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Queirosiana

Blogue sobre livros, leituras, escritores e opiniões

O Poder, Naomi Alderman (2016)

Ficção científica - Feminismo - Utopia/Distopia

28.04.20 | L.F. Madeira

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O mote deste livro é aliciante, demasiado aliciante. Curioso, como a sua leitura instiga um sentimento de retaliação. Devo confessar, em muitos momentos, senti algo muito semelhante a um prazer sádico enquanto devorava as páginas deste romance fantástico, ou de ficção científica, não sei ao certo como o categorizar. Gostei. Bastante. Senti culpa por me render tão facilmente, mas não me quero justificar. 

O poder, o poder de causar dor, de magoar fisicamente, de matar. É esse poder que é dado às mulheres neste livro e que as coloca numa posição de supremacia em relação aos homens - aqui não se fala em igualdade, nem é isso que se pretende. 

Aqui fala-se de uma revolução, uma inversão de paradigma, neste universo são os homens que têm receio de sair à rua de noite, sozinhos. São os homens que se protegem junto dos pares, num exercício de auto-segregação. São os homens que têm medo que uma qualquer mulher alucinada lhes destrua o âmago da sua existência, a sua vida ou dignidade. Daí que fale em retaliação, uma vingança radical, chamemos-lhe. Muito radical. Demasiado radical. Desumanamente radical. 

Confesso que à medida que fui avançando na história, ela me deixou mais e mais desconfortável e inquieta. O espírito de retaliação inicial tornou-se, progressivamente, abjeto. 

No mínimo, pelo paradoxo, este livro expõe a nu a desigualdade atual entre mulheres e homens. E por isso não creio fazer sentido colocar a pergunta, «e se fosse ao contrário, e se a história fosse sobre homens que eletrocutam mulheres»? Não creio fazer sentido, precisamente porque a questão não é, desde logo, para ser literalmente colocada. O Poder fala-nos de um universo distópico, contudo, muito do que ali é relatado, nas suas descrições mais violentas, ocorreram e ocorrem diariamente na vida das mulheres de ontem, hoje e agora. A violência de séculos, de maior e menor grau, a que as mulheres estiveram e estão sujeitas demonstram que, mesmo as descrições mais terríveis da obra, têm um paralelo na nossa realidade. E porquê? Porque os perpetradores da violência podiam (e podem). Como podem as mulheres neste livro. É justo? É digno? É humano? Não. Mas repito, este não é um livro sobre igualdade. Levará, naturalmente o leitor a refletir sobre a igualdade, mas intrinsecamente, esta é uma história invertida de desigualdade, desproporção e poder. E é precisamente por colocar os homens como vítimas, por inverter a ordem do poder que, como uma luva branca, esbofeteia o leitor, forçando-o a revisar a sua própria realidade. 

Este livro não é uma resposta, nem um chamamento - é um livro para ser pensado e que demonstra que o poder não tem género. 

Não é uma obra prima, o enredo tem uma estrutura atípica, nem sempre é óbvio qual o fio condutor, talvez por se focar em várias personagens em simultâneo e retratar a realidade e contexto de cada uma de forma independente. Mas gostei. Bastante. A premissa é disruptiva e a reflexão que advém da história é enriquecedora. Se quiserem dará um bom filme. 

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A Costa dos Murmúrios, Lídia Jorge (1988)

Ficção - Romance

25.04.20 | L.F. Madeira

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Não sei se compreendi este livro. Receio que não. Ora aqui está uma premissa pouco promissora para o que abaixo escrevo. 

O enredo, complexo (ainda que o estilo de escrita seja cativante), inicia-se com uma estória dentro da estória, uma espécie de relato ou de introito a um livro ou entrevista e que não coincide, necessariamente, com o relato pessoal e posterior de Eva, a personagem principal, misturam-se aqui discursos diretos e indiretos. Este é, sem dúvida, um aspeto que me causou sérias confusões ao longo do romance.

O cenário é Moçambique, Moçambique colonial da década de 70, apresentando um retrato feminino dos derradeiros anos da guerra colonial, das incongruências, da desolação, das desigualdades, da violência e do silêncio, ou deverei dizer antes, dos murmúrios?  A guerra, em si, é apenas o pano de fundo, não a ação do enredo. No enredo, são as consequências quotidianas da guerra que se exploram e que se ironizam. 

Queria muito escrever que este livro me arrebatou a alma, mas não consigo. Não consigo, apesar de me ter deliciado com a poesia narrativa de Lídia Jorge. Há algo de primaveril no estilo de escrita de Lídia Jorge, pequenas ideias que florescem e que criam sementes no leitor, mesmo quando descreve a desilusão, o inóspito, a crueldade e a desumanidade, ou então palavras que brotam e que desconhecemos o sentido, obrigando-nos a uma constante busca por significados e interpretações.  

No entanto, perdi-me na cronologia, perdi-me entre a realidade da ficção e a ficção da ficção, perdi-me e perdi o fio condutor do romance. Cheguei ao final consciente de que precisava de regressar ao início, mas sem vontade. Que contradição. É um livro que precisa de tutor, no sentido figurado ou botânico, um tutor que não tive, mas que vou arranjar. 

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A Honra Perdida de Katharina Blum, Heinrich Boll (1974)

Ficção - Clássicos

21.04.20 | L.F. Madeira

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O enredo, magnificamente sintetizado e de fácil leitura, coloca uma importante questão ao leitor - a liberdade de expressão é um fim que justifica todos os meios? Ou talvez não seja esta a questão, não tão radical, pelo menos. Não, a pergunta que paira e que transcende a obra assenta em saber, em que medida, a liberdade de expressão pode ter o direito a explorar, distorcer e arruinar uma pessoa. 

Em menos de cem páginas o escritor laureado relata a história de Katharina Blum, uma mulher, governanta, sem mácula, que vê a sua vida desaparecer em pedaços à medida que a sua privacidade e intimidade é exposta num tabloide sensacionalista, depois de albergar, por uma noite, um homem procurado pela polícia e suspeito de assalto a um banco. Heinrich Boll, cria um distanciamento "higiénico" da história que conta, é objetivo e impassível. O relato do escritor, demonstra, por oposição, aquilo que poderia ter sido a cobertura mediática da notícia - no seu relato não há especulações, citações anónimas, fontes desconhecidas ou relatos distorcidos, existe uma descrição factual  dos incidentes e um narrador imparcial. 

Acompanhar a destruição de caráter, o aniquilamento da reputação e esmagamento da honra de alguém, deixa uma marca impactante no leitor, sobretudo porque facilmente nos conseguimos colocar nos pés de Katharina. Mas o problema no final é a dúvida, a dúvida que não desaparece, a honra e o caráter de uma pessoa permanentemente em cheque, uma nódoa indelével que nem o tempo pode conseguir recuperar. 

Trata-se um livro extremamente atual - para não dizer, cada vez mais atual - em face das notícias falsas que invadem a nossa realidade, das ameaças populistas que pululam por todo o mundo, de uma ética fugaz, do imediatismo e consumismo que tudo querem justificar - aqui está um livro que deixa a reflexão ao leitor, uma reflexão sobre limites e abusos, sobre democracia e direitos humanos. 

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O Segundo Sexo Vol. II, Simone de Beauvoir (1949)

Não-ficção - Feminismo - Filosofia - Clássicos

10.04.20 | L.F. Madeira

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No segundo volume de O Segundo Sexo, Beauvoir explora brilhantemente a formação e a situação das mulheres, concluindo que a mulher não é vítima de nenhuma fatalidade misteriosa, é a sua situação que a limita, é o molde em que o mundo está perspetivado que lhe restringe a sua liberdade e circunscreve o seu poder. 

Não, não há inferioridade feminina, nascer mulher não é ser inferior, não é ser menos capaz, nascer mulher em nada difere de nascer homem, é antes a sociedade, a cultura, os meios externos à existência, que tornam e forçam a mulher a sentir-se, quiçá, inferior. A inferioridade não é uma inevitabilidade do ser feminino, não é, nunca foi, nem será - é isso que Simone Beauvoir nos diz quando inicia este segundo volume declarando ninguém nasce mulher, torna-se mulher

Curiosamente, senti de forma mais premente o fator tempo neste segundo volume. Ou seja, na abordagem e no relato das situações de facto e das vivências femininas, senti um desajuste, reflexo da evolução da sociedade ocidental e dos novos papéis das mulheres na sociedade. Por exemplo, o acesso à educação é feito em igualdade de oportunidades, o conhecimento e informação sobre o corpo e a sexualidade é substancialmente mais acessível, o casamento já não se assume como predestinação da mulher e o complexo de inferioridade da condição feminina está em vastos aspetos dissolvido. Presente ainda é o facto de as mulheres se encontrarem hoje - ainda - num mundo fortemente limitado e perspetivado por homens e para homens. A sua inserção na vida pública é ainda demasiado recente para que existam mudanças estruturais e permanentes. 

Na primeira parte, sob a epígrafe "Formação", percorremos a infância, adolescência e a iniciação sexual da mulher. Aqui é feito um estudo intensivo sobre a forma como as mulheres se tornam mulheres. E neste capítulo, não obstante a nota acima, encontrei um espelho de lutas que ainda hoje travamos. Por exemplo, a forma como as brincadeiras e os brinquedos das crianças reforçam e incutem estereótipos de género. A forma como as meninas e raparigas são, amiúde, educadas com literatura e mitologia que reflete toda uma corte de ternas heroínas amachucadas, passivas, feridas, ajoelhadas, humilhadas e que ensinam à rapariga o fascinante prestígio da beleza martirizada, abandonada, resignada. Sendo certo que hodiernamente o panorama se vai invertendo, é de sublinhar o apelo de Simone de Beauvoir para que, ao invés de educarem as meninas de que a felicidade depende em muito de ser amada, deviam antes ensiná-las a aceitarem-se sem complacência nem vergonha

No que concerne à adolescência e iniciação sexual, muitas são também as considerações de Beauvoir que hoje não encontram tão imediato reflexo na vidas das jovens mulheres, porém, perpassa e permanece viva essa objetificação do corpo feminino, cultural e socialmente enraizada e que tanto custa quebrar. Consequência desta ideia são também as considerações sobre a liberdade sexual da mulher que Beauvoir nos apresenta - sim, se é certo que neste plano houve mudanças radicais desde a data de publicação de O Segundo Sexo, a persistência da objetificação do corpo da mulher implica que, mesmo hoje, a sexualidade feminina se assuma como assunto mais tabu do que a do homem e que a conduta da mulher seja ainda, muito mais censurada e escrutinada do que a do homem. Por exemplo, a ideia comum de que a virgindade se dá e se perde - não se partilha -, demonstra claramente resquícios do conceito da assim denominada inferioridade feminina.

Na segunda parte é abordada a situação da mulher, da mulher casada, da mãe, da vida social, da prostituta, da velhice e do caráter da mulher. Foi sobretudo nesta parte que compreendi quão a sociedade ocidental ou europeia evoluiu desde o tempo em que Beauvoir escreveu esta obra em 1949. Nos tempos de hoje não é já comummente aceite a ideia do casamento como destino da mulher, a conceção de felicidade já não está limitada por normativos legais, o amor é livre e não um dever, o divórcio é prática comum, os métodos anticoncecionais estão generalizados, a interrupção voluntária da gravidez foi despenalizada, a autonomia e a independência da mulher não encontra barreiras legais, o corpo da mulher não é mais uma prisão e um destino - mas este não era o paradigma de Beauvoir em 1949. Claro que nos debatemos ainda com inúmeras questões como a desproporção do peso do trabalho doméstico e dos cuidados, a desigualdade salarial, o acesso a cargos de liderança, entre outros, e ao ler Beauvoir compreendemos - quase bruscamente - que a luta pela igualdade é muito recente na história da humanidade e que é extraordinário o caminho já percorrido. 

Ainda na segunda parte, Beauvoir explora a questão da objetificação e da alienação do corpo da mulher. Aqui encontrei muitos paralelismos com o meu pensamento atual e contextualizado. Este é um problema normalmente passado para segundo plano mas que está enraizado profundamente na cultura e na forma como formamos a raparigas. Se o drama da alienação do corpo da mulher para a natureza já foi hoje ultrapassado na nossa sociedade europeia ocidental, graças aos métodos contracetivos, o drama da alienação do corpo da mulher para a sociedade mantém-se subtil e fortemente implantado, nas palavras de Beauvoir, veste-se para se mostrar: mostra-se para ser

Na terceira parte abordam-se as "justificações", utilizando o tropo da "narcisista", da "apaixonada", da "mística", aqui são exploradas as causas e os porquês de muitas das características normalmente associadas ao ser feminino. E por fim, a quarta parte na qual Beauvoir conclui a sua teoria, intitulando-a "o caminho para a libertação", na qual sublinha que, apesar da evolução da condição feminina esta não modificou profundamente a estrutura social, sendo o mundo ainda um espelho da perspetiva masculina. Volta a reforçar as questões da objetificação da mulher e de como o ser e o parecer são a força motriz da forma como as mulheres interagem com o mundo, bem como o aspeto das limitações na educação e dos costumes impostos à mulher e que lhe limitam o horizonte e o domínio sobre o mundo, ou seja, o poder. 

Em suma, não é por nenhuma "essência misteriosa" ou inferioridade genética que as mulheres têm menos presença nos livros de História, nas estantes das bibliotecas, nos fóruns de decisão, não, Beauvoir explica-o nestes dois volumes de O Segundo Sexo, tal consideração está errada, nas suas palavras, "para explicar as suas limitações, é portanto a sua [das mulheres] situação que cabe invocar" e, concluindo, é apenas alterando e modificando estruturalmente a situação das mulheres que ocorrerá uma modificação material na forma como mulheres e homens interagem entre si e com o mundo.

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