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Queirosiana

Blogue sobre livros, leituras, escritores e opiniões

mater lingua no Feminino - a minha lista de escritoras portuguesas

Listas de Leitura

26.08.19 | L.F. Madeira

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Os grandes nomes da literatura portuguesa são inúmeros. Confesso-me profundamente pobre no que respeita à literatura portuguesa, tendo andado mais focada em clássicos da literatura mundial, mais especificamente, literatura inglesa. Uma falha na minha educação, como costumo dizer. 
 
Com o intento de me enriquecer no que à literatura na mater lingua diz respeito, e para apresentar um panorama da literatura feminina contemporânea em Portugal, desenvolvi esta lista de escritoras portuguesas que espero seguir fielmente e comprometer-me com, pelo menos, duas obras por ano.
 
A lista segue a ordem cronológica das obras publicadas no feminino.
 
  1. Às mulheres portuguesas, Ana de Castro Osório (1905)
  2. Satânia. Novelas, Judith Teixeira (1927)* (comprar livro)
  3. Sonetos Completos de Florbela Espanca, Florbela Espanca (1934)* (comprar livro)
  4. Para Além do Amor, Maria Lamas (1935)
  5. Ela é apenas mulher, Maria Archer (1944)
  6. Voltar Atrás Para Quê?, Irene Lisboa (1954)
  7. As Palavras Poupadas, Maria Judite de Carvalho (1961)
  8. A Madona, Natália Correia (1968)
  9. Fanny Owen, Agustina Bessa-Luís (1979)
  10. Novas Cartas Portuguesas, Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta (1974)
  11. A Gata e a Fábula, Fernanda Botelho (1987)
  12. A Costa dos Murmúrios, Lídia Jorge (1988)* (comprar livro)
  13. Um Beijo Dado Mais Tarde, Maria Gabriela Llansol (1990)
  14. As Velhas Senhoras e Outros Contos, Natália Nunes (1992)
  15. O Mundo Em Que Vivi, Ilse Losa (1992)
  16. Olhos Verdes, Luísa Costa Gomes (1994)
  17. Passagem do Cabo, Maria Ondina Braga (1994)
  18. Lillias Fraser, Hélia Correia (2001)
  19. Fazes-me Falta, Inês Pedrosa (2002)
  20. Livro Sexto, Sophia de Mello Breyner Andresen (2003)
  21. Viver Com os Outros, Isabel da Nóbrega (2005)
  22. Myra, Maria Velho da Costa (2010)
  23. A Cidade de Ulissess, Teolinda Gersão (2011)
  24. Por Este Mundo Acima, Patrícia Reis (2011)
  25. Os Profetas, Alice Vieira (2011)
  26. O Retorno, Dulce Maria Cardoso (2012)
  27. E a Noite Roda, Alexandra Lucas Coelho (2012)
  28. Humilhação e Glória, Helena Vasconcelos (2012)
  29. Meninas, Maria Teresa Horta (2014)
  30. A Saga de Selma Lagerlöf, Cristina Carvalho (2018)

*Já lidos

North and South, Elizabeth Gaskell (1854)

Ficção - Romance - Clássicos

23.08.19 | L.F. Madeira

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Li algures por aí um sumário deste livro que dizia simplesmente: Orgulho e Preconceito para socialistas. Não pude evitar sorrir, é uma afirmação com alguma verdade, mas North and South é muito mais do que isso. 

Publicado em 1854, esta complexa obra aborda variadas temáticas, desde os preconceitos entre o norte e sul geográficos, o papel social da mulher, as reivindicações das classes operárias, os preconceitos entre as classes burguesas e aristocráticas, e o aparecimento das primeiras greves em plena Revolução Industrial.

A nossa protagonista, cujo carácter aprendemos desde cedo a admirar e reverenciar, Margaret Hale surge primeiramente ao leitor, com dezoito anos, vivendo uma faustosa e pueril vida urbana em Londres com a tia e a prima, prestes a casar-se. Concretizado o casamento, Margaret regressa a casa, Helstone, para junto da mãe e do pai, pároco dessa pequena vila do sul de Inglaterra, levando uma vida mais modesta. Contudo, por uma questão de consciência, o pai de Margaret sente-se forçado a abandonar a religião e aqui é o verdadeiro início da história, a mudança dos Hale de Helstone para Milton, uma cidade industrializada do norte onde o pai de Margaret irá dar aulas e tornar-se tutor, garantindo assim rendimento para a família. 

Este é o primeiro choque, a vida frenética e barulhenta em Milton é totalmente diferente da vida tranquila e bucólica em Helstone. O segundo embate trava-se entre o carácter orgulhoso e altivo de Margaret e o carácter carismático e pragmático de John Thorton, proprietário de uma indústria de algodão em Milton e o primeiro pupilo de Mr Hale. Este embate de pré-conceitos e pré-juízos entre Margaret e Thorton, é o fio  condutor de todo o romance, até ao final. O que nos recorda de Lizzie e Darcy, sem dúvida. Mas em Norte e Sul, Gaskell aprofunda questões sociais entre proprietários e operários e a distinção e estrutura social de classes. 

Outra nuvem sempre presente neste romance é a morte e a forma como esta afecta Margaret, que perde de uma assentada, a mãe e uma das poucas amizades que encontrou em Milton. As mortes neste romance obrigam Margaret a ganhar mais responsabilidade e independência, levantando várias questões sobre o papel social da mulher na sociedade vitoriana. 

Margaret Hale é uma das personagens femininas mais completas e profundas que já encontrei, um misto do arrojo de Lizzie Bennet, com a abnegação de Fanny Price e sentido de independência de Jane Eyre. 

É um romance profundo, muitas vezes duro e com uma história de amor que, no limite, ultrapassa todos os preconceitos. Ainda que a admiração de Thorton por Margaret seja precoce, no enredo, a sua constância é arrebatadora; assim como é o gradual envolvimento emocional de Margaret.

Uma curiosidade, Elizabeth Gaskell pretendia intitular o seu romance de "Margaret Hale", mas a opinião de Charles Dickens prevaleceu, e acabou com o nome Norte e Sul

Gaskell enfrentou uma torrente de críticas aquando da publicação deste romance, sendo inclusive acusada de, pelo facto de ser mulher, não entender os problemas industriais e saber demasiado pouco sobre a indústria e que só aumentava a confusão escrevendo sobre isso; ou que lhe faltava a "masculinidade" necessária para lidar adequadamente com os problemas sociais. Só mais tarde, no início do séc. XXI, é que se lhe reconheceu devidamente a coragem por escrever sobre estes temas, demonstrando uma visão claramente contrária às perspectivas predominantes da época. 

Recomendo vivamente a leitura deste livro, que pela sua dimensão, será sempre um pouco mais demorada, mas vale cada página. bertrand.jpg

 

Quatorze Fantásticas - a minha lista de livros das mulheres laureadas com o Prémio Nobel da Literatura

Listas de Leitura

16.08.19 | L.F. Madeira

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Até 2017, num total de 114 laureados com o Nobel de Literatura, apenas 14 são mulheres. Se é certo que, em paralelo com o Nobel da Paz, esta é a categoria com maior representatividade feminina, ainda assim, sobressai a desproporção.

O primeiro Nobel de Literatura foi concedido no ano de 1901 e em 1909, estreava-se a primeira mulher, escritora, a receber o prémio. A distinção a mulheres escritoras foi sendo parca, mas destaca-se o período entre 1991 e 1966, basicamente, um quarto de século, sem que nenhuma escritora tenha sido laureada. Recentemente, sobretudo desde 2004, o Nobel de Literatura tem vindo a ser atribuído a mulheres escritoras com mais frequência.

Na minha opinião, não se trata de uma questão de falta de qualidade das obras produzidas por mulheres, mas antes de um histórico de invisibilidade e ausência do feminino nos espaços físicos, institucionais e escritos da arte (a este propósito, recordo aqui um magistral artigo de Filipa Lowndes Vicente, intitulado “Artes, a ilusão da vanguarda”, in XXI, Ter Opinião, n.º 8, 2017).

Ora, para celebrar as 14 mulheres laureadas com o Nobel de Literatura e com o intento de ampliar o meu horizonte literário, resolvi criar esta lista das Quatorze Fantásticas. O compromisso é o de ler, pelo menos, duas obras por ano. 

Lamento, não obstante, o facto de muitas destas autoras não estarem traduzidas para português. 

 

  1. Selma Lagerlöf (Suécia), vencedora do Nobel de Literatura de 1909. O Imperador de Portugal  (1914), edição em português Ulisseia.* (comprar livro)
  2. Grazia Cosima Deledda (Itália), vencedora do Nobel de Literatura de 1926. Marianna Sirca (1916), edição em português Sibila Publicações.
  3. Sigrid Undset (Noruega), vencedora do Nobel de Literatura de 1928. Kristin Lavransdatter: The Wreath, Wife, the Cross (1920), edição em inglês Penguin Classics.
  4. Pearl Sydenstricker Buck (EUA), vencedora do Nobel de Literatura de 1938. A Flor Oculta (1952), edição em português Livros do Brasil.
  5. Gabriela Mistral (Chile), vencedora do Nobel de Literatura de 1945. Poesias Escolhidas (1969), edição brasileira Delta.
  6. Nelly Sachs  (Alemanha), vencedora do Nobel de Literatura de 1966. Glowing Enigmas (1966), edição em inglês Tavern Books.
  7. Nadine Gordimer  (África do Sul), vencedora do Nobel de Literatura de 1991. Um Mundo de Estranhos (1958), edição em português Difel.
  8. Toni Morrison (EUA), vencedora do Nobel de Literatura de 1993. Deus Ajude a Criança (2015), edição em português Editorial Presença.* (comprar livro)
  9. Wisława Szymborska (Polónia), vencedora do Nobel de Literatura de 1996. Map (2016), edição em inglês Houghton Mifflin.
  10. Elfriede Jelinek  (Áustria), vencedora do Nobel de Literatura de 2004. A Pianista (1983), edição em português Edições Asa.
  11. Doris Lessing (Reino Unido), vencedora do Nobel de Literatura de 2007. The Golden Notebook (1962), edição em inglês Fourth Estate.* (comprar livro)
  12. Herta Müller (Alemanha), vencedora do Nobel de Literatura de 2009. Hoje Preferia Não Me Ter Encontrado (1997), edição em português Dom Quixote.
  13. Alice Ann Munro (Canadá), vencedora do Nobel de Literatura de 2013. Amada Vida (2012), edição em português Relógio D’Água.
  14. Svetlana Aleksandrovna Aleksiévitch (Bielorrússia),  vencedora do Nobel de Literatura de 2015. O Fim do Homem Soviético (2013), edição em Português Porto Editora.

* Já lidos

 

"Declaro-me Feminista" - a minha lista de livros feministas essenciais

Listas de Leitura

15.08.19 | L.F. Madeira

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Declaro-me feminista porque defendo a igualdade. A igualdade de tratamento e de oportunidades independentemente do género ou sexo. Assim, nesta lista que abaixo enumero, pretendo fazer um périplo literário por aquelas que considero - ou que me induziram a considerar - como as obras essenciais para dar os primeiros passos no que é o feminismo.  Ou, no mínimo, um ponto de partida. A ordem é aleatória, se bem que, por uma razão lógica, seja conveniente iniciar pelas obras mais antigas. Também os géneros literários são variados, desde ensaios a romances. O compromisso é o de ler, pelo menos, três obras desta lista por ano. 

 

  1. Mary Wollstonecraft - Uma Vindicação dos Direitos da Mulher (1792)
  2. Kate Chopin, The Awakening (1899)
  3. Virginia Woolf - Um Quarto Só Para Si (1929)* (comprar livro)
  4. Simone Beauvoir - O Segundo Sexo Volume I e Volume II (1949)* (comprar livro
  5. Doris Lessing, The Golden Notebook (1962)* (comprar livro
  6. Betty Friedan, Feminine Mystique (1963)
  7. Sylvia Plath, A Campânula de Vidro (1963)
  8. Germaine Greer, The Female Eunuch (1970)
  9. Kate Millett, Sexual Politics (1970)
  10. Shulamith Firestone, The Dialectic of Sex (1970)
  11. Carol Gilligan, In a Different Voice (1982)
  12. Margaret Atwood, A História de Uma Serva (1985)
  13. Clarissa Pinkola Estes, Mulheres Que Correm Com Lobos (1992)
  14. bell hooks, Feminism is for Everybody (2000)
  15. Chimamanda Ngozi Adichie, Todos Devemos Ser Feministas (2014)
  16. Naomi Alderman, O Poder (2016)* (comprar livro)
  17. Kamila Shamsie, Conflito Interno (2017)
  18. Scarlett Curtis, Feminists Don't Wear Pink and Other Lies (2018)
  19. Madeline Miller, Circe (2018)* (comprar livro)
  20. Mary Beard, Mulheres e Poder (2018)* (comprar livro)

* Já lidos

Chamavam-lhe Grace, Margaret Atwood (1996)

Ficção histórica - Mistério/Thriller

08.08.19 | L.F. Madeira

Um romance primoroso. Segue um estilo de escrita arrebatador e vibrante sem nunca nos enfastiar. Publicado originalmente em 1996, Alias Grace (no seu título original), transporta o leitor para o Canadá do séc. XIX, baseando o seu enredo em factos reais. 

Em 1843, a verdadeira Grace Marks e o verdadeiro James McDermott eram condenados à morte pelo assassinato de Thomas Kinnear e da sua governanta Nancy Montgomery. McDermott acabou condenado a morte por enforcamento e Grace, condenada a prisão perpétua, pois conseguiu ver a sua pena atenuada.

Este é o ponto de partida do romance de Atwood. A partir daqui, a autora constrói uma empolgante história, através dos encontros entre Grace Marks e Simon Jordan, um médico psiquiatra contratado para conduzir uma investigação científica que possa vir a sustentar mais uma petição para libertar Grace e Marks. 

Em cada consulta vamos sabendo mais um pouco sobre a história de Grace Marks, contada por ela própria e desvelada aos poucos, qual Xerazade. Desde a sua vinda da Irlanda para o Canadá, uma viagem cuja descrição me fez recordar os barcos negreiros do livro de História; depois o seu establecimento no Canadá, já órfã de mãe; o seu primeiro trabalho como criada e os que se seguiram; a amizade com Mary Whitney; os bizarros acontecimentos em torno da morte de Mary; a sua mudança para a casa de Mr Kinnear e as relações aí travadas; as suas tarefas do quotidiano como criada; o seu dia-a-dia na prisão; e finalmente a descrição do fatal dia que mudaria a sua vida para sempre.

Ao longo destas consultas, Jordan vai criando uma espécie de admiração pela paciente e a razão e a emoção vão-se confundindo pelo caminho. O próprio leitor não consegue deslindar a culpa ou inocência desta bela mulher. Não obtendo os resultados esperados, Jordan acaba por ceder a que Grace seja sujeita a uma sessão de hipnotismo que rapidamente se transforma numa espécie de séance  espírita. 

Neste romance, encontramos elementos que nos cativam e prendem a todo o enredo, a crueza da descrição da realidade da vida de Grace, o crime, o sobrenatural e a dúvida. 

Quando virem este livro na livraria, não hesitem emtrazê-lo convosco!

De notar que a adaptação desta obra para televisão pela Netflix está, igualmente, soberba. bertrand.jpg

A Very Penny Dreadful List - a minha lista de romances góticos

Listas de Leitura

08.08.19 | L.F. Madeira

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Inspirada pela minha doce Catherine Morland (heroína d' A Abadia de Northanger) e pelo universo da excepcional série televisiva Penny Dreadful, decidi compilar uma lista com títulos de um específico "género" literário muito em voga na Inglaterra do século XVIII, o romance gótico. Este tipo de literatura caracteriza-se pelos cenários medievais, conspirações e segredos, mistério e terror, donzelas em perigo e vilões temerosos e pelo imaginário sobrenatural. 

 

  1. The Castle of Otranto, Horace Walpole (1764)
  2. The Old English Baron, Clara Reeve (1777)
  3. The Ghost-Seer, Friedrich Schiller (1789)
  4. A Sicilian Romance, Ann Radcliffe (1790)
  5. Justine, or The Misfortunes of Virtue, Marquis de Sade (1791)
  6. Castle of Wolfenbach, Eliza Parsons (1793)
  7. The Mysteries of Udolpho, Ann Radcliffe (1794)* (comprar livro)
  8. The Necromancer or The Tale of the Black Forest, Ludwig Flammenberg (1794)
  9. The Monk, Matthew Gregory Lewis (1796)
  10. The Horrid Mysteries, Carl Friedrich August Grosse (1796)
  11. The Italian, Ann Radcliffe (1797)
  12. Clermont, Regina Maria Roche (1798)
  13. The Midnight Bell, Francis Lathom (1798)
  14. The Orphan of the Rhine, Eleanor Sleath (1798)
  15. St. Irvine or The Rosicrucian, Percy Shelley (1811)
  16. The Heroine, Eaton Stannard Barrett (1813) 
  17. Northanger Abbey, Jane Austen (1818)* (comprar livro)
  18. Frankenstein, Mary Shelley (1820)* (comprar livro)
  19. Melmoth, the Wanderer, Charles Maturin (1820)
  20. The Mummy!, Jane C. Loudon (1827)
  21. The Amber Witch, Wilhelm Meinhold (1838)
  22. The Fall of the House of Usher, Edgar Allan Poe (1839)* 
  23. The Mysteries of London, George Reynolds (1845) 
  24. Varney the Vampire or The Feast of Blood, James Rymer and Thomas Prest (1847) 
  25. Wuthering Heights, Emily Brontë  (1847)* (comprar livro)
  26. The Mystery of Edwin Drood, Charles Dickens (1870) 
  27. Carmilla, Sheridan Le Fanu (1872)* (comprar livro)
  28. Strange Case of Dr. Jekyll and Mr Hyde, Robert Lewis Stevenson (1886)
  29. The Picture of Dorian Gray, Oscar Wilde (1891)* (comprar livro)
  30. Dracula, Bram Stoker (1897)
  31. The Turn of the Screw, Henry James (1898)* (comprar livro)
  32. The Phantom of the Opera, Gaston Leroux (1910)

* Já lidos

Agnes Grey, Anne Brontë (1847)

Ficção - Romance - Clássicos

02.08.19 | L.F. Madeira

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Queria ler uma obra de Anne Brontë faz muito tempo. Não fiz a minha estreia com o romance mais famoso da autora, A Inquilina de Wildfell Hall, mas optei antes por ler aquele que foi o primeiro romance publicado da autora - Agnes Grey e arrisquei lê-lo na língua de origem, o inglês. 

Publicado inicialmente em 1847, à semelhança de Jane Eyre e O Monte dos Vendavais, das duas outras irmãs Brontë, Agnes Grey está longe de ser tão marcante ou soberbo quanto aqueles. Contudo, apreciei bastante a escrita de Anne, provavelmente, a irmã Brontë menos afamada. Em muitos aspectos encontrei semelhanças com o estilo de Jane Austen, talvez pelo moralismo latente no enredo, e nenhum vislumbre das características de romance gótico que encontramos nas obras das suas irmãs. 

Agnes Grey retrata o dia a dia de uma jovem governanta. De acordo com a sua irmã, Charlotte, Agnes Grey é efectivamente um romance auto-biográfico, reflectindo muitos aspectos dos cinco anos da vida de Anne enquanto governanta. 

Neste romance-debute de Anne Brontë o foco central está na personagem Agnes, e é com os seus pensamentos, actos e experiências que somos levados ao longo da história. Confesso, a história de Agnes não é muito feliz e está cheia de adversidades, esforço e sacrifício. O retrato da vida de governanta é bastante real e ficamos quase chocados com a opressão e isolamento a que estas estavam vetadas nas grandes casas das famílias aristocráticas inglesas. 

O romance segue um estilo moralista e mantém um tom sóbrio e despretensioso. A personagem principal, Agnes, é um reflexo disso mesmo, simples, contida, discreta, reservada e ponderada. Por ser um livro escrito na primeira pessoa, compreendemos que a forte personalidade e carácter com sólidos princípios de Agnes entra muitas vezes em contradição com aquilo que lhe impõem, e sim, Agnes tem de engolir muitos sapos ao longo de todo o romance. 

Admito que não consegui vislumbrar final feliz para Agnes, ainda que os obstáculos no caminho fossem diminuindo ao longo da história, mas o último capítulo traz, efectivamente, contentamento ao leitor. 

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