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Queirosiana

Blogue sobre livros, leituras, escritores e opiniões

A Fenda, Doris Lessing

22.06.10

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Quando um livro inicia com a possibilidade "de a estirpe humana básica e primordial ser feminina e de o aparecimento dos homens ser mais tardio", a expectativa tem de ser muita e aqui me confesso, não saí de todo frustrada. 

A Fenda, publicada em 2007, precisamente no ano em que Doris Lessing foi galardoada com o Prémio Nobel de Literatura, traz à superfície o estilo irreverente e controverso de Lessing e uma perspectiva feminista muito sua. 

A Fenda trata uma história muito peculiar: E, se em tempos muito idos, as mulheres tivessem sido os primeiros seres humanos. E, ao contrário da história de Adão e Eva, o homem nascesse da mulher e não o contrário?

Esta ideia mexeu muito comigo, aliás, foi isto que me fez ler o livro. O narrador, é um cidadão romano do tempo do Imperador Nero que, paralelamente, nos vai dando alguns exemplos muito singulares da sua experiência marital e familiar.

A história começa com as Fendas, figuras femininas, que dão à luz outras Fendas pelo poder da Lua ou do Grande Peixe. A comunidade em que vivem, podemos caracterizá-la como tranquila, até ao momento em que começam a surgir os primeiros "Monstros", seres estranhos, repulsivos que, sem dó nem piedade, Elas atiram do penhasco abaixo. No entanto, alguns são salvos pelas Águias que os levam para o Vale onde sobrevivem graças à amamentação dos veados.

A partir daqui, começa a transformação desta comunidade feminina, cujo auge da "mudança" surge quando Elas decidem subir a montanha e ver o Vale e aí se deparam com os Monstros, a quem passaram também a chamar de Esguichos. A mudança começa a surgir com Maire e Astre, que dão à luz os primeiros bebés Fenda/Monstro. A partir daqui, dá-se uma profunda alteração, as mulheres deixam de dar à luz bebés sozinhas, começam a precisar dos homens.

Na história, contudo, a duas comunidades são sempre independentes uma da outra: as mulheres vivem no litoral e os homens no Vale, visitando-se mutuamente. A história termina com as mulheres a terem de ir viver com os homens para um novo litoral, uma nova fase da história, em que já se dizia que o primeiro ser humano tinha sido um Homem.

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