Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Queirosiana

Blogue sobre livros, leituras, escritores e opiniões

A Room of One's Own, Virginia Woolf (1929)

01.02.20

9780241387528.jpg

Li este ensaio pela primeira vez em 2013, pouco mais tinha do que vinte anos. Reli-o hoje. Vibrei então, vibrei agora e sem grandes adivinhações, vibrarei de cada vez que o reler. Que ensaio tão profundamente bem escrito! É um incontornável texto feminista e, não querendo exacerbar a minha idolatria woolfiana, - o incontornável texto feminista do século XX. 

Este ensaio de 1929 de Virginia Woolf sobre a luta das mulheres pela independência e oportunidade criativa foi o resultado de uma série de palestras às sociedades literárias de Newnham e Girton Colleges, as duas primeiras faculdades femininas em Cambridge, que decorreram em outubro de 1928 sobre a mulher e a ficção. 

Neste ensaio, marco do pensamento feminista, Woolf discorre sobre os preconceitos e as desvantagens educacionais, sociais e financeiras que as mulheres enfrentaram ao longo da história - assente na premissa de que uma mulher precisa de dinheiro e de um quarto só seu com fechadura na porta para escrever ficção - ou, num sentido mais lato, para criar. A premissa é simples de traduzir, a necessidade do dinheiro como condição essencial para a independência financeira, social e mental; a necessidade de um quarto seu com fechadura como condição essencial para a autonomia, para a liberdade e disponibilidade física e mental. Talvez seja interpretação minha, mas vou um pouco mais longe, a ideia de um quarto só seu, é igualmente uma simbologia para a necessidade das mulheres viverem por si e para si, e num exercício de autoconhecimento, na livre e silente solidão desenvolverem as suas capacidades, sem papéis ou expectativas sociais a obstaculizarem o caminho. 

Assim, Woolf inicia um exercício inspirador - numa visita ao Museu Britânico e na exploração das estantes de livros, mostra-nos tudo o que descobriu sobre o que já foi escrito sobre mulheres. Chegamos à conclusão que, inicialmente, pouco foi escrito. Do pouco escrito, apenas encontramos autores homens. Daqui Woolf desenvolve o argumento de que tanto a literatura como a história são construções masculinas de tendência marginalizadora das mulheres e do seu papel. 

Consequentemente, Woolf vem refutar todos os argumentos de que as mulheres são seres inferiores (e, portanto, escritores inferiores), tão amplamente em voga no início do século XX, sobretudo devido às lutas pelo direito ao voto das mulheres, focando-se no argumento de que as mulheres, ao longo dos tempos, foram impedidas de frequentar a  escola e universidades, foram excluídas da propriedade (na herança, no casamento), sendo-lhes vedado o espaço público e limitadas a uma existência privada, em tarefas domésticas e criação de filhos - e de que estas são as verdadeiras razões para não existirem mais mulheres escritoras, historiadoras, cientistas, ... - não por que seja da natureza da mulher ser inferior, mas antes pelas óbvias razões de que às mulheres não foi dada liberdade, espaço e tempo para desenvolverem as suas capacidades e criatividade.  Woolf celebra o trabalho de mulheres que superaram essa tradição e se tornaram escritoras, incluindo Jane Austen, George Eliot e as irmãs Brontë, Anne, Charlotte e Emily.

Mas não só, Woolf insiste também que, porque a literatura e a história são construções masculinas, são os valores masculinos que aí prevalecem - por exemplo, num outro exercício brilhante, a qualidade e importância de um livro assume-se pela sua temática, se trata de estratégia militar é um livro importante; se trata dos sentimentos e das conversas de amigas numa sala de visitas, é insignificante. 

No final, Woolf exorta todas as mulheres a escrever, a escrever de tudo! A não se limitarem a nenhum assunto, o trivial e o profundo, mas a trabalharem afincadamente, ainda que na pobreza e na obscuridade - segundo Woolf, o treino, a prática, levariam a que, mais cedo ou mais tarde surgisse a tal figura da irmã de Shakespeare, impedida de existir pela época  em que viveu. É maravilhosa, esta ideia de como cada mulher escritora é o legado de todas as mulheres escritoras anteriores. Tal como é inspiradora a ideia final de Woolf de que um mundo ideal é um mundo andrógino, no sentido em que a nossa existência é autónoma e a nossa relação é com o mundo da realidade e não apenas em facção com o mundo dos homens e das mulheres. 

Sim, alguns aspetos deste ensaio de Woolf estão aparentemente ultrapassados nos dias de hoje - mas não universal e plenamente. A Room of One's Own assume-se intemporal na medida em que pela sua deliciosa teia de exemplos e alegorias permite uma reflexão atual sobre o que é ser mulher, e para mim, sobre qual é o meu lugar na sociedade e a minha relação com os outros e de como a igualdade de género é uma luta contínua e de como, para muitas mulheres ainda não é permitido andar pela relva, estando limitadas ao caminho de cascalho para evitar horror e indignação. 

***

Quero ler este livro

***