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Queirosiana

Blogue sobre livros, leituras, escritores e opiniões

O Calafrio, Henry James (1898)

Ficção - Horror/Gótico - Clássicos

31.10.19 | L.F. Madeira

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Diretamente da plataforma Winkingbooks que me proporcionou a possibilidade de ler esta obra que há tanto tempo desejava. 

Coincidência ou destino, terminei esta obra em plena noite do dia das Bruxas - nada mais apropriado! Mas a verdade é que fiquei de tal forma presa àquelas páginas que não descansei enquanto não descobri que figuras incorpóreas eram aquelas que atormentavam as personagens criadas por Henry James.

Henry James apresentou esta obra ao público em 1898 numa série de fascículos, conforme era comum na época - ainda que andasse a pensar na história desde 1895, altura em que lhe terá sido relatada uma situação, mais ou menos verídica, com os mesmos contornos pelo Arcebispo de Canterbury. Classificada como uma história de fantasmas, O Calafrio centra-se numa jovem governanta que, ainda no início de vida, decide aceitar a tarefa de cuidar de duas crianças para a bucólica Bly onde inicia uma verdadeira vigília pelo o cuidado e bem-estar daqueles pequenos, numa atmosfera antagónica de beleza e crueldade, de tranquilidade e inquietude.

O leitor é introduzido neste enredo de mistério e suspense logo desde a primeira página em que o narrador nos diz que irá desvendar um manuscrito que conta a história de uma jovem governanta ou preceptora, repleto de suspense e calafrios. E assim acontece na verdade, o enredo envolve e revolve o leitor numa teia onde a  fronteira entre realidade e ficção se torna muito ténue, quase como que num exercício de empatia pela preceptora, o próprio leitor questiona pela sua sanidade mental. 

Ainda que esta não seja uma tradicional história de fantasmas,  na minha opinião, mais do que a extravagancia pelo paranormal, Henry James, convida o leitor a um exercício de imersão psicológica sobre o medo, a imaginação, o bem e o mal. Henry James usa e abusa da narrativa e da ficção para convencer e manipular o leitor deixando-nos permanentemente na dúvida e dramaticamente ansiosos por virar a próxima página!

Mesmo para quem não é fã do género, esta é uma daquelas histórias de fantasmas que precisam de constar da lista do leitor mais atento. 

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Quero este livro

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Lady Macbeth de Mtsensk, Nikolai Leskov (1864)

Ficção - Clássicos

30.10.19 | L.F. Madeira

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Sim, uma verdadeira "jóia Russa", publicada originalmente em 1865. Leskov, contemporâneo de Tolstoi e Dostoievski, embora escritor de igual genialidade, é pouco conhecido fora do seu país. 

O título remete-nos, de imediato, para Macbeth de Shakespeare, a história de um general impoluto que, por influência da mulher, entra num ciclo de crueldade e de devassidão. Um herói que se torna vilão. Mas como li algures, na obra de Leskov, não há heróis.

Em Lady Macbeth de Mtsensk, a personagem principal, Catierina Lvovna surge inicialmente como uma mulher de vinte anos, casada por conveniência com um homem duplamente mais velho, um comerciante rural. Assume estritamente a sua função de esposa submissa, vivendo de forma abastada, numa solidão muda e enfastiante.

Mas, subitamente, na ausência do marido e do sogro, Catierina descobre-se, e acorda para uma nova luz na sua vida - apaixona-se por Sergei, capataz da propriedade do marido. Este amor, porém, torna-se numa calamidade. Catierina assume-se como a orquestradora de uma sucessão de crimes que mancham qualquer paixão, qualquer humanidade, qualquer dignidade. 

E é precisamente assim que termina este romance, numa personagem sem pingo de dignidade, desumanizada pela brutalidade de uma paixão. Ainda que, por vezes, Lady Macbeth de Mtsensk nos traga resquícios de Madame Bovary, acaba por não encontrar respaldo, talvez pela subtil ferocidade da escrita e enredo de Leskov. 

É uma história de uma crueza inquietante, pela perversidade da sua mansidão. Aqui não há heróis nem vilões, não há loucos nem lúcidos, ou poderosos e submissos, quer Catierina quer Sergei são despojados de humanidade, quase como sentença das suas consciências anárquicas. 

Menina Júlia, August Strindberg (1888)

Peça teatral - Drama

28.10.19 | L.F. Madeira

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Menina Júlia do dramaturgo August Strindberg, publicada em 1888, é uma peça de teatro excepcional. 

Abordando temas variados, tendo apenas três personagens, percorremos questões como a divisão e distinção de classes, ambição, emancipação, frustração e desamparo, sedução e luxúria, liberdade, perda, solidão, o feminino, o masculino, o poder. 

Júlia, uma jovem mulher aristocrata; João, o criado ou valet em inglês; e Cristina, a cozinheira. O enredo ocorre durante a noite de São João, na mansão e propriedade do Conde, pai de Júlia. No início da história, Júlia assume-se dona e senhora do palco e do seguimento da história, usufruindo do seu poder e estatuto social para subordinar todos os outros. Inicia com João um tenso e intenso jogo psicológico. Ocorrendo determinado evento, a situação inverte-se, e Júlia não é mais dona de nada, nem de si própria, iniciando um ciclo de autodestruição e decadência. 

Strindberg utiliza Júlia como a aristocrata no ocaso da sua Era ainda que pretensamente moderna, e João como aquela pessoa que pretende subir socialmente, ambicioso e oportunista e para quem, apesar de tudo, há uma nova chance. Cristina, a cozinheira, surge como uma personagem moralista, cosciente e de bom senso. 

Júlia e João são assim representações esterotipadas da sua classe na sociedade - mas também representantes do seu sexo, o que se verifica em absoluto quando o véu da classe social cai, nesse momento invertem-se as ordens de poder. Já não há senhora e criado, mas uma mulher e um homem. E no final, é Júlia quem está em queda em face da inconsequência do seu destino.

O Segundo Sexo Vol. I, Simone de Beauvoir (1949)

Não-ficção - Feminismo - Filosofia - Clássicos

27.10.19 | L.F. Madeira

Esta obra é um peso pesado, um tratado feminista, um essencial, uma referência! Dividido em dois volumes, pelo menos nas edições Quetzal, encontramos no 1.º volume uma autêntica tese dos factos e mitos sobre a(s) mulher(es). Publicado em 1949, e feitas as devidas reservas de contexto temporal, espacial e filosófico, O Segundo Sexo de Beauvoir assume-se - ainda - como uma obra atual e, infelizmente, em muitos aspetos, não ultrapassada, sobretudo no que aos mitos sobre a mulher e a feminilidade diz respeito. A verdade é que, lendo em 2019 uma obra com 70 anos, somos ainda surpreendidas e sobressaltadas pela imutabilidade de certos pré-conceitos em relação à(s) mulher(es). 

Este livro de Beauvoir segue a sua concepção filosófica do mundo, os seus ideais e, por isso, projeta-se numa perspetiva vincadamente feminista e existencialista - tendo-se tornado num marco básico do pensamento feminista ocidental. No entanto, à luz das mais recentes teorias feministas, a apresentação dual do feminino/masculino em O Segundo Sexo deve hoje ser esbatida.

Beauvoir transporta-nos por várias áreas da ciência - da biologia, à psicanálise e à filosofia, passando pela literatura e refletindo sobre os mitos sobre a(s) mulher(es), muitas vezes  reforçados pela ciência e literatura, ao longo da história, expondo assim a nu a estrutura patriarcal da(s) sociedade(s) ocidental(ais) e da "condição" feminina nessa estrutura. 

Defendendo, de forma pioneira, a liberdade das mulheres, em todos os aspetos da sua vida; apontando o dedo às desigualdades de oportunidades e aos desequilíbrios de poder, ao silêncio forçado das mulheres no espaço público e económico, bem como às representações, categorias e papéis sociais atribuídos a mulheres e homens. Beauvoir acentuou, igualmente, a importância do corpo e de como as mulheres estão em constante tensão/conflito entre a liberdade e a alienação do seu corpo pela Natureza, fazendo realçar as questões associadas àquilo que hoje denominamos como direitos sexuais e reprodutivos. 

Como referi acima, Beauvoir foca-se bastante da dualidade dos sexos, masculino e feminino, assentando o seu pensamento no conceito de que enquanto as mulheres forem encaradas como "O Outro", existirá sempre uma guerra de sexos - que apenas será ultrapassada no momento em que mulher e homem se considerarem semelhantes e partilharem o mundo de forma igual, é esse, aliás, o elogio que tece a Stendhal, por tornar semelhantes mulher e homem, nas suas obras literárias. 

Segue-se agora nova aventura, a de iniciar o 2.º volume - A experiência vivida. 

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Satânia, Judith Teixeira (1927)

Contos - Novela

23.10.19 | L.F. Madeira

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Judith Teixeira, escritora e poetisa, contemporânea de Florbela Espanca, não logrou da mesma fama desta, ainda que ambas se debrucem sobre temáticas semelhantes, como a feminilidade, o erotismo, a sensualidade. A obra poética e narrativa de Judith Teixeira foi, desde o primeiro momento, encarada como perversa ou "maldita", tendo algumas das suas criações sido apreendidas pelo Estado por as considerarem imorais. 

Judith Teixeira destacou-se como das poucas - se não a única - mulher(es) do movimento modernista português, mas após ser publicamente ridicularizada e caricaturada e sido publicamente apelidada de "lésbica" ou ver violentamente criticada a sua obra de forma pessoal, ao atacarem o seu caráter, em 1927 publicou Satânia e remeteu-se ao silêncio, até à sua morte. 

Satânia, corresponde a um conjunto de duas novelas composto por Satânia e Insaciada, seguidas do texto da Conferência De Mim, onde Judith Teixeira enfrentou tudo e todos após o ataque à sua obra e à sua pessoa. 

A novela Satânia reveste-se de uma fabulosa e inebriante adjectivação. Numa luta entre o desejo e o racional, Judith conta-nos a história de Maria Margarida, num élan de mistério, sensualidade e erotismo, que culmina num final de sofrimento, atrofiamento e morte. 

Em Insaciada, Judith Teixeira apresenta-nos um conto que aborda, entre outros, a morte. Num estilo profundamente estético, Judith Teixeira revela-nos uma tarde na vida de Clara, personagem que denuncia um estado de inquietude e incompletude, quase, diria até, um drama existencial. Em contrapartida, temos Maria Eduarda, amiga confidente ou algo mais, de Clara e que a incita à vida e ânimo. Tocando à superfície o suicídio ou o abismo interior, esta é sem dúvida uma novela de ambivalências trágicas. 

O texto da Conferência De Mim é, obviamente, um manifesto artístico de rara coragem, onde Judith Teixeira expõe o seu "Eu" artístico e se defende das vis acusações que havia sofrido publicamente. 

A escrita narrativa de Judith Teixeira recordou-me, em muitos aspectos, a poesia de Espanca. Um certo lirismo, feminilidade, um estado de êxtase, encantamento, bem como a brusquidão, o repentino e o abismo. Sem dúvida que me deixou curiosa, para não dizer ansiosa, de ler a sua obra poética.