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Queirosiana

Blogue sobre livros, leituras, escritores e opiniões

5 livros escritos por mulheres laureadas com o Prémio Nobel da Literatura (Parte I)

#8 Baú dos Livros

02.09.20 | L.F. Madeira

Até 2020, num total de 116 laureados com o Nobel de Literatura, apenas 15 são mulheres. Se é certo que, em paralelo com o Nobel da Paz, esta é a categoria com maior representatividade feminina, ainda assim, sobressai a desproporção.

O primeiro Nobel de Literatura foi concedido no ano de 1901. Em 1909 estreava-se a primeira mulher escritora a receber o prémio. A distinção a mulheres escritoras foi sendo parca, mas destaca-se o período entre 1991 e 1966, basicamente um quarto de século, sem que nenhuma escritora tenha sido laureada. Recentemente, sobretudo desde 2004, o Nobel da Literatura tem vindo a ser atribuído a mulheres escritoras com mais frequência.

Não se trata de uma questão de falta de qualidade das obras produzidas por mulheres, mas antes de um histórico de invisibilidade e ausência do feminino nos espaços físicos, institucionais e escritos da arte (a este propósito, recordo aqui um magistral artigo de Filipa Lowndes Vicente, intitulado “Artes, a ilusão da vanguarda”, in XXI, Ter Opinião, n.º 8, 2017).

Ora, para celebrar as 15 mulheres laureadas com o Nobel da Literatura e com o intento de ampliar o meu horizonte literário, apresento a primeira de três partes do Baú dos Livros dedicado às mulheres laureadas com o Prémio Nobel da Literatura. Para cada escritora selecionei uma obra, preferencialmente traduzida em português.

 

Selma Lagerlöf - Nobel da Literatura 1909 - Suécia

O Imperador de Portugal (1914)

Selma Lagerlöf nasceu a 20 de novembro de 1858, na Suécia, onde faleceu a 16 de março de 1940. Com uma obra profundamente inspirada nas histórias de encantar e lendas populares do seu país, tornou-se, em 1909, a primeira mulher a ser galardoada com o Prémio Nobel da Literatura "pelo seu elevado idealismo, imaginação vívida e percepção espiritual" e em 1914 foi nomeada membro da Academia Sueca. 
 
O livro que proponho, já o li, O Imperador de Portugal tem um título curioso e que nos agarra a atenção, mas aviso de antemão que não envolve este país à beira mar plantado. Esta é uma história de uma maravilhosa sensibilidade e cuja leitura, escorreita, se faz sem sobressaltos. O mote deste livro e o cerne de toda a sua história é o conto do amor de um pai pela filha. O adjetivo primeiro que me ocorre é "lindo". É um lindo romance, de uma ternura e emotividade vibrantes. 

 

Grazia Cosima Deledda - Nobel da Literatura 1926 - Itália

Cinzas (1904)

Grazia Deledda nasceu em Nuoro (Sardenha) a 27 de Setembro de 1871, numa numerosa família da pequena-burguesia insular. Foi a quinta entre sete filhos e filhas. Morreu em Roma aos 64 anos, a 15 de Agosto de 1936. Em 1926, foi-lhe atribuído o Prémio Nobel de Literatura. O júri justificou a atribuição do Prémio "pelos seus textos inspirados e idealistas, que, com uma claridade plástica, retratam a vida na sua ilha nativa (a Sardenha) e que, com profundidade e simpatia, abordam os problemas humanos". Foi a primeira escritora italiana a receber o Nobel, e a segunda mulher a recebê-lo. 

O romance proposto, Cinzas, revela a capacidade criadora de Grazia Deledda que se assume neste romance com extraordinária exuberância, confirmando, uma vez mais, o seu talento genial, inteiramente votado à psicanálise do povo sardo. Digna de especial interesse é Anania, a figura central deste romance desenhada magistralmente pela escritora, que nos põe em contacto com os contraditórios sentimentos dum filho à procura da mãe que o abandonou, numa luta incessante contra os preconceitos duma sociedade egoísta e semi-selvagem. Em torno de Anania movem-se várias personagens secundárias igualmente inesquecíveis, numa história envolvente e orquestrada com perfeição.

 

Sigrid Undset - Nobel da Literatura 1928 - Noruega

Vigdis, A Indomável (1909)

Romancista norueguesa nascida em 1882,  na Dinamarca, e falecida a 10 de junho de 1949, na Noruega. Mudou-se com a família para Christiania (Oslo), na Noruega, com apenas dois anos de idade. No início, ela escreveu sobre mulheres fortes e contemporâneas em luta pela emancipação, tendo mais tarde desenvolvido o gosto pela História medieval e pela mitologia, sagas e baladas escandinavas. Foi galardoada com o Prémio Nobel da Literatura em 1928 "principalmente pelas suas descrições poderosas da vida no Norte durante a Idade Média". Com a ocupação da Noruega pelos Nazis em 1940, tornou-se membro da resistência e os seus livros foram proibidos pelas autoridades alemãs. 

A escolha aqui foi particularmente difícil, pois gostei de quase todas as suas obras pela sinopse, mas optei por Vigdis, A Indomável, ou Gunnar's Daughter (encontrei tradução para português, mas apenas em alfarrabistas). Passado na Noruega e na Islândia no início do século XI, esta é a história da bela e mimada Vigdis Gunnarsdatter. Mulher de coragem e inteligência, Vigdis é endurecida pela adversidade, defendendo repetidamente a sua autonomia num mundo governado por homens. 

 

Pearl S. Buck - Nobel da Literatura 1938 - EUA

A Mãe (1933)

Escritora norte-americana, Pearl Sydenstricker Buck nasceu a 26 de junho de 1892, nos EUA, no estado da Virgínia Ocidental. A autora faleceu a 6 de março de 1973, nos EUA. Pearl Buck cresceu na China, onde seus pais foram missionários. Educada pela mãe e por um professor particular chinês, estudioso do confucionismo, aprendeu este idioma antes de poder falar inglês. Após vários anos de estudos superiores nos Estados Unidos, ela voltou para a China, onde viveu até 1934. Em 1938 foi laureada com o Nobel da Literatura "pelas suas descrições ricas e verdadeiramente épicas da vida camponesa na China e pelas suas obras biográficas"

Pearl Buck tem uma vasta obra e foi complicado encontrar o livro que, eventualmente, poderia ser o melhor para a minha estreia. Assim, escolhi A Mãe, um romance no qual a autora descreve de um modo quase pictórico a vida simples e rude do povo Chinês, numa época que é pouco conhecida. A narrativa vívida e pormenorizada permite que o leitor capte toda a simplicidade e intensidade dos tempos. Ao penetrar no espírito da camponesa, Pearl S. Buck dá a conhecer os sentimentos mais profundos da mente e do coração de uma mulher e de uma mãe. Fá-lo de uma maneira comovente, enérgica e mesmo violenta. A personagem, assume uma grandeza excecional pela forma como encara e ultrapassa os obstáculos que a vida lhe coloca. Uma vida longa, árdua e solitária.

 

Gabriela Mistral - Nobel da Literatura 1945 - Chile

Locas Mujeres (2003)

Lucila Godoy Alcayaga nasceu em 1889 no Chile. Utilizou o pseudónimo Gabriela Mistral, que tem na inspiração o seus poetas favoritos, Gabriele D'Annunzio e Frédéric Mistral. Lucila Godoy Alcayaga assumiu várias funções na área da Educação e também serviu como cônsul chilena em vários países. Foi a primeira mulher da América Latina a ser distinguida com o Prémio Nobel da Literatura "pela sua poesia lírica que, inspirada por fortes emoções, fez do seu nome um símbolo das aspirações idealistas de todo o mundo latino-americano."

Encontrei apenas traduzida para português uma das suas obras de Antologia poética, numa edição antiga. Mas optei antes por escolher a sua obra Locas Mujeres, na língua original - castelhano, um compêndio poético que reúne poemas de outras obras suas. Locas Mujeres representa um sentido trágico da vida, retratando “mulheres loucas” que são tudo menos loucas. Fortes e intensamente humanas, as mulheres poéticas de Mistral enfrentam situações impossíveis para as quais não existe uma resposta sã.

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