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Queirosiana

Blogue sobre livros, leituras, escritores e opiniões

Heroínas marcantes

02.08.19

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O universo literário está repleto de personagens singulares. Personagens que nos cativam e que se nos entranham na alma e que, por vezes, acarinhamos como se de pessoas reais se tratassem. Felizmente, os infinitos mundos contidos nos livros, proporcionaram-me já a experiência de estimar uma personagem como um amigo invisível que surge por vezes em pensamento para nos acalentar e acarinhar. 

Nesta rubrica irei falar, em particular, das personagens femininas que deixaram uma marca de água na minha vida. São muitas, mas não posso deixar já de mencionar Miss Havisham (Grandes Esperanças, Charles Dickens), Hermione Granger (Harry Potter, J.K. Rowling) e Elinor Dashwood (Sensibilidade e Bom Senso, Jane Austen). Talvez comece por elas. Quiçá!

 

Agnes Grey, Anne Brontë

02.08.19

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Queria ler uma obra de Anne Brontë faz muito tempo. Não fiz a minha estreia com o romance mais famoso da autora, A Inquilina de Wildfell Hall, mas optei antes por ler aquele que foi o primeiro romance publicado da autora - Agnes Grey e arrisquei lê-lo na língua de origem, o inglês. 

Publicado inicialmente em 1847, à semelhança de Jane Eyre e O Monte dos Vendavais, das duas outras irmãs Brontë, Agnes Grey está longe de ser tão marcante ou soberbo quanto aqueles. Contudo, apreciei bastante a escrita de Anne, provavelmente, a irmã Brontë menos afamada. Em muitos aspectos encontrei semelhanças com o estilo de Jane Austen, talvez pelo moralismo latente no enredo, e nenhum vislumbre das características de romance gótico que encontramos nas obras das suas irmãs. 

Agnes Grey retrata o dia a dia de uma jovem governanta. De acordo com a sua irmã, Charlotte, Agnes Grey é efectivamente um romance auto-biográfico, reflectindo muitos aspectos dos cinco anos da vida de Anne enquanto governanta. 

Neste romance-debute de Anne Brontë o foco central está na personagem Agnes, e é com os seus pensamentos, actos e experiências que somos levados ao longo da história. Confesso, a história de Agnes não é muito feliz e está cheia de adversidades, esforço e sacrifício. O retrato da vida de governanta é bastante real e ficamos quase chocados com a opressão e isolamento a que estas estavam vetadas nas grandes casas das famílias aristocráticas inglesas. 

O romance segue um estilo moralista e mantém um tom sóbrio e despretensioso. A personagem principal, Agnes, é um reflexo disso mesmo, simples, contida, discreta, reservada e ponderada. Por ser um livro escrito na primeira pessoa, compreendemos que a forte personalidade e carácter com sólidos princípios de Agnes entra muitas vezes em contradição com aquilo que lhe impõem, e sim, Agnes tem de engolir muitos sapos ao longo de todo o romance. 

Admito que não consegui vislumbrar final feliz para Agnes, ainda que os obstáculos no caminho fossem diminuindo ao longo da história, mas o último capítulo traz, efectivamente, contentamento ao leitor. 

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