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Queirosiana

Blogue sobre livros, leituras, escritores e opiniões

5 mulheres escritoras para (re)descobrir a literatura italiana

#7 Baú dos Livros

30.08.20 | L.F. Madeira

Fortemente influenciada pelo efeito Ferrante, quis explorar um pouco da literatura italiana, da qual, até à data, apenas li Moravia, Ferrante e alguns clássicos como Boccaccio e Maquiavel. Nessa pesquisa, verifiquei que nas listas dos escritores mais famosos de Itália não me apareciam nomes femininos e acabei por encontrar este artigo brilhante de Jeanne Bonner - Where Are the Great Italian Women Writers? - que me fez recordar muitas vezes o ensaio de Woolf A Room of One's One, no qual ela ficciona uma visita à biblioteca onde encontra poucas prateleiras com autoras, mulheres escritoras. 

Assim, o resultado destes devaneios internáuticos foi esta singela lista de cinco mulheres escritoras italianas cujas obras me suscitaram maior interesse. Por coincidência, as cinco escolhidas têm todas obras traduzidas em português. Deixei ainda algumas menções honrosas porque custa-me sempre desperdiçar sugestões que também considerei interessantes. 

 

Goliarda Sapienza

A escritora e actriz italiana Goliarda Sapienza nasceu na Sicília, em 1924, filha de pai advogado e sindicalista e de mãe militante, próxima do filósofo António Gramsci. Aos 16 anos vai para Roma, onde estuda teatro, interpreta obras de Pirandello e funda a sua própria companhia. Vive ali, talentosa e inquieta, nos meios intelectuais e artísticos até à sua morte, em 1996. A Arte da Alegria (1994) foi o seu quinto e último romance, recebendo fortes críticas e rejeitado por muitos. As razões pelas quais o romance foi condenado não têm que ver, pois, com o seu mérito literário, mas por ser uma obra "ideológica", marcada pelas convicções da autora, bem como pela vida destemperada de Modesta, a sua personagem principal e o fio condutor de toda a narrativa. Ambas, a autora e a sua criação, desafiam, sem falso pudor, o estereótipo da mulher submissa, respeitável e de bons costumes. A tradução portuguesa, A Arte da Alegria, publicado pela D. Quixote, encontra-se esgotadíssima, infelizmente.

 

Elsa Morante

Elsa Morante nasceu em Roma, em 1912, cidade onde morreu em 1985. Decidiu dedicar-se à literatura ainda muito jovem, com cerca de 18 anos. Casou com o escritor Alberto Moravia em 1941e conheceu muitos dos pensadores e escritores italianos da época. Durante a guerra, acompanhou o marido no exílio. Elsa Morante foi uma mulher que nunca aceitou ter nascido num mundo onde o amor é efémero e a indiferença ou o ódio habituais. A miúda selvagem nascida num bairro pobre de Roma, a viajante, a enamorada, a angustiada companheira de Moravia, que sonhava com o sol das ilhas napolitanas e as cores da agreste Prócida, percorreu vários continentes, passou por Portugal e viveu as duas últimas guerras mundiais, partilhando a maior parte dos sofrimentos e esperanças do século xx.

Traduzido para português encontramos A História e A Ilha de ArturoA Ilha de Arturo é, conjuntamente com A História, um dos mais importantes romances de Elsa Morante. Na ilha mediterrânica da Prócida, assistimos à formação de Arturo, que sente uma apaixonada admiração por um pai sempre ocupado em misteriosas viagens. Já adolescente, é atraído pela sua jovem madrasta, Nunziatella. A passagem de um tempo de sonhos e ilusões para a realidade será um caminho lento e difícil para Arturo.

 

Margaret Mazzantini

Margaret Mazzantini nasceu em Dublin em 1961, filha de uma artista plástica irlandesa e de um escritor italiano. Foi actriz de cinema, televisão e teatro mas é sobretudo reconhecida pela sua obra literária. Venceu o prémio Strega com Não te Mexas. Mazzantini é uma das escritoras italianas mais brilhantes, retratando de forma nítida e fiel a sociedade italiana contemporânea.

Traduzido para português apenas encontramos um dos seus romances mais famosos, Não te Mexas (2001), uma história de amor trágica e não oficial entre um homem casado de classe média e uma mulher com uma vida problemática. Este romance não tem espaço para situações ou conceitos estereotipados. A narrativa leva-nos através do espectro infinito das emoções humanas.

 

Natalia Ginzburg

Natalia Ginzburg foi uma escritora e tradutora italiana. Natalia nasceu na capital da Sicília, em 1916, ainda que sua família tenha mudado diversas vezes de cidade durante a sua infância e adolescência. Com a ascensão do movimento de extrema direita na Itália, a família juntou-se à luta antifascista. Ginzburg foi Ativista na década de 1930 e pertenceu ao Partido Comunista Italiano. Em 1983, foi eleita para o Parlamento Italiano como independente. Morreu em 1991. Léxico Familiar (1963) é o principal livro de Natalia Ginzburg e um clássico da literatura italiana contemporânea. A narrativa acompanha a vida dos Levi, que viveram em Turim entre 1930 e 1950, período em que se assiste à ascensão do fascismo, à Segunda Guerra Mundial e aos acontecimentos que se lhe seguiram. Natalia, uma das filhas do professor Levi, foi testemunha dos momentos íntimos da família e dessa conversa entre pais e irmãos que se converteu num idioma secreto. Nesta narrativa de pendor autobiográfico os acontecimentos quotidianos misturam-se com reflexões que mantêm toda a atualidade. O livro venceu em 1963 o Prémio Strega.

 

Elena Varvello 

Elena Varvello nasceu em Turim, em 1971. Publicou vários livros de poesia e os seus contos valeram-lhe os prémios Settembrini e Bagutta para primeira obra. Foi também selecionada para o prémio Strega. Em 2011 publicou o seu primeiro romance.

Traduzido para português encontramos o seu romance A Vida Feliz (2016) é, nas palavras da Sofia Morais, a "reflexão de um filho sobre o pai, sobre si mesmo e sobre a relação de ambos. E a perspectiva de um adolescente da vida sobre a amizade, a sexualidade, a família e o futuro. A sua integração sem interrogações na vida de estudante e na sociedade". O Público considerou A Vida Feliz um "Diário impiedoso em tom de thriller, mas que ao mesmo tempo pode ser lido como romance de formação, e como um exercício de materialização dos fantasmas do passado".

 

Menções honrosas: Eva Sleeps de Francesca Melandri; A Filha Devolvida de Donatella Di Pietrantonio; Café Amargo de Simonetta Agnello Hornby e; 70% Acrílico 30% Lã de Viola di Grado. 

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5 Livros de escritores e escritoras da América do Sul

#6 Baú dos Livros

28.08.20 | L.F. Madeira

Em razão de uma dúvida sobre o número exato de países soberanos no mundo e encontrada a resposta no site da ONU (193 países independentes), acabei por derivar numa navegação sem rumo e dei por mim a procurar um mapa com os livros mais famosos de cada país, e mais tarde terminei embevecida ante estas duas listas literárias - esta e esta

Por momentos, pensei em criar a minha própria lista de títulos por país, mas rapidamente desisti do descomunal empreendimento. Ainda assim, e para combater a minha tendência anglófona e europeia, bem como para equilibrar este enviesamento das minhas escolhas literárias, vou criar uma série de Baú dos Livros com sugestões fundadas em continentes. 

Neste caso, começo com uma lista de cinco sugestões de escritores e escritoras do continente sul-americano. Informa a Wikipedia que a América do Sul é constituída por 12 países independentes e 3 territórios ultramarinos. Destes doze e para fazer jus à prática dos cinco títulos do Baú, escolhi os seguintes países - Suriname, Colômbia, Argentina, Peru e Uruguai.

Os critérios de escolha foram subjetivos e sempre que tive dificuldade em decidir, optei por mencionar as alternativas. Tentei, contudo, escolher obras que retratassem o país em função do qual foram escolhidas (tendo, portanto, evitado obras fantásticas, próprias do boom Latino-Americanos, sem local real de ação). 

 

The Free Negress Elisabeth (2000), Cynthia Mcleod

De vrije negerin Elisabeth (título original em Holandês)

Ficção - Romance Histórico

Cynthia Mcleod (1936 -) é uma escritora Surinamesa conhecida pela sua ficção histórica e o principal nome da literatura do Suriname. Ambientado no século XVIII na Guiana Holandesa, atual Suriname, este romance conta a história de Elisabeth Samson, uma mulher negra livre. Esta é uma ficção histórica de caráter biográfico que retrata as complexas estratificações sociais e raciais, características das colónias e da escravatura na época, bem como esta mulher notável que superou a discriminação institucionalizada e o preconceito para se tornar uma das pessoas mais ricas da antiga Guiana Holandesa. 

* Alternativa: The Cost of Sugar, Cynthia Mcleod

 

Delírio (2004), Laura Restrepo 

Delirio (título original em Castelhano)

Ficção - Romance 

Laura Restrepo (1950 -) é aclamada como uma das melhores escritoras sul-americanas contemporâneas, tendo rejeitado o chamado realismo mágico. Delírio, com a capital da Colômbia - Bogotá - como cenário, conta-nos a história de um homem que, após uma curta viagem de negócios, regressa a casa e descobre que a sua mulher enlouqueceu. Com uma narrativa de suspense e um enredo bem construído, acompanhamos o esforço deste homem que inicia uma busca pelo passado numa tentativa de recuperar a sanidade da mulher. Delírio retrata a violência latente na sociedade colombiana dos anos 80, a marginalidade e a instabilidade social e política da época.

* Alternativas: The Divine Boys, Laura Restrepo | The Armies, Evelio Rosero

 

O Túnel (1948), Ernesto Sabato 

El Tunel (título original em Castelhano)

Ficção - Romance 

Ernesto Sabato (1911 - 2011) é um dos maiores nomes da literatura argentina do século XX. O Túnel, cujo enredo ocorre em Buenos Aires, na Argentina, é um romance psicológico e sombrio que conta a história de um pintor e da sua obsessão por uma mulher e a solidão do indivíduo contemporâneo. Integra o rótulo de "literatura existencial", à semelhança de autores como Albert Camus ou Sartre. Para quem ainda não leu, O Túnel é a melhor introdução ao universo prodigioso de Ernesto Sábato

* Alternativas: A Invenção de Morel, Adolfo Bioy Casares | Ficções, Jorge Luis Borges | Rayuela, Julio Cortázar

 

Lituma nos Andes (1993), Mario Vargas Llosa 

Lituma en los Andes (título original em Castelhano)

Ficção - Romance 

Mario Vargas Llosa (1936 -) é o grande nome da literatura peruana, galardoado em 2010 com o Nobel da Literatura. Lituma dos Andes retrata os anos 80 das comunidades peruanas reféns da organização paramilitar de esquerda. Lituma nos Andes é um romance policial fascinante e uma alegoria política perspicaz. O enredo desenvolve-se numa comunidade isolada nos Andes peruanos onde ocorrem uma série de desaparecimentos misteriosos e o cabo Lituma e Tomás iniciam uma investigação. Este romance fascinante está repleto de personagens inesquecíveis, entre eles índios marginalizados, gente local excêntrica, tornando Lituma nos Andes uma obra ímpar no percurso literário de Mario Vargas Llosa, mas também uma das suas mais ferozes críticas à violência estrutural que afectou o Peru durante tantas décadas. 

* Alternativas: Yawar Fiesta, José María Arguedas

 

A Vida Breve (1950), Juan Carlos Onetti 

La Vida Breve (título original em Castelhano)

Ficção - Romance 

Juan Carlos Onetti (1909 - 1994) foi considerado não só o escritor mais importante da literatura do Uruguai, mas um dos maiores criadores de ficção em língua espanhola do século XX. O enredo toma lugar entre Buenos Aires e a ficcionada cidade de Santa Maria (um misto de Montevideu e Buenos Aires) e conta a história de um marido que cuida da mulher após uma longa doença. A dicotomia entre a identidade e a ausência de identidade, a recorrente preocupação com o papel desempenhado pelo destino na vida do ser humano e o mundo onírico como impulso, atingem em A Vida Breve um elevado grau de intensidade.

* Alternativas: The Ship of Fools, Cristina Peri Rossi | A Trégua, Mario Benedetti | Espelhos, Eduardo Galeano

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5 Livros de não-ficção das áreas da filosofia e política escritos por mulheres

#5 Baú dos Livros

25.08.20 | L.F. Madeira

O espaço público nas sociedade ocidentais é hoje aberto às mulheres como nunca antes na História. Há ainda dimensões de desigualdades que importa e urge combater, mas não é esse o tema aqui. Hoje quero apresentar cinco mulheres que, em momentos históricos diferentes, mais ou menos adversos para as mulheres no espaço académico ou político, se distinguiram dos seus pares debruçando-se sobre matérias filosóficas, sociais, económicas e políticas, tornando-se num marco na História da Humanidade.
 
As minhas cinco sugestões de obras de não ficção escritas por mullheres no século XX são resultado de um exercício pessoal, reflexo da minha curiosidade, dos meus interesses e afinidades políticas e ideológicas. Procurei igualmente propor títulos que não tivessem ligação imediata ao feminismo pois, para o efeito, irei criar um Baú dos Livros específico. 
 
Embora existam edições antigas traduzidas para português para quase todas as obras indicadas, encontramos poucas (ou nenhumas) edições recentes no mercado. Havendo pouca sorte nos alfarrabistas o recurso será, no meu caso, a leitura em inglês. 
 
 
A Condição Humana (1958), Hannah Arendt 
Não-Ficção - Política - História
 
A Condição Humana, livro central do pensamento de Hannah Arendt (1906-1975), afirma-se, nos primeiros capítulos, como uma crítica da modernidade, a partir da reflexão sobre ‘o que andamos a fazer’, e da discussão sistemática ‘do labor, do trabalho e da acção’, actividades que constituem traços essenciais da perenidade da condição humana. Arendt aponta para a recuperação de um mundo comum, a ágora, como espaço público do debate e do confronto entre iguais, pela reabilitação da política, a única resistência possível contra a alienação do mundo moderno, e, por inerência, do discurso, ‘pois é o discurso que faz do homem um ser político’.
 
Por uma Moral da Ambiguidade (1947), Simone de Beauvoir 
Não-Ficção - Filosofia 
 
Simone de Beauvoir (1908-1986), romancista, dramaturga e filósofa, foi a escritora mais ilustre da França moderna. Uma das principais expoentes do existencialismo francês. Em The Ethics of Ambiguity, Beauvoir penetra imediatamente nos problemas éticos centrais da condição da pessoa moderna: o que fará e como fará para construir valores, em face dessa consciência do absurdo da sua existência? Beauvoir obriga o leitor a enfrentar o absurdo da condição humana e, ao fazê-lo, passa a desenvolver uma dialética da ambiguidade que lhe permitirá não dominar o caos, mas criar com ele. 
 
A Origem do Capitalismo (1999), Ellen Meiksins Wood 
Não-Ficção - História - Economia
 
Neste livro original e provocativo, Ellen Meiksins Wood (1942-2016) lembra-nos que o capitalismo não é uma consequência natural e inevitável da natureza humana, nem é simplesmente uma extensão de práticas antigas de comércio. Em vez disso, é um produto tardio e localizado de condições históricas muito específicas, que exigiram grandes transformações nas relações sociais e na interação humana com a natureza. A autora discorre sobre imperialismo, história anti-eurocêntrica, capitalismo e o estado-nação e as diferenças entre capitalismo e comércio não capitalista. Traça ainda ligações entre a origem do capitalismo e as condições contemporâneas, como a globalização, a degradação ecológica e a atual crise agrícola. 
 
The Virtue of Selfishness (1964), Ayn Rand 
Não-Ficção - Filosofia
 
Ayn Rand (1905-1982) expõe nesta obra os princípios morais do Objetivismo, a filosofia que considera a vida humana - a vida própria de um ser racional - como o padrão de valores morais e considera o altruísmo como incompatível com a natureza do homem, com os requisitos criativos da sua sobrevivência, e com uma sociedade livre.
 
A Acumulação do Capital (1913), Rosa Luxemburg 
Não-Ficção - Economia
 
Rosa Luxemburgo (1871-1919) foi uma socialista revolucionária que lutou e morreu pelos seus ideais. Em janeiro de 1919, depois de ser presa por envolvimento numa revolta de trabalhadores em Berlim, foi brutalmente assassinada por um grupo de soldados de direita. O seu corpo foi recuperado num canal dias depois. Seis anos antes, ela tinha publicado o que foi, sem dúvida, a sua obra mais conhecida, The Accumulation of Capital - um livro que continua a ser uma das obras-primas da literatura socialista. Tomando Marx como ponto de partida, Luxemburg oferece uma explicação independente e de crítica feroz sobre as consequências económicas e políticas do capitalismo no contexto dos tempos turbulentos em que viveu, reinterpretando eventos nos Estados Unidos, Europa, China, Rússia e Império Britânico. Muitos hoje acreditam que não há alternativa ao capitalismo global. Este livro é uma declaração oportuna e vigorosa de uma visão oposta.
 

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Longe da Multidão (1874), Thomas Hardy

Ficção - Romance - Clássicos

17.08.20 | L.F. Madeira

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Encantador, pura e simplesmente encantador. Esta tradução então, está magnificamente bem conseguida. Qualquer leitora ou leitor gosta de histórias bem contadas e esta pertence sem dúvida ao rol! Nunca tinha lido Thomas Hardy, embora já fosse espectadora atenta das adaptações de algumas das suas obras (não desta), mas depois de uma ténue e cativante referência feita pela minha orientadora, decidi trazê-lo para cima da mesinha de cabeceira. 

Bathsheba Everdene, herdeira de uma propriedade rural, detentora de um caráter singular e de uma rara beleza, é a personagem crucial deste romance, lado a lado com Gabriel Oak. Ao longo da história, de grande profundeza emocional e humana, vamos acompanhando os avanços e recuos da vida de Bathsheba e dos seus amores impulsivos e distraídos, seja com o Sargento Troy ou Mr. Boldwood (que exasperante este último!). 

Thomas Hardy é conhecido pela sua escrita poderosa e trágica. Em Longe da Multidão as descrições dos espaços e natureza são tão sensíveis e sensitivas que é um deleite ler parágrafo atrás de parágrafo. A escrita de Hardy é sedutora em todos os graus. A descrição do bucólico, do rural, da natureza é magistral. A cena da tempestade e trovoada, inolvidável! Bem como a da tragédia inicial das ovelhas de Oak, ovelhas essas que retornam como objeto de um delicioso jogo de sentimentos entre Oak e Bathsheba.  

Bathsheba Everdene é uma fascinante personagem feminina, mistura o desvario íntegro de uma Karenina e a independência obstinada de uma Margaret Hale. Numa passagem do livro, Bathsheba declara ser difícil para uma mulher definir os seus sentimentos numa linguagem que é, essencialmente, feita para os homens expressarem os seus; não obstante, Hardy com os seus olhos e mãos masculinas foi brilhante na construção desta personagem feminina, colocando-a numa contra corrente, num exercício de constante desafio num universo enraizadamente patriarcal.  

Gabriel Oak é outro encanto. Se queremos falar de constância, dedicação e sacrifício, falemos de Gabriel Oak. No início do livro, Thomas Hardy não se isenta de criar um certo ambiente ridículo e inusitado em torno de Oak, a descrição do seu relógio de bolso é impagável! Mas, simultaneamente, coloca-o em constante provação sem nunca lhe retirar a virtude e dignidade.

Hardy explora o ridículo de forma magistral e rouba à leitora e leitor algumas gargalhadas, mas no segundo seguinte, cativa-nos com contornos trágicos e aterradores porque nunca lhes furta a beleza humana - recordo aqui a passagem em que Fanny Robin percorre um par de milhas a pé, num esforço sobre humano, com a ajuda de amigo de quatro patas, mas com um ímpeto que dilacera o coração da leitora ou leitor mais impenetrável; também a cena da abertura do caixão em casa de Bathsheba é sufocante de sentimentos que torcem e retorcem a razão e emoção humana.

Julguei que o final deste romance fosse imensamente mais trágico, a todo o momento esperava algo de estilo shakespeariano, uma morte de uma falésia abaixo numa repetição humana do desvario das ovelhas encaminhadas inadvertidamente para o precipício, mas tal não aconteceu. Pelo contrário, o final foi o equivalente a um abraço caloroso de um amigo a quem já não se via há muito tempo. Que construção de enredo virtuoso! Leiam logo que tenham oportunidade, deste lado colocarei no colo Tess dos D'Urbervilles assim que surja uma nesga de tempo extra das leituras que já planeei para este ano. 

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The Voyage Out (1915), Virginia Woolf

Ficção - Romance - Clássicos

14.08.20 | L.F. Madeira

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O primeiro romance de Virginia Woolf, The Voyage Out, ou em português A Viagem, é exatamente isso, o início de um percurso de uma das maiores escritoras da literatura moderna ocidental. Neste romance de estreia, ainda não encontramos o estilo vincado da escrita de Woolf, as suas famosas correntes de pensamento, mas aqui Woolf rompe, claramente, com os ditames do romance do século XIX e revela a travessia que se inicia nos romances escritos por ela, à sua imagem. Confesso que nos primeiros capítulos senti que lia Jane Austen até encontrar um beijo inusitado numa das páginas iniciais e descobrir, a partir daí, um outro estilo de escrita e uma outra liberdade. 

Em The Voyage Out temos duas personagens femininas de relevo, Rachel Vinrace e Helen Ambrose, sobrinha e tia. O rumo do enredo leva-nos também a conhecer uma das futuras, principais e mais marcantes personagens de Woolf, Clarissa Dalloway, que se cruza com Rachel no decurso da viagem - mas não só, em The Voyage Out, tive vislumbres de A Room of One's Own, The Waves e mesmo da nota de suicídio de Woolf deixada ao seu marido, não digo que exista algo de premonitório neste romance, mas certamente que ele representa já um conjunto de ideias comuns à literatura woolfiniana. 

Rachel Vinrace é uma mulher de 24 anos de idade que, deixada aos cuidados de duas tias no recato de uma região interior de Inglaterra, cresce sem uma cuidada educação formal, mas brilhante nas artes da música, ainda que pouco habituada às formalidades e subtilezas do convívio social. Assim, aos 24 anos embarca numa viagem de barco para a América do Sul, com o pai e tios, viagem essa onde se irá conhecer e descobrir. The Voyage Out está populado de uma lista enorme de personagens,  hóspedes do hotel em Santa Marina, por vezes difícil de acompanhar, tornando a leitura confusa, sobretudo quando lido na língua original. Nesta viagem tive também o espanto e a surpresa de me ver transportada para a costa marítima do Tejo em Portugal, na qual a nossa personagem aporta circunstancialmente. Não deixou de ser interessante encontrar Lisboa num romance de Woolf. 

The Voyage Out conta-nos uma história de amor, mas conta-nos, em simultâneo, como duas existências, compatíveis nos desejos e pensamentos, podem amar-se sem perder identidade, sem se submeter. O amor entre Rachel e o seu companheiro é invejável pela tranquilidade e suficiência, ainda que sejamos todos meros retalhos de luz num mundo feito de sólidos blocos de matéria (roubando o pensamento de Woolf).

É o silêncio, as palavras que não chegam ou que se escondem e não se dizem alto, é no fundo, ainda que residual, a existência independente e autónoma, pessoalíssima e intransponível do outro que, por muito amor que exista, não é alcançável, e permanece sempre um mistério para a contraparte e um último reduto de liberdade para o outro. Uma existência só nossa, profundamente íntima, que não tem partilha possível e que só existe em nós e connosco. E amar outrem é também amar o desconhecido e a falibilidade do outro, ou melhor, amá-lo independentemente disso. Não sei se foi isto que Woolf quis contar neste romance, mas sem dúvida foi o que retive. 

Ainda que sem adotar qualquer discurso radical, The Voyage Out é uma história de emancipação feminina, em muitos momentos, nas palavras e pensamentos de Rachel, mas ainda mais de Helen, senti intemporalidade, aquelas duas mulheres, com outros adereços, certamente, podiam perfeitamente encarnar o nosso século XXI.

Curioso como o título do livro, The Voyage Out, parece trazer implícita uma expansão, uma aventura e descoberta exógena. Muitas vezes perguntei se, The Voyage In não seria mais apropriado, num uso talvez impróprio e não nativo das palavras, no sentido de que, esta é a história de uma viagem interior profunda - com e sem retorno. 

Não sei como seria se tivesse sido este o meu livro de introdução à escrita de Woolf,  mas creio que teria sido uma boa escolha e um bom conselho. 

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Sultana's Dream (1905), Rokeya Sakhawat Hossain

Ficção Científica - Contos - Distopia/Utopia - Feminismo

01.08.20 | L.F. Madeira

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Uma pequena história em torno de uma utopia de base matriarcal escrita por uma mulher muçulmana nos primeiros anos do século XX numa Índia de profundas desigualdades. E a grande surpresa foi para mim essa, em face do contexto temporal, histórico, religioso e pessoal da autora, a criação de um conto tão ousado. 

Claro que podemos questionar por que razão a ficção científica envolvendo utopias matriarcais tende a criá-las livres de vícios  e crime como uma quase consequência da natureza feminina. Mas talvez se justifique antes por se apresentar a idealização de um mundo melhor, de uma sociedade mais organizada e equilibrada. 

Mas o cerne desta pequena história é confrontar a leitora de então (e a atual, talvez) com uma realidade alternativa em oposição direta àquela em que vive - se a sua realidade é a da segregação das mulheres, da sua limitação de ação e existência no espaço público, da sua inferiorizarão e crença constante na(s) sua(s) incapacidade(s), então Hossain cria um novo mundo em que é sobre os homens que pende a discriminação e preconceito, com a diferença de que tal se justifica porque os homens tiveram o poder e não o souberam utilizar. 

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