger surge como uma "paródia"  ao estilo gótico tão em voga na altura, mas também como uma crítica àqueles que se consideravam superiores a ler coisas tão corriqueiras como romances, tidos como leituras de mulheres.  

As figuras centrais deste romance são Catherine Morland e Henry Tilney e, aqui me confesso, a primeira vez que li A Abadia de Northanger, nem um nem outro me convenceram. Contudo, dou a mão à palmatória e hoje posso afirmar, sem sombra de dúvidas, que se há casal Austeniano por quem eu tenha uma enorme estima é precisamente este. Talvez por ser um casal tão jovem e por considerar que se completam muito bem, a ingenuidade dela juntamente com o espírito crítico dele, deliciam-me.

Catherine pareceu-me bem diferente das outras heroínas de Austen, na medida em que é bem mais ingénua e algo cabeça no ar, mas não era necessariamente uma tola ou leviana. Mas de certa forma pensei que ela talvez pudesse ser o género de pessoa que se deixa levar e cair em desgraça. Já em Mr. Tilney encontramos um personagem com uma postura menos séria e muito mais descontraída do que outros personagens masculinos criados por Austen.

Em A Abadia de Northanger assistimos à educação moral de Catherine Morland, durante o desenrolar da história, ela aprende que o mundo não funciona de acordo com os princípios de um romance gótico. A acção de Henry Tilney é deveras importante na emancipação da nossa heroína, digamos assim. Com o seu natural sentido de humor e perspicaz compreensão do carácter humano, Henry Tilney vai guiando a nossa heroína no sentido de tomar mais em consideração o seu próprio julgamento sobre as acções das outras pessoas. Obviamente que a natural e bondosa intuição e dinamismo de Catherine são um molde perfeito para Henry por em prática esta orientação.

Mas engane-se o leitor que entender pelo parágrafo acima que Henry Tilney forma Catherine à sua forma e semelhança. Não, trata-se de um processo mútuo de evolução. Sem querer arruinar o final aos estreantes leitores desta obra, a verdade é que o ultimato de Henry ao pai no final da história, revela quão o amor por Catherine melhorou o seu carácter atendo-se aos seus princípios, independentemente da vontade paterna.

Catherine Morland, a heroína desta obra de Jane Austen, com apenas 17 anos, parte para Bath com um casal amigo da família, Mr. e Mrs. Allen. Em Bath, toma o primeiro contacto com a sociedade, em tudo diferente de Fullerton, a sua bucólica e campestre terra natal. Aí conhece Isabella Thorpe, cuja rápida amizade se torna essencial para Catherine mas de quem sofrerá, mais tarde, uma enorme decepção.

No decurso da história trava conhecimento com Mr. Tilney, um jovem pároco com uma certa tendência para a ironia e é convidada para ir para Northanger Abbey com Mr. Tilney e a sua irmã Elinor, de quem se torna muito amiga durante a sua estadia em Bath. Durante a sua estada em Northanger Abbey uma série de mistérios e enganos acontecem, resultando numa partida inesperada.

Como sempre em Austen, há um final feliz, e eu creio que o amor entre estes dois personagens seja o mais natural de todas as  histórias de Jane Austen, ainda que nada tenha de heróico. Mas  como todas as coisas naturais, é belo e puro.  No fim da história vemos uma clara evolução no pensamento de Catherine, ela cresce, decididamente, durante toda a obra, deixando-nos rendidos ao seu carácter e ao seu inusitado percurso para se tornar uma heroína.  

Uma curiosidade que penso que agradará a todos os fãs de Jane Austen é a de que Henry Tilney poderá ter sido baseado numa pessoa real do conhecimento de Jane Austen, um cavalheiro e jovem pároco de seu nome Sydney Smith e que travou conhecimento com a nossa autora, em 1797, numa situação idêntica àquela em que Catherine conhece Henry – ou seja, através da apresentação pelo Mestre-de-cerimónias num baile nos Lower Rooms em Bath! Consta, aliás, que Sydney Smith era "alto, bonito e muito divertido graças ao seu sentido de humor peculiar", tal como Henry Tilney.

BERTRAND

Mulheres e Poder: um manifesto, Mary Beard

19.07.19

Este é um ensaio essencial para reflectir sobre a voz das mulheres no espaço público. A sua autora, Mary Beard, professora na Universidade de Cambridge, desenvolveu este ensaio com base em duas conferências que apresentou em público sobre a temática em 2014 e 2017. 

Nesta obra, dividida em duas partes: "A Voz Pública das Mulheres" e "Mulheres no Poder", Beard analisa de forma incisiva a forma como as mulheres com poder têm sido tratadas ao longo da história - recorrendo aqui a vários exemplos da Antiguidade Clássica, na qual ela é mestre. Reflecte também sobre a misoginia e sobre as estruturas e narrativas do poder. 

Renomada classicista como é, Mary Beard, apresenta-nos vários exemplos da Grécia e Roma Antiga. Desde logo, a história de Telémaco e Penélope, de Maesia, de Afrânia, de Hortênsia, de Lucrécia, de Lisístrata e de Lavínia.

Mas não só, demonstra também como ao longo da história se tem masculinizado o discurso das mulheres que adquirem poder ou pelo menos transformando-as numa versão andrógina. 

Foi aqui que também pela primeira vez ouvi falar da obra Herland, de Charlotte Perkins Gilman, uma história ficcional sobre uma nação constituída por mulheres, e mulheres apenas e que viviam numa verdadeira utopia, numa existência pacífica, colaborativa e brilhantemente organizada - bem, pelo menos até aparecerem três americanos que descobrem esta utópica nação. Fiquei deveras curiosa por ler esta obra, recordando-me das semelhanças com Utopia de Thomas More. 

Este ensaio derrubou também uma das minhas utopias femininas, refiro-me ao mito das amazonas. Beard faz-nos compreender a subversão latente na criação desse mito grego, "a verdade pura e dura é que as amazonas eram um mito grego masculino (...) a ideia subjacente era que o dever dos homens consistia em salvar a civilização do domínio das mulheres". Mas não só, depois de ler este ensaio, nunca mais olharei para a história da Medusa e a sua decapitação com os mesmos olhos - na medida em que essa representação clássica continua ainda hoje a ser um símbolo cultural de oposição ao poder da mulher.

Nas palavras de Rachel Cooke, este é um clássico feminista moderno, de leitura obrigatória, acrescento eu. 

Já agora, não deixem de acompanhar o blog de Mary Beard, A Don's Life

BERTRAND