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Queirosiana

Blogue sobre livros, leituras, escritores e opiniões

A Erva Canta, Doris Lessing (1950)

Ficção - Romance - África

01.01.19 | L.F. Madeira

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(review/opinião anterior a 2015, não revista)

Penso que já aqui referi o meu fascínio por esta escritora, vencedora do Prémio Nobel da Literatura em 2007. Este é o segundo livro que leio da autora.

Uma história inquietante que não tendo nada de estranho nela, mexe connosco, consegue alcançar o nosso íntimo e o nosso maior medo - a solidão.

Mary, a personagem principal, é uma mulher indiferente, superficial e só, embora no início da sua vida, esteja rodeada de gente. Casa-se com Dick, sem saber porquê. Não o ama, apenas lhe tem uma indiferença amável ou piedosa, tirando isso, ele é-lhe insuportável. Vai viver para a Fazenda de Dick, em plena África do Sul rural, numa altura em que os preconceitos raciais eram latentes - a África do Sul ainda era uma colónia inglesa.

Mary no meio de "nenhures" passa a viver em solidão, vira-se para si própria... e se no início ainda tinha energia para executar tarefas que a mantivessem ocupada, no fim, é o exemplo concreto do estoicismo, da apatia total. Apaixona-se pelo criado negro - Moses, mas isto é algo implícito no livro nunca é descrito. 

Mais uma vez, a escritora me surpreendeu pela sua enorme capacidade genial de trabalhar as suas personagens. A personagem é ela mesma a história, os acontecimentos que vão sendo descritos estão num plano abaixo.

O impacto que Doris Lessing tem no leitor em "A Erva Canta", consegue-o pela estrondosa capacidade de descrever olhares e tornar audíveis os tons de voz, que tanto dizem sobre nós.