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Queirosiana

Blogue sobre livros, leituras, escritores e opiniões

North and South, Elizabeth Gaskell (1854)

Ficção Histórica - Romance - Clássicos

23.08.19 | L.F. Madeira

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Li algures por aí um sumário deste livro que dizia simplesmente: Orgulho e Preconceito para socialistas. Não pude evitar sorrir, é uma afirmação com alguma verdade, mas North and South é muito mais do que isso. 

Publicado em 1854, esta complexa obra aborda variadas temáticas, desde os preconceitos entre o norte e sul geográficos, o papel social da mulher, as reivindicações das classes operárias, os preconceitos entre as classes burguesas e aristocráticas, e o aparecimento das primeiras greves em plena Revolução Industrial.

A nossa protagonista, cujo carácter aprendemos desde cedo a admirar e reverenciar, Margaret Hale surge primeiramente ao leitor, com dezoito anos, vivendo uma faustosa e pueril vida urbana em Londres com a tia e a prima, prestes a casar-se. Concretizado o casamento, Margaret regressa a casa, Helstone, para junto da mãe e do pai, pároco dessa pequena vila do sul de Inglaterra, levando uma vida mais modesta. Contudo, por uma questão de consciência, o pai de Margaret sente-se forçado a abandonar a religião e aqui é o verdadeiro início da história, a mudança dos Hale de Helstone para Milton, uma cidade industrializada do norte onde o pai de Margaret irá dar aulas e tornar-se tutor, garantindo assim rendimento para a família. 

Este é o primeiro choque, a vida frenética e barulhenta em Milton é totalmente diferente da vida tranquila e bucólica em Helstone. O segundo embate trava-se entre o carácter orgulhoso e altivo de Margaret e o carácter carismático e pragmático de John Thorton, proprietário de uma indústria de algodão em Milton e o primeiro pupilo de Mr Hale. Este embate de pré-conceitos e pré-juízos entre Margaret e Thorton, é o fio  condutor de todo o romance, até ao final. O que nos recorda de Lizzie e Darcy, sem dúvida. Mas em Norte e Sul, Gaskell aprofunda questões sociais entre proprietários e operários e a distinção e estrutura social de classes. 

Outra nuvem sempre presente neste romance é a morte e a forma como esta afecta Margaret, que perde de uma assentada, a mãe e uma das poucas amizades que encontrou em Milton. As mortes neste romance obrigam Margaret a ganhar mais responsabilidade e independência, levantando várias questões sobre o papel social da mulher na sociedade vitoriana. 

Margaret Hale é uma das personagens femininas mais completas e profundas que já encontrei, um misto do arrojo de Lizzie Bennet, com a abnegação de Fanny Price e sentido de independência de Jane Eyre. 

É um romance profundo, muitas vezes duro e com uma história de amor que, no limite, ultrapassa todos os preconceitos. Ainda que a admiração de Thorton por Margaret seja precoce, no enredo, a sua constância é arrebatadora; assim como é o gradual envolvimento emocional de Margaret.

Uma curiosidade, Elizabeth Gaskell pretendia intitular o seu romance de "Margaret Hale", mas a opinião de Charles Dickens prevaleceu, e acabou com o nome Norte e Sul

Gaskell enfrentou uma torrente de críticas aquando da publicação deste romance, sendo inclusive acusada de, pelo facto de ser mulher, não entender os problemas industriais e saber demasiado pouco sobre a indústria e que só aumentava a confusão escrevendo sobre isso; ou que lhe faltava a "masculinidade" necessária para lidar adequadamente com os problemas sociais. Só mais tarde, no início do séc. XXI, é que se lhe reconheceu devidamente a coragem por escrever sobre estes temas, demonstrando uma visão claramente contrária às perspectivas predominantes da época. 

Recomendo vivamente a leitura deste livro, que pela sua dimensão, será sempre um pouco mais demorada, mas vale cada página. bertrand.jpg

 

Chamavam-lhe Grace (1996), Margaret Atwood

Ficção Histórica - Mistério/Thriller

08.08.19 | L.F. Madeira

Um romance primoroso. Segue um estilo de escrita arrebatador e vibrante sem nunca nos enfastiar. Publicado originalmente em 1996, Alias Grace (no seu título original), transporta o leitor para o Canadá do séc. XIX, baseando o seu enredo em factos reais. 

Em 1843, a verdadeira Grace Marks e o verdadeiro James McDermott eram condenados à morte pelo assassinato de Thomas Kinnear e da sua governanta Nancy Montgomery. McDermott acabou condenado a morte por enforcamento e Grace, condenada a prisão perpétua, pois conseguiu ver a sua pena atenuada.

Este é o ponto de partida do romance de Atwood. A partir daqui, a autora constrói uma empolgante história, através dos encontros entre Grace Marks e Simon Jordan, um médico psiquiatra contratado para conduzir uma investigação científica que possa vir a sustentar mais uma petição para libertar Grace e Marks. 

Em cada consulta vamos sabendo mais um pouco sobre a história de Grace Marks, contada por ela própria e desvelada aos poucos, qual Xerazade. Desde a sua vinda da Irlanda para o Canadá, uma viagem cuja descrição me fez recordar os barcos negreiros do livro de História; depois o seu establecimento no Canadá, já órfã de mãe; o seu primeiro trabalho como criada e os que se seguiram; a amizade com Mary Whitney; os bizarros acontecimentos em torno da morte de Mary; a sua mudança para a casa de Mr Kinnear e as relações aí travadas; as suas tarefas do quotidiano como criada; o seu dia-a-dia na prisão; e finalmente a descrição do fatal dia que mudaria a sua vida para sempre.

Ao longo destas consultas, Jordan vai criando uma espécie de admiração pela paciente e a razão e a emoção vão-se confundindo pelo caminho. O próprio leitor não consegue deslindar a culpa ou inocência desta bela mulher. Não obtendo os resultados esperados, Jordan acaba por ceder a que Grace seja sujeita a uma sessão de hipnotismo que rapidamente se transforma numa espécie de séance  espírita. 

Neste romance, encontramos elementos que nos cativam e prendem a todo o enredo, a crueza da descrição da realidade da vida de Grace, o crime, o sobrenatural e a dúvida. 

Quando virem este livro na livraria, não hesitem emtrazê-lo convosco!

De notar que a adaptação desta obra para televisão pela Netflix está, igualmente, soberba. 

 

Agnes Grey (1847), Anne Brontë

Ficção - Romance - Clássicos

02.08.19 | L.F. Madeira

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Queria ler uma obra de Anne Brontë faz muito tempo. Não fiz a minha estreia com o romance mais famoso da autora, A Inquilina de Wildfell Hall, mas optei antes por ler aquele que foi o primeiro romance publicado da autora - Agnes Grey e arrisquei lê-lo na língua de origem, o inglês. 

Publicado inicialmente em 1847, à semelhança de Jane Eyre e O Monte dos Vendavais, das duas outras irmãs Brontë, Agnes Grey está longe de ser tão marcante ou soberbo quanto aqueles. Contudo, apreciei bastante a escrita de Anne, provavelmente, a irmã Brontë menos afamada. Em muitos aspectos encontrei semelhanças com o estilo de Jane Austen, talvez pelo moralismo latente no enredo, e nenhum vislumbre das características de romance gótico que encontramos nas obras das suas irmãs. 

Agnes Grey retrata o dia a dia de uma jovem governanta. De acordo com a sua irmã, Charlotte, Agnes Grey é efectivamente um romance auto-biográfico, reflectindo muitos aspectos dos cinco anos da vida de Anne enquanto governanta. 

Neste romance-debute de Anne Brontë o foco central está na personagem Agnes, e é com os seus pensamentos, actos e experiências que somos levados ao longo da história. Confesso, a história de Agnes não é muito feliz e está cheia de adversidades, esforço e sacrifício. O retrato da vida de governanta é bastante real e ficamos quase chocados com a opressão e isolamento a que estas estavam vetadas nas grandes casas das famílias aristocráticas inglesas. 

O romance segue um estilo moralista e mantém um tom sóbrio e despretensioso. A personagem principal, Agnes, é um reflexo disso mesmo, simples, contida, discreta, reservada e ponderada. Por ser um livro escrito na primeira pessoa, compreendemos que a forte personalidade e carácter com sólidos princípios de Agnes entra muitas vezes em contradição com aquilo que lhe impõem, e sim, Agnes tem de engolir muitos sapos ao longo de todo o romance. 

Admito que não consegui vislumbrar final feliz para Agnes, ainda que os obstáculos no caminho fossem diminuindo ao longo da história, mas o último capítulo traz, efectivamente, contentamento ao leitor.