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Queirosiana

Blogue sobre livros, leituras, escritores e opiniões

The Golden Notebook (1962), Doris Lessing

Ficção - Clássicos - Feminismo

13.06.20 | L.F. Madeira

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Este é o oitavo livro de Doris Lessing que tomo em mãos. Comecei a ler esta escritora com dezassete anos e depois nos vinte anos fiz um périplo pelas suas obras principais, requisitando livro atrás de livro na Biblioteca Geral da UC, fazendo dela uma amiga sempre disponível nos períodos sem aulas da faculdade. Em muitos momentos, percebo hoje, foi uma leitura precoce e incompleta. Um destes dias terei forçosamente de revisitar algumas obras de Lessing. Mas uma coisa eu sei, gosto do seu estilo de escrita, sem subterfúgios e de uma honestidade imensa. Durante aqueles anos de faculdade carreguei comigo uma certa insatisfação, a de não ter à disposição uma edição traduzida de The Golden Notebook, vastamente considerado o opus magnum de Doris Lessing. Em vão procurei tradução e é para mim, ainda hoje, um enigma a razão pela qual esta obra basilar de uma escritora Nobel da Literatura não ter tradução em Portugal. Fui adiando a leitura pois não me sentia disponível para ler uma obra de 600 páginas em língua inglesa. Este ano, finalmente, concretizei este objetivo que me perseguia há uns tempos - e que feliz empreendimento!

The Golden Notebook é um livro de uma época construído de forma introspetiva - talvez seja esta a melhor forma de o caracterizar. É uma leitura interessante, não a minha obra preferida, há um certo desfasamento cultural e político que o tornam num excelente retrato de uma época, mas não numa obra intemporal. Esta é a história de Anna Wulf, uma mulher londrina nos anos 60 (reflexo das incertezas, convulsões e mudanças vividas nos anos sessenta nos aspetos sociais e políticos) que, no meio de desilusões e contradições, procura encontrar o fio condutor da sua identidade - abordando temas como a luta de classes, a discriminação racial nas colónias britânicas em África, a desilusão com o Partido Comunista, as contradições entre ser uma mulher "livre" e uma mulher "apaixonada". 

The Golden Notebook assume uma narrativa desestruturada, fragmentada e compartimentada. Existe um enredo condutor (Free Women), a partir do qual todos os outros derivam, ainda que muitas vezes se assumam autónomos.

Fragmentação é a chave mestra deste romance de Doris Lessing. No decurso da história reconhecemos, em todos os aspetos da vida de Anna, uma fratura - seja na sua saúde mental, seja no desmoronar de um ideal comunista, seja nas relações pessoais e sexuais. Numa tentativa de se autocompreender, Anna coloca a escrito as suas várias dimensões pessoais, mas não o faz de forma una - opta por se compartimentar, por fragmentar a sua existência em quatro cadernos distintos, na esperança vã de, por via da divisão da sua existência, das suas desilusões, incongruências e desespero, conseguir organizar a confusão do seu ser e alcançar a plenitude (ou felicidade?). 

Cada caderno, cada fragmento, corresponde a um aspeto diferente da vida da personagem: o caderno preto, a sua escrita e a condição de escritora e as suas memórias da Rodésia do sul; o caderno vermelho, as suas opiniões e desilusões políticas com o partido comunista; o caderno amarelo, a sua vida emocional e amorosa; e o caderno azul, o seu dia-a-dia. 

O caderno dourado (golden notebook) propriamente dito, surge no final, como o resultado de uma evolução, de um crescimento pessoal, o aglutinador de todos os compartimentos da vida de Anna, servindo como pináculo do (re)encontro de uma mulher com a sua identidade e, poderei dizer, da sua libertação.  

É curioso notar como The Golden Notebook foi utilizado no movimento feminista de então e de como Lessing se esforçou por se distanciar do mesmo. O prefácio que ela própria faz ao seu livro, dez anos após a publicação, é inequívoco - Doris Lessing apela a que não se resuma a história de The Golden Notebook a uma "guerra de sexos". The Golden Notebook é mais do que isso, sem dúvida que sim. É o retrato de uma mulher numa dada época e a sua busca por uma identidade - uma identidade com várias dimensões, profundamente adversa, complexa e intrincada, como todas as pessoas, verdadeiramente; e o retrato de uma sociedade que se desintegra e que se encontra em profunda convulsão política e social em busca de um mundo melhor. 

Em muitos momentos, foi uma leitura cativante e de tal forma estimulante que era impossível arrancar-me das páginas. Porém, não foi uma experiência constante, algumas passagens são bastante morosas, nessas alturas o livro pareceu-me excessivamente extenso. No final, contudo, é uma leitura gratificante, há um final resolvido e pleno e as reflexões a que este livro obriga são inestimáveis. 

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A Invenção da Natureza (2015), Andrea Wulf

Não Ficção - Biografia - Ciência - História

08.06.20 | Margarida M.

Este livro não só é uma excelente biografia do fantástico Alexander Von Humboldt, como também é um livro que retrata o pensamento deste naturalista e aventureiro. Alexander poderá até ser considerado um visionário e profeta, pelos argumentos e pensamentos que exprimia, relativamente às ações humanas no meio ambiente (que irei referir mais adiante).

Citando o New York Review of Books (2015) esta é “Uma biografia espantosa. (…) Humboldt pode ter sido esquecido, mas as suas ideias nunca estiveram tão vivas”. O próprio título refere Humboldt como “o herói esquecido da ciência”, o que de facto é verdade, não me lembro de uma vez ter visto o seu nome nos livros escolares de história, é por isso que acho importante a recomendação deste livro, é maravilhoso ler sobre todos os seus feitos e aventuras.

O livro começa por abordar a infância e o crescimento de Humboldt. Nascido a 14 de setembro de 1769 no Reino da Prússia, era o irmão mais novo de Wilhelm Von Humboldt. O seu pai era militar e a sua mãe descendente de uma família endinheirada. Desde o início o estatuto de Alexander prometia um futuro com várias portas abertas, começando pela facilidade de adquirir estudos. O seu pai incentivou nos dois filhos uma educação com base nas ideias do iluminismo, “(…) que lhes instilaram o amor pela verdade, pela liberdade e pelo conhecimento.” (Wulf, A. 2015). Retrata ainda a sua vida em jovem antes de ter embarcado na viagem que mudaria a sua vida. Era amigo chegado de Johann Wolfgang “Goethe” um famoso escritor alemão autor de obras como “Fausto”, no entanto para surpresa de muitos era também um aficionado da natureza algo que tinha em comum com Humboldt. Os dois discutiam métodos e técnicas de observação de plantas, flores, animais e outros temas durante horas e horas.

O livro torna-se entusiasmante, quando Alexander embarca numa expedição à América do Sul onde permaneceria por 5 anos, subindo montanhas, andando por florestas tropicais e até se aventurou por rios bravos. Juntou milhares de exemplares de plantas, das quais grande parte não eram conhecidas na Europa. Durante esta temporada nas Américas, Humboldt fez alusão às condições dos escravos e condenou esta ação, apoiando que os povos se revoltassem pela sua liberdade. Teve ainda contacto com Simón Bolívar (militar e líder político), que uns anos mais tarde viria a lutar pela independência das nações sul americanas. Foi ainda durante a sua expedição que desenvolveu o que viria a chamar de “Naturgemälde” – uma pintura da natureza onde são incorporados dados sobre os mais variados elementos. Alexander usou esta técnica quando pintou a montanha do Chimborazo no atual Equador, onde colocou em colunas laterais informação sobre a altitude, latitude, estado da atmosfera entre outros elementos e ainda as várias plantas que podiam ser encontrados nos vários “patamares” da montanha. Alexander Von Humboldt foi a primeira pessoa a falar publicamente sobre a relação entre o homem e a natureza e os efeitos das ações antrópicas no ambiente e atmosfera, fazendo referência ao que hoje tratamos por “alterações climáticas” e a necessidade de alcançar a sustentabilidade enquanto sociedade. Hoje mais do que nunca os argumentos de Humboldt são valorizados.

Após regressar da expedição de 5 anos, Humboldt continuou os seus estudos, dava palestras em diversas universidades, incluindo a universidade de Berlim fundada pelo seu irmão Wilhelm, e tornou-se ainda membro da corte real. No seu regresso, Humboldt apercebeu-se também da sua influência, era agora adorado por todos e conhecido por toda a “gente importante” e mantinha contactos com pessoas como Thomas Jefferson.

O livro conta ainda com várias personalidades do mundo da ciência que foram inspiradas por Humboldt. A que talvez se destaque mais é Charles Darwin, autor da influente obra “A Origem das Espécies”. Em jovem era um grande aficionado de Humboldt, tinha todos os exemplares das suas obras. A vontade e o interesse em estudar a evolução das espécies, teve início quando estudava as teorias de Alexander querendo ir mais longe, dando continuidade a alguns dos seus estudos.

É de salientar que Alexander viveu grande parte da sua vida no limiar da pobreza pois gastava o que ganhava a ajudar outros jovens cientistas, que queriam viajar e estudar o mundo tal como Humboldt fez desde jovem.

Poderia continuar a escrever muito mais sobre este magnífico naturalista, no entanto acho que esta pequena avaliação pessoal é suficiente para demonstrar que este “herói” não deve ser esquecido, mas sim celebrado! Antes demais quero apenas referir o bom trabalho da escritora deste livro – Andrea Wulf – por ter conseguido trazer a todos os leitores a história de Alexander Von Humboldt. Este livro engloba todo o conhecimento necessário adquirir para aqueles que gostem de ciência, mas também para aqueles que gostem de ler sobre personalidades cuja história vale a pena ser contada, lida neste caso! 😉

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