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Queirosiana

Blogue sobre livros, leituras, escritores e opiniões

Night and Day (1919), Virginia Woolf

Ficção - Romance - Clássicos

13.08.21 | L.F. Madeira

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Ora aqui está um romance de Virginia Woolf que ficou aquém, pelo menos para mim. Não em termos de escrita, Woolf é uma verdadeira mestre das palavras e sensações, mas em termos de enredo, terminei o livro com uma sensação agridoce e de incompletude.

Night and Day (Noite e Dia) foi o segundo romance da escritora e gira em torno das contradições do mundo ou da nossa existência: aquilo que somos e o que demonstramos ser; aquilo que dizemos e o que silenciamos; aquilo que fazemos e aquilo com que sonhamos. Este romance é tanto uma história de amor quanto uma comédia social, minando subtilmente tradições e maneirismos, questionando o papel da mulher e a própria natureza da experiência.

Em Night and Day (1919), tal como em The Voyage Out (1915), a estrutura narrativa é ainda a convencional e nada semelhante às obras mais tardias da autora. Mas, confesso, em muitos momentos, a leitura tornou-se morosa e a entrada e saída de personagens em muito se assemelhava a uma peça de teatro, como se entrassem, declamassem as suas deixas e saissem de cena. Night and Day, por vezes, "cheira" a Mrs. Dalloway (1925), quando pensamos nos pequenos eventos do nosso dia a dia, quase indiferentes, mas que constroem a teia das nossas vidas. 

A obra gira em torno de três personagens, Katherine, Ralph e Mary.

Katherine Hilbery é uma jovem mulher, bonita, privilegiada, que gosta de estudar matemática (alguns estudiosos acreditam que é inspirada na irmã de Virginia, Cassandra), mas não tem certeza do seu futuro. No decurso de romance, Katherine é colocada perante várias escolhas, ficar noiva do poeta estranhamente prosaico, William Rodney, ou deixar-se levar pela sua atração por Ralph Denham. Enquanto Katherine trava esta luta interior, a qual o leitor acompanha de perto em todos os seus pensamentos e contradições, a vida da ativista dos direitos das mulheres, Mary Datchet, afeta a vida de Katherine de forma inesperada e com intrigantes consequências. 

Infelizmente, explora muito pouco a personagem de Mary Datchet, a mulher independente e emancipada da época Vitoriana, provavelmente aquela com maior potencial. Em muitos aspetos, gostava que o foco do romance fosse Mary e não Katherine. Ainda assim, com Mary, o romance aborda inúmeras questões como o trabalho feminino, a desigualdade salarial entre mulheres e homens, a luta pelo sufrágio universal. 

Já com Katherine e Ralph, o leitor é envolvido em sonhos e realidade. Questionando o que é o amor, em que medida amamos o real e não a imagem que criamos do outro - confesso que este debate, que permance sem resposta ao longo de vários capítulos é muito interessante.

Longe de estar na lista de favoritos, Night and Day é Woolf e, portanto, vale sempre a pena, nem que seja pela deliciosa linguagem escrita que nos proporciona, ou a capacidade de nos fazer olhar para dentro sem filtros.

5 livros escritos por mulheres laureadas com o Prémio Nobel da Literatura (Parte II)

#10 Baú dos Livros

13.08.21 | L.F. Madeira

Numa continuação deste post, segue agora a segunda parte. 

Nelly Sachs - Nobel da Literatura 1966 - Alemanha

Glowing Enigmas (1966)

Em 1966, o Prémio Nobel da Literatura é atribuído a dois autores, Nelly Sachs e Shmuel Yosef Agnon. Praticamente um quarto de século havia passado desde a última atribuição de um Nobel da Literatura a uma mulher. Nelly Sachs nasceu em Berlim, em 1891, no seio de uma família rica de raízes judias. Nelly Sachs Ela ficou fascinada com as obras de Selma Lagerlöf desde jovem, e correspondeu-se com ela por carta. Foi Selma Lagerlöf quem ajudou Nelly Sachs e sua mãe a fugir da Alemanha nazi para a Suécia em 1940, onde permaneceu até à sua morte (obtendo a cidadania Sueca também). O destino do povo judeu e o Holocausto é a base para as obras literárias de Nelly Sachs, sobretudo, poesia. O prémio é-lhe atribuído em 1966, "pela sua notável escrita lírica e dramática, que interpreta o destino de Israel com uma força comovente”

Não encontrei qualquer obra traduzida da escritora para Português. O título que proponho, não li, Glowing Enigmas é amplamente considerada como a melhor realização poética da autora e uma das obras poéticas essenciais da Europa do pós-guerra. 

 

Nadine Gordimer - Nobel da Literatura 1991 - África do Sul

A Gente de July (1981)

Escritora sul-africana, Nadine Gordimer nasceu a 20 de Novembro de 1923 em Springs, uma cidade mineira dos arredores de Joanesburgo. Nadine começou a escrever aos nove anos e tinha apenas 15 anos quando seu primeiro trabalho foi publicado. O romance intitulado The Conservationist (1974). Gordimer esteve envolvida no movimento anti-apartheid desde o início e vários dos seus livros foram proibidos pelo regime do apartheid. É galadoarda com o Nobel da literatura em 1991 "porque através de sua magnífica escrita épica - nas palavras de Alfred Nobel - representou um grande benefício para a humanidade”

O livro que proponho, A Gente de July (1981) retrata a história da família Smales, que - ao ver-se atingida por uma desordem social de grandes proporções - só tem como solução fugir da cidade dominada pelo homem branco e abrigar-se na aldeia natal do seu criado negro – July. A tensão entre a gente negra da aldeia versus família Smales nunca se dilui, mas, pelo contrário, agrava-se até a um ponto de quase ruptura, até ao ponto de desejarem abandonar a aldeia, embora não tendo sítio para onde ir. Estão presos a esta aldeia sofrendo uma dupla pressão: a dos habitantes e a da sua própria consciência.

 

Toni Morrison - Nobel da Literatura 1993 - EUA

Beloved (1987)

Toni Morrison nasceu no seio de uma família da classe trabalhadora em Lorain, Ohio, nos Estados Unidos. Os trabalhos de Toni Morrison giram em torno de pessoas afro-americanas; tanto a sua história quanto a sua situação no nosso tempo. A maneira como ela revela as histórias de vidas individuais transmite uma visão, compreensão e empatia pelas suas personagens, a motivação do Novel vai também nesse sentido, quando afirmam que Morrison “em romances caracterizados por uma força visionária e importância poética, dá vida a um aspecto essencial da realidade americana”.

Já li um livro da autora, Deus Ajude a Criança (2015), mas não creio que seja uma boa introdução para um leitor que se queira estrear com Morrison. Assim sendo, optei por propor Beloved (1987), talvez a obra mais conhecida da escritora, inspirado num facto verídico ocorrido no Kentucky em 1856, Beloved retrata o horror e a insanidade de um passado doloroso, numa época em que o país começava a confrontar -se com as feridas deixadas pela escravatura recém abolida. Considerado pelo New York Times um dos romances mais importantes do século XX. Um retrato realista e pungente da condição cruel e infame dos negros americanos durante o século XIX, narrado com virtuosismo e arte.

 

Wislawa Szymborska - Nobel da Literatura 1996 - Polónia

Paisagem com Grão de Areia (1998)

Wislawa Szymborska, poetisa, nasceu a 2 de julho de 1923 em Bnin, Polónia.  Concluiu o seu primeiro livro em 1948, uma coletânea de poemas que não chegou a ser publicada, já que o regime comunista de então caracterizou o trabalho como demasiadamente burguês. Laureada com inúmeros prémios literários, o de maior relevo, o Prémio Nobel da Literatura em 1996, sendo a sua obra caracterizada pela Academia de Estocolmo como "uma poesia que, com precisão irónica, permite que o contexto histórico e biológico se manifeste em fragmentos da realidade humana". 

A dimensão da sua poesia é pessoal, a de alguém que reflecte sobre a condição humana. É certo que tal actividade é acompanhada por uma extraordinária reticência; como se a poetisa se encontrasse de repente num palco decorado para uma velha peça de teatro, uma obra que transforma o indivíduo em nada, num número anónimo e como se, nestas circunstâncias, falar de si não fosse o mais indicado. Os poemas de Szymborska exploram situações pessoais, mas são ao mesmo tempo tão genéricos que permitem à sua autora evitar as confidências. 

 

Elfriede Jelinek - Nobel da Literatura 2004 - Áustria

A Pianista (1983)

Elfriede Jelinek nasceu em Mürzzuschlag, Áustria, em 1946. Ainda criança e adolescente, teve aulas de piano e órgão no conservatório de Viena. A sua obra inclui drama e poesia, bem como prosa. Elfriede é uma crítica severa da sociedade moderna de consumo, revelando estruturas ocultas de sexismo, sadismo e submissão. Em 2004 recebe o Nobel da Literatura "pelo seu fluxo musical de vozes e contra-vozes em romances e peças que, com extraordinário zelo linguístico, revelam o absurdo dos clichês da sociedade e o seu poder subjugador". Elfriede Jelinek é uma das escritoras mais originais e controversas do mundo hoje. 

A Pianista (1983), é provavelmente o romance mais famoso de Elfriede Jelinek, um retrato chocante, abrasador e dorido de uma mulher ligada entre uma sociedade repressiva e seus desejos mais sombrios. Erika Kohut é professora de piano no prestigioso e formal Conservatório de Viena, e vive com a sua mãe, dominadora e possessiva. A sua vida parece ser um tecido contínuo de tédio, mas Erika, uma pacata mulher de 38 anos, visita secretamente peep shows turcos à noite para assistir a programas de sexo ao vivo e filmes sadomasoquistas. Enquanto isso, um estudante bonito e egocêntrico de dezessete anos apaixona-se por Erika e começa a seduzi-la. Ela resiste no início, mas as paixões sombrias que turvam sob o exterior subjugado a professora de piano, explodem numa liberação de perversidade sexual, violência reprimida e degradação humana.

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