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Queirosiana

Blogue sobre livros, leituras, escritores e opiniões

Clássicos Imperdíveis - uma seleção de obras até ao século XIX

Listas de Leitura

25.02.20 | L.F. Madeira

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Ora aqui está a primeira parte de uma lista que há muito queria ter feito. Baptizei-a "Clássicos Imperdíveis" por resultar de uma seleção de obras comummente aceites como tal.

Mas o que é um clássico? Nas palavras de Italo Calvino, "um clássico é um livro que nunca acabou de dizer o que tem a dizer (...) é algo que persiste como ruído de fundo, mesmo quando as mais incompatíveis preocupações momentâneas assumem o controlo da situação (...) os clássicos ajudam-nos a entender quem somos e onde estamos".

Nos Clássicos Imperdíveis optei por criar limitações temporais e assim, nesta primeira parte, apresento títulos que granjearam fama até ao séc. XIX, inclusive. Sim, esta é eminentemente uma lista de influência britânica, ditam os gostos, e masculina, dita a época. Importa salientar que os oitenta títulos apresentados não seguem nenhuma ordem de preferência nem cronológica, aliás, a sua enumeração foi bastante ad hoc

Novamente, uma lista sem metas, apenas um guia para quando me sentir imbuída do espírito belle époque ou vitoriano porque, afinal de contas, "ler os clássicos é melhor do que não ler os clássicos"!

  1. As Aventuras de Huckleberry Finn, Mark Twain
  2. O Último dos Moicanos, James Fenimore Cooper
  3. Mulherzinhas, Louisa May Alcott* (comprar livro)
  4. A Letra Escarlate, Nathaniel Hawthorne
  5. Orgulho e Preconceito, Jane Austen* (comprar livro)
  6. Retrato de uma Senhora, Henry James
  7. Moby Dick, Herman Melville
  8. Calafrio, Henry James* (comprar livro)
  9. Alice no País das Maravilhas, Lewis Carroll
  10. David Copperfield, Charles Dickens* (comprar livro)
  11. Drácula, Bram Stoker
  12. Emma, Jane Austen* (comprar livro)
  13. Longe da Multidão, Thomas Hardy(comprar livro)
  14. Grandes Esperanças, Charles Dickens* (comprar livro)
  15. Jane Eyre, Charlotte Bronte* (comprar livro)
  16. Lorna Doone, R. D. Blackmore
  17. Oliver Twist, Charles Dickens
  18. Tess dos D'Urbervilles, Thomas Hardy
  19. Um Conto de Duas Cidades, Charles Dickens
  20. Feira das Vaidades, William Makepeace Thackeray
  21. A Mulher de Branco, Wilkie Collins
  22. O Monte dos Vendavais, Emily Bronte* (comprar livro)
  23. A Vénus das Peles, Leopold von Sacher-Masoch
  24. O Conde de Montecristo, Alexandre Dumas
  25. Ana Karenina, Leo Tolstoi* (comprar livro)
  26. Crime e Castigo, Fiódor Dostoiesvky* (comprar livro)
  27. Guerra e Paz, Leo Tolstoi
  28. A Prima Bette, Honoré de Balzac
  29. Pais e Filhos, Ivan Turgenev
  30. A Morte de Ivan Ilitch, Leo Tolstoi* (comprar livro)
  31. O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde(comprar livro)
  32. Frankenstein, Mary Shelley(comprar livro)
  33. Persuasão, Jane Austen(comprar livro)
  34. Os Miseráveis, Vitor Hugo
  35. Sensibilidade e Bom Senso, Jane Austen(comprar livro)
  36. Contos de Natal, Charles Dickens(comprar livro)
  37. Os Irmãos Karamazov, Fiódor Dostoievsky
  38. A Importância de Ser Earnest, Oscar Wilde
  39. Madame Bovary, Gustave Flaubert* (comprar livro)
  40. Mansfield Park, Jane Austen(comprar livro)
  41. Norte e Sul, Elizabeth Gaskell(comprar livro)
  42. Middlemarch, George Eliot(comprar livro)
  43. O Coração Revelador, Edgar Allan Poe
  44. A Casa Sombria, Charles Dickens
  45. O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, Robert Louis Stevenson
  46. O Idiota, Fiódor Dostoievsky
  47. Folhas de Erva, Walt Whitman
  48. Notas do Subterrâneo, Fiódor Dostoievsky
  49. A Cabana do Pai Tomás, Harriet Beecher Stowe
  50. Casa de Bonecas, Henrik Ibsen
  51. Fausto, Goethe
  52. A Inquilina de Wildfell Hall, Anne Bronte
  53. Villette, Jane Bronte
  54. O Vermelho e o Negro, Stendhal
  55. Almas Mortas, Nikolai Gogol
  56. O Papel de Parede Amarelo, Charlotte Perkins Gilman(comprar livro)
  57. Pequena Dorrit, Charles Dickens
  58. O Moinho à Beira do Floss, George Eliot
  59. Agnes Grey, Anne Bronte(comprar livro)
  60. Lady Audley’s Secret, Mary Elizabeth Braddon
  61. A Cartuxa de Parma, Stendhal
  62. Tempos Difíceis, Charles Dickens
  63. Romeu e Julieta, William Shakespeare
  64. Macbeth, William Shakespeare(comprar livro)
  65. Nana, Émile Zola
  66. Cândido ou o Optimismo, Voltaire
  67. A Paixão do Jovem Werther, Goethe
  68. Canções de Inocência e de Experiência, William Blake
  69. Mathilda, Mary Shelley
  70. Uma Reivindicação pelos Direitos da Mulher, Mary Wollstonecraft
  71. Mistérios de Udolpho, Ann Radcliffe(comprar livro)
  72. Emílio, ou Da Educação, Jean-Jacques Rousseau
  73. Dom Quixote, Cervantes
  74. A Mulher Quixote, Charlotte Lennnox
  75. Leviatã, Thomas Hobbes
  76. Oroonoko, Aphra Behn
  77. O Príncipe, Nicolau Maquiavel(comprar livro)
  78. Utopia, Thomas More
  79. Lusíadas, Luís Vaz de Camões* (comprar livro)
  80. O Crime do Padre Amaro, Eça de Queiroz(comprar livro)

 

*já lidos

p.s. Why Read The Classics?, Italo Calvino

O Crime de Lorde Arthur Savile, Oscar Wilde (1891)

Contos - Mistério/Thriller - Clássicos

24.02.20 | L.F. Madeira

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Oscar Wilde publicou apenas um romance na sua vida, O Retrato de Dorian Gray, a sua restante obra é composta de contos e dramaturgia. Nesta seleção das edições quasi, reúnem-se dois contos de Oscar Wilde, O Crime de Lorde Arthur Savile e A Esfinge sem Segredos ambos publicados originalmente em 1887 em periódicos, sendo que apenas em 1891 foram publicados numa coletânea de contos. 

O Crime de Lorde Arthur Savile, é a história de Lorde Arthur Savile e do seu (auto-imposto) destino de assassino. Escrito de forma simples e elegante, Wilde prende o leitor com o seu humor e ironia, ao mesmo tempo que o introduz na frívola e superficial alta sociedade britânica, repleta de clichés e trivialidades. Lorde Savile, após uma leitura de um quiromante, descobre que existe um assassínio no seu destino, do qual será ele o autor. A partir daí embarcamos nos esforços mal sucedidos do putativo assassino para eliminar um semelhante do mapa. No final, efetivamente concretiza o seu destino... mas será que devemos falar de destino? Não creio, Wilde parodiou neste conto a amoralidade, o seguidismo e a ausência de bom senso da sociedade vitoriana da época.  

A Esfinge sem Segredos é um conto centrado em dois amigos da faculdade que, depois de não se verem há dez anos, se encontram por acaso em Paris e no qual um deles revela ao outro uma esfíngica história de paixão. Ao longo de breves páginas envolvemo-nos com a tentativa do protagonista em entender as ações envoltas em mistério da mulher. Uma leitura rápida que deixa um gosto a "soube-me a pouco". 

Macbeth, William Shakespeare (1606)

Peça teatral - Drama - Clássicos

21.02.20 | L.F. Madeira

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A tragédia medieval Macbeth foi a minha estreia com Shakespeare. Não posso dizer que tenha sido arrebatada, porque não o fui, todavia, saboreio ainda a delícia de ler uma tradução tão sublime. Trata-se de um texto para peça teatral e será nos palcos, certamente, que assume a sua completude.

Macbeth explora o tema da maldade através do conto de um assassínio - um regicídio, para ser mais específica. A personagem Macbeth é inicialmente apresentada ao leitor como alguém com tudo a seu favor, contudo, insuflado pela ambição - ou deverei antes chamar ganância? - é incitado a cometer uma traição e um assassínio e a partir desse momento inicia um penoso caminho de autodestruição, pela consciência da culpa e da maldade dos seus atos, ou talvez não - talvez seja mais o medo de ser descoberto que o move. A sua alma foi de tal modo corrompida pela maldade que não creio existir lugar a remorso na existência de Macbeth. 

Paralelamente à maldade de Macbeth, está a sua mulher, Lady Macbeth, descrita como mais ambiciosa e cruel do que o marido - é ela a impulsionadora do crime, porque só tornando Macbeth rei, pode ela tornar-se rainha. Em Lady Macbeth parece existir remorso, na medida em que ela se revela incapaz de lidar com a culpa, terminando com a própria vida.

A título de curiosidade, Macbeth foi um verdadeiro rei Escocês dos inícios do século XI e também a sua história está envolta em assassínios e traições. Mas ainda que o Macbeth de Shakespeare possa ter tido raízes nas personagens históricas, o intento do autor não era a de escrever uma biografia, mas sim o de explorar os temas do poder e da ambição cega e de como ela pode destruir vidas. Bem como o tema da culpa, do remorso e do medo. 

Não me confesso ansiosa por regressar a Shakespeare, mas no mínimo, curiosa para segunda ronda com Romeu e Julieta. 

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Em Parte Incerta, Gillian Flynn (2012)

Ficção - Mistério/Thriller

15.02.20 | L.F. Madeira

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Perverso. Doentio. Gillian Flynn sabe como viciar o leitor e a leitora.

Este é um livro sobre um casal, sobre o desaparecimento de Amy e sobre o seu reaparecimento. Mas talvez seja mais do que isso, um jogo psicológico, um teste aos limites da mente humana. Embora o estilo não seja bem o meu género, Flynn capturou a minha atenção a partir da segunda parte do livro. Sim, porque a primeira parte soava demasiado a filme chick flick. Na segunda parte a história devorou-me por completo e envenenou-me os sentidos. Numa sucessão de capítulos intercalados entre marido e mulher, conhecemos a história da relação de Amy e Nick. 

Mas mais do que o romance, é-nos colocado a nu um casal que se desapaixonou e nesta teia de cedências e negligências, vamos conhecendo os meandros mais íntimos da mente de cada um. E a mente de Amy é, no mínimo, assustadoramente desconcertante. 

Guiando-nos pelo passado e pelo presente deste casal, vamos alternando sentimentos em relação a Amy e Nick, ora odiamos, ora escarnecemos, ora nos apiedamos. Mas é difícil ficar indiferente e impossível não sentir assombro.

Esta é uma história de obsessão, tornando a própria leitura aditiva. 

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Mulherzinhas, Louisa May Alcott (1868)

Ficção - Clássicos

09.02.20 | L.F. Madeira

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Por influência do desafio de uma amiga para ir ao cinema assistir ao - esplêndido - filme Mulherzinhas, resolvi reler a obra de Louisa Alcott que me acompanhou desde cedo na infância e à qual regressei poucas vezes.

Que feliz resolução! Reler Mulherzinhas trouxe-me à memória vivências felizes da meninice, sobretudo da minha primeira biblioteca, do primeiro cartão de leitora, da primeira requisição de um livro, de como o intervalo do almoço voava quando mergulhava nas prateleiras da modesta biblioteca do colégio. 

É um livro juvenil, eu sei. Mas sintetiza dentro de si tão bons exemplos, tão bons sentimentos sem vã moralidade, que é um encanto, um livro que apetece ter na mesinha de cabeceira para confortar, para embalar.  

Nesta obra acompanhamos a vida de quatro irmãs, Meg, Jo, Beth e Amy, os seus sonhos e anseios, os seus esforços e frustrações, a sua rivalidade e amizade e a sua passagem da mocidade para a vida adulta. 

Posso não gostar muito do título do livro (há algo de inferior na ideia de mulherzinhas), não descuro também a época no qual foi escrito e sou a primeira a ficar irrequieta na cadeira com algumas passagens respeitantes à dita condição feminina. Mas é por isso também que lá está Jo, para iluminar o dia. 

Jo é uma personagem deliciosa pela sua natureza espontânea, irreverente e não convencional. Detentora de um invejável sentido de independência, é sobre ela que recai o foco da história. 

Nunca me conformei com o destino de Jo e no meu coração ela correu sempre livre e desprendida. Mas talvez hoje compreenda melhor o destino que a escritora escolheu para ela, tornando-o não numa inevitabilidade do  fado feminino, mas sim numa escolha pessoal. 

Um livro para todas as meninas e mulheres deste mundo. O primeiro que ofereço às meninas do meu, para que sonhem muito e alimentem sempre a esperança. 

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História do Novo Nome, Elena Ferrante (2012)

Ficção Histórica

06.02.20 | L.F. Madeira

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O universo de Elena Ferrante é deslumbrante. Deslumbrante pela franqueza de sentimentos, pela inclemência da realidade da vida, das complexas relações pessoais, da existência interior. Que saborosa descoberta me trouxe 2020 com A Amiga Genial e agora com o segundo volume, História do Novo Nome. Cada página é um trago de vida. 

No seguimento do primeiro volume, em História do Novo Nome retomamos o universo de Lenú e Lila nos seus 17 anos até aos  inícios dos seus vinte e anos. A infância ficou no primeiro volume e agora mergulhamos na juventude destas duas extraordinárias - e geniais - personagens. Neste segundo volume, em ambas é latente a necessidade de pertença, a busca de pertencer a algo ou algum lado - não a alguém, sublinho. A necessidade de uma identidade. A premência de criar o seu destino. Uma batalha pela afirmação. 

Lila está agora casada e Lenú dedicada aos estudos. Numa mescla de surdos entendimentos e negligências intencionais, Lenú e Lila parecem seguir caminhos  autónomos mas que sempre se interseccionam. Esta é sem dúvida a história de uma amizade pungente que é, simultaneamente, esmagadora e comovente. Há algo de auto-destrutivo e regenerador na relação de Lila e Lenú - e sim, a contradição é propositada. 

O enredo deste segundo volume engole o leitor e não o deixa escapar, acompanhamos a vida de recém casada de Lila, novos e passados amores, as férias de Lila e Lenú em Ishia e uma reviravolta abrupta, novos projetos profissionais e criativos, a ida de Lenú para Pisa, as intrincadas relações das personagens do bairro, a maternidade de Lila, a fuga de Lila que embora surja como um retrocesso, a mim me fez lembrar as ondas que andam para trás para poderem seguir em frente, o sentimento de desajuste e o merecido reconhecimento de Lenú. 

São os detalhes que tornam a escrita de Ferrante magnetizante e absorvente, bem como a sua forma de nos guiar pelas complexas relações pessoais das personagens do bairro, das suas venturas e desventuras. Elena Ferrante é brilhante na forma como revela, sem pudor, as contradições dos sentimentos humanos. Elena Ferrante é uma feiticeira, uma cerzideira de emoções. 

Uma nota para o grafismo das edições da Relógio D'Água das obras de Elena Ferrante, são quase hipnotizantes e de uma enorme elegância em comparação com as edições em língua inglesa, por exemplo.

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Carmilla, Sheridan Le Fanu (1872)

Ficção - Horror/Gótico - LGBT

03.02.20 | L.F. Madeira

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Uma leitura curiosa e estranhamente moderna. Digo estranhamente porque, embora sendo uma escrita e um enredo singelos, em quase nada denotei o fator temporal desta obra - o de ter sido escrita na segunda metade do século XIX. 

Carmilla é um clássico gótico, a história que veio inspirar a famosa criação de Bram Stoker, Drácula. Carmilla é pioneira na abordagem ao folclore dos vampiros, temática que granjeou grande popularidade na literatura desde então. Não sei se pioneira, mas no mínimo, invulgar, é também a abordagem da paixão lésbica. 

Com a criação de Carmilla, surgiu aquela que viria a ser das primeiras personagens vampíricas no feminino. O enredo não é extenso ou elaborado, há até algumas dúvidas que subsistem uma vez concluída a leitura. Todavia, é surpreendente e cativante, pelo folclore, pela superstição e pelos mistérios sempre latentes. 

No início da história conhecemos Laura, que vive com o seu pai num castelo na região austríaca. Após um espalhafatoso e incrivelmente rápido acidente com uma carruagem, Carmilla torna-se hóspede no castelo da família de Laura. Desde cedo se apresentam aos leitores alguns aspetos invulgares do comportamento e hábitos de Carmilla. Entre Laura e Carmilla desenvolve-se uma intensa amizade que, em muitos momentos, se assemelha a uma relação de paixão sanguínea (literalmente) entre as duas jovens. A determinada altura surge uma estranha doença nas redondezas que provoca a morte a outras jovens e acaba por "infetar" Laura que, em poucas semanas, definha rapidamente até se revelar o segredo de Carmilla e a sua natureza de vampira. 

Não se tem de ser um amante do género gótico para apreciar o estilo desafetado e arrojado do romance Carmilla.

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O Coração das Trevas, Joseph Conrad (1902)

Ficção - Clássicos

03.02.20 | L.F. Madeira

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Não sei como me justificar, mas não consegui digerir este clássico dos inícios do século XX. Efetivamente a leitura foi intragável, passava as páginas e não conseguia nunca envolver-me. Sob pena de soar misândrica, a verdade é que senti estar a ler um livro escrito por um homem para homens. Talvez não tenha sido boa ideia tomar esta obra nas mãos depois de ler Um Teto Só Seu de Woolf, posso ter sido desencaminhada. No entanto, todo o enredo surgiu aos meus olhos como uma exaltação viril, imperialista e supremacista.

O Coração das Trevas é um importante livro da literatura anglófona e da literatura mundial. Resumidamente, a obra é um relato da história de vida de um marinheiro inglês, Marlow, que nos conta a sua experiência quando navegou o rio Congo nessa colónia inglesa. Descobri mais tarde que o próprio autor, Conrad, vivenciou semelhante história na vida real. 

Marlow vai à procura de Kurtz, um comerciante de marfim (enlouquecido) e é o relato dessa viagem que é o cerne da história. Aqui é-nos apresentado o profundo continente africano pelos olhos do colono europeu. São constantes os paralelismos entre o civilizado e o primitivo, o negro e o branco. O enrendo adensa e torna-se muito desumano e brutal. A exploração do homem pelo homem, o paradoxo da humanidade. 

Não, não gostei. Mas o defeito é meu. Farei nova tentativa, um dia destes. 

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A Room of One's Own, Virginia Woolf (1929)

Não-ficção - Ensaio - Feminismo - Clássicos

01.02.20 | L.F. Madeira

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Li este ensaio pela primeira vez em 2013, pouco mais tinha do que vinte anos. Reli-o hoje. Vibrei então, vibrei agora e sem grandes adivinhações, vibrarei de cada vez que o reler. Que ensaio tão profundamente bem escrito! É um incontornável texto feminista e, não querendo exacerbar a minha idolatria woolfiana, - o incontornável texto feminista do século XX. 

Este ensaio de 1929 de Virginia Woolf sobre a luta das mulheres pela independência e oportunidade criativa foi o resultado de uma série de palestras às sociedades literárias de Newnham e Girton Colleges, as duas primeiras faculdades femininas em Cambridge, que decorreram em outubro de 1928 sobre a mulher e a ficção. 

Neste ensaio, marco do pensamento feminista, Woolf discorre sobre os preconceitos e as desvantagens educacionais, sociais e financeiras que as mulheres enfrentaram ao longo da história - assente na premissa de que uma mulher precisa de dinheiro e de um quarto só seu com fechadura na porta para escrever ficção - ou, num sentido mais lato, para criar. A premissa é simples de traduzir, a necessidade do dinheiro como condição essencial para a independência financeira, social e mental; a necessidade de um quarto seu com fechadura como condição essencial para a autonomia, para a liberdade e disponibilidade física e mental. Talvez seja interpretação minha, mas vou um pouco mais longe, a ideia de um quarto só seu, é igualmente uma simbologia para a necessidade das mulheres viverem por si e para si, e num exercício de autoconhecimento, na livre e silente solidão desenvolverem as suas capacidades, sem papéis ou expectativas sociais a obstaculizarem o caminho. 

Assim, Woolf inicia um exercício inspirador - numa visita ao Museu Britânico e na exploração das estantes de livros, mostra-nos tudo o que descobriu sobre o que já foi escrito sobre mulheres. Chegamos à conclusão que, inicialmente, pouco foi escrito. Do pouco escrito, apenas encontramos autores homens. Daqui Woolf desenvolve o argumento de que tanto a literatura como a história são construções masculinas de tendência marginalizadora das mulheres e do seu papel. 

Consequentemente, Woolf vem refutar todos os argumentos de que as mulheres são seres inferiores (e, portanto, escritores inferiores), tão amplamente em voga no início do século XX, sobretudo devido às lutas pelo direito ao voto das mulheres, focando-se no argumento de que as mulheres, ao longo dos tempos, foram impedidas de frequentar a  escola e universidades, foram excluídas da propriedade (na herança, no casamento), sendo-lhes vedado o espaço público e limitadas a uma existência privada, em tarefas domésticas e criação de filhos - e de que estas são as verdadeiras razões para não existirem mais mulheres escritoras, historiadoras, cientistas, ... - não por que seja da natureza da mulher ser inferior, mas antes pelas óbvias razões de que às mulheres não foi dada liberdade, espaço e tempo para desenvolverem as suas capacidades e criatividade.  Woolf celebra o trabalho de mulheres que superaram essa tradição e se tornaram escritoras, incluindo Jane Austen, George Eliot e as irmãs Brontë, Anne, Charlotte e Emily.

Mas não só, Woolf insiste também que, porque a literatura e a história são construções masculinas, são os valores masculinos que aí prevalecem - por exemplo, num outro exercício brilhante, a qualidade e importância de um livro assume-se pela sua temática, se trata de estratégia militar é um livro importante; se trata dos sentimentos e das conversas de amigas numa sala de visitas, é insignificante. 

No final, Woolf exorta todas as mulheres a escrever, a escrever de tudo! A não se limitarem a nenhum assunto, o trivial e o profundo, mas a trabalharem afincadamente, ainda que na pobreza e na obscuridade - segundo Woolf, o treino, a prática, levariam a que, mais cedo ou mais tarde surgisse a tal figura da irmã de Shakespeare, impedida de existir pela época  em que viveu. É maravilhosa, esta ideia de como cada mulher escritora é o legado de todas as mulheres escritoras anteriores. Tal como é inspiradora a ideia final de Woolf de que um mundo ideal é um mundo andrógino, no sentido em que a nossa existência é autónoma e a nossa relação é com o mundo da realidade e não apenas em facção com o mundo dos homens e das mulheres. 

Sim, alguns aspetos deste ensaio de Woolf estão aparentemente ultrapassados nos dias de hoje - mas não universal e plenamente. A Room of One's Own assume-se intemporal na medida em que pela sua deliciosa teia de exemplos e alegorias permite uma reflexão atual sobre o que é ser mulher, e para mim, sobre qual é o meu lugar na sociedade e a minha relação com os outros e de como a igualdade de género é uma luta contínua e de como, para muitas mulheres ainda não é permitido andar pela relva, estando limitadas ao caminho de cascalho para evitar horror e indignação. 

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