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Queirosiana

Blogue sobre livros, leituras, escritores e opiniões

Frankenstein, Mary Wollstonecraft Shelley (1818)

Ficção - Horror/Gótico - Clássicos

26.01.20 | L.F. Madeira

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Já conhecia os personagens deste épico da literatura, mas foi após ver a série Penny Dreadful que tomei a resolução de ler esta narrativa quase poética sobre a existência humana escrita pela pioneira Mary Shelley. Este livro tem uma beleza intrínseca e uma humanidade latente. 

Mary Shelley criou este prodígio literário num momento de ócio entre amigos (entre eles Lord Byron, criador do desafio) que se viram confinados a quatro paredes em razão da forte chuva que os impedia de aproveitar as paisagens bucólicas de Genebra. Assim surgiu Frankenstein, em 1818, pelas mãos da jovem de 23 anos. Mary Shelley era uma excepção à época, - aliás, contam-se pelos dedos das mãos as escritoras mulheres que conseguiram singrar na arte literária da época - teve o privilégio de nascer numa família liberal que lhe proporcionou, mesmo que indiretamente (pois não teve acesso a uma educação formal), os meios e as oportunidades (mesmo que limitadas) que permitiram a Mary ser uma livre pensadora e criadora - recordemos que a sua mãe era uma das pioneiras do feminismo Mary Wollstonecraft, e o seu pai o filósofo William Godwin. Ainda assim, a vida de Mary Shelley não esteve livre de tragédias e desgostos prematuros que, em certa medida, se refletem no fantástico livro Frankenstein. Feita esta nota, importa contudo, salientar outra, Frankenstein foi primeiramente apresentado ao público em anonimato e, durante algum tempo, a sua autoria foi atribuída ao marido de  Mary.

Frankenstein, é uma história fantástica sobre a relação entre criador e criatura, nas palavras de Mary Shelley, ela criou “uma história que pudesse falar aos misteriosos medos da nossa natureza e despertasse o arrepiante terror”. Victor Frankenstein é um cientista que cria um monstro a partir de cadáveres, misturando matemática e alquimia (ou em versões posteriores, eletricidade) - o título do livro vem do criador e não do monstro, do monstro desconheceremos sempre o nome. Em certa medida, podemos até considerar que o monstro é o próprio cientista que, movido pela ambição científica, destrói todas as convenções e ignora a ética, criando um ser que resultará na sua ruína e destruição - mas a verdade é que, do  contacto com o monstro, percebemos que foi a ausência de amor e de orientação que o desviaram da humanidade, foram o terror e o nojo da imperfeição da criação pelo criador que o tornaram numa criatura miserável. 

Confesso que o relato da sua existência, feito pela criatura ao criador, é uma das passagens literárias mais belas que li até aos dias de hoje, é comovente e empática. 

Sim, Frankenstein é um romance gótico, horripilante e fantástico, mas de grande profundidade emocional e para sempre atual, por apelar ao que de mais humano há, no bom, no mau, no desconhecido, na razão, no sonho... e no final, diria eu, uma alegoria à responsabilidade do criador. 

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Quero ler este livro

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A Morte de Ivan Ilitch, Lev Tolstoi (1886)

Ficção - Clássicos

26.01.20 | L.F. Madeira

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Um pequeno livro com uma história monumentalmente elaborada. Lido num trago, numa tarde de domingo. Foi simultaneamente uma fonte de iluminação e um murro no estômago. 

Tolstoi apresentou esta magnífica obra literária em 1886, nesta breve novela conhecemos Ivan Ilitch, um juiz com uma doença que o levará à morte e cujo definhamento acompanhamos. 

Nas primeiras páginas acompanhamos a notícia da morte e o velório de Ivan Ilitch, os pensamentos egoístas dos colegas de trabalho, a máscara de viúva enlutada da esposa, e derradeiramente, a quase insignificância da morte do nosso personagem. Depois, voltamos ao passado, à ascensão social e profissional de Ivan Ilitch e à lenta e imperceptível perda de significado da sua vida. Por fim, a doença, o definhar, o abandono, a incompreensão, o fardo... A vida e a morte, a relação dicotómica da existência humana, é o tema desta obra - magistralmente escrita e sintetizada. 

Em torno de Ivan Ilitch apercebemo-nos da mentira e da falsidade que giram em torno do seu universo existencial, a essa superficialidade da vida, escapam o seu filho e o seu criado. Há algo de enternecedor na relação circunstancial de Ivan Ilitch e do seu criado Gerasim, emocionou-me muito, quase como um ato de contrição. 

Durante a doença, assistimos ao lento desaparecimento de Ivan Ilitch - mas há algo de benévolo na dor ou na expiação da dor, pois no final algo ressuscita, algo renasce de Ivan Ilitch que o permite dar o passo para a próxima  dimensão da existência em paz e esperança - a aceitação da morte, se bem interpretei. Esta é uma obra que nos deixa um agridoce na boca e no coração, que nos questiona sobre a existência e o ocaso da vida e o sentido da mesma, fiquei a desejar lê-la novamente, num destes dias. 

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Quero ler este livro

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