urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:queirosianaQueirosianaBlogue sobre livros, leituras, escritores e opiniõesLiveJournal / SAPO BlogsL.F. Madeira2020-10-14T12:24:27Zurn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:queirosiana:164310Margarida M.2020-10-11T20:31:00As Mulherzinhas (1868), Louisa May Alcott2020-10-11T19:47:03Z2020-10-14T12:24:27Z<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;"><img style="width: 525px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="N11244458A_1.jpg" src="https://c4.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B8a186071/21927216_EdjzZ.jpeg" alt="N11244458A_1.jpg" width="525" height="720" />Hoje escrevo sobre mais um clássico que não pode faltar nas listas de leitura. “As Mulherzinhas”. Um conto que, retratando a vida da família “March”durante o período de guerra civil americana (1861-5), toma o seu foco em algo mais, algo que, no contexto temporal (América século XIX) a autora, Louisa May Alcott, seria das poucas com a coragem de o abordar – o feminismo. Tendo sido educada num meio familiar transcendentalista (ideia de que a sociedade está corrompida e necessita por isso de uma reforma), lutar e dar a sua voz pelo que achava correto ou incorreto não era problema para Alcott.</p>
<p style="text-align: justify;">“As Mulherzinhas” desenvolve-se à volta de uma família e do seu quotidiano enquanto o pai da família está ausentado na guerra civil. A família March é composta por 4 filhas e a mãe, a base e apoio das jovens. As filhas compreendem diferentes idades, personalidades e diferentes fases de crescimento de uma rapariga. A mais velha, Meg é uma rapariga elegante, delicada e pronta para entrar na fase adulta da sua vida com todas as responsabilidades e preocupações que advém da mesma. De seguida temos Josephine “Jo” uma jovem rapariga cheia de vida e alegria que não se deixa limitar pelos padrões da sociedade e vive livre e sem pudores ou preocupações no que toca à “etiqueta” feminina. Será importante referir que esta personagem, “Jo”, é a que mais se assemelha com a própria escritora, que fez questão de deixar a sua alma neste livro pois ela própria não era a típica jovem rapariga da sua época. As duas irmãs mais novas são Beth, tímida, reservada, simples e muito humilde e com uma paixão pelo piano. Por último temos a pequena Amy que, ainda a crescer não conhece as dificuldades e adversidades da vida, mas demonstra uma maturidade além das raparigas da sua idade, é ainda orgulhosa e determinada.</p>
<p style="text-align: justify;">Como já referi, a questão do feminismo é um ponto fulcral na obra. É exaltada a independência da mulher, a sua determinação perante adversidades e ainda o amor no seio familiar em que o homem não está presente (o que na época era visto como algo invulgar). São ainda exploradas questões mais sociais no que toca às mulheres. “Jo” é a grande protagonista do “rompimento” de padrões, o seu espírito aventureiro leva-a a ir por caminhos menos convencionais e até a comportar-se como o que hoje chamaríamos de “maria-rapaz”. Devo dizer que a parte que mais gosto na história é a amizade de “Jo” com “Laurie” (o jovem estudante e vizinho). A sua amizade é retratada tal como seria a relação entre uma irmã e um irmão com idades semelhantes, o que era incomum na altura pois rapaz e rapariga juntos seria sinal de casamento ou que algo de romântico se passava entre ambos. Aqui não vemos isso, apenas uma boa amizade cheia de aventuras e momentos engraçados com o jovem (Laurie), “Jo” e as suas irmãs.</p>
<p style="text-align: justify;">Este clássico intemporal é um hino às mulheres, mas também um conto sobre a amizade e a importância da empatia e simpatia num Mundo, ou deverei dizer país dividido pela guerra civil. Embora hoje a América do Norte não esteja em guerra civil (física pelo menos, devo acrescentar) este é um livro que não deixa de ser importante de analisar em contexto do século XXI. As mulheres lutam ainda por igualdade e direitos que deveriam ser tomados como certos nesta era, e a humanidade tem ainda muito para aprender sobre o verdadeiro valor da amizade e da entreajuda e o sentido de sociedade.</p>
<p style="text-align: justify;">Irei com certeza voltar a esta leitura no futuro, inspirou-me agora e sinto que me irá continuar a inspirar independentemente da idade, estatuto ou fase da vida! Para terminar deixo-vos um transcrito do livro “Little Women”, editado pela Collins Classics, relativamente à autora que achei importante de realçar:</p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #993300;">“she lived through the turbulence of the American Civil War and saw America metamorfose into a modern nation where slaves were freed of their literal chains and women were freed of their metaphorical chains.” <strong>“Collins Classics Ed.(2013), Little Women”</strong></span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #000000;">***</span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:queirosiana:1625142020-09-08T13:12:00Ten Days in a Mad-House (1887), Nellie Bly2020-09-08T12:33:44Z2020-09-08T12:33:44Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 582px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="55104410._UY2250_SS2250_.jpg" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Be217da58/21898259_0oBOM.jpeg" alt="55104410._UY2250_SS2250_.jpg" width="720" height="582" /></p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">Depois da recomendação no blogue <a href="https://sweetstuff.blogs.sapo.pt/para-setembro-um-classico-de-nao-ficcao-306214" target="_blank" rel="noopener">Sweet Stuff</a> acabei por mergulhar de cabeça nesta leitura. É uma leitura extremamente gráfica e inquietante por retratar, na primeira pessoa, a realidade crua das mulheres diagnosticadas (e perdoem-me, mas nalgumas situações, quase aleatoriamente) com doenças mentais no século XIX e seu incerto e desesperante destino nas instituições públicas de acolhimento e tratamento. </p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">Nelly Bly (pseudónimo) foi uma jornalista norte-americana do século XIX, entre outras profissões e atividades, tendo ficado conhecida por fazer reportagens de investigação e, neste caso em particular, por ter fingido doença mental de forma a ser internada num asilo para tratamento de mulheres doentes mentais e poder retratar na primeira pessoa, as condições e tratamentos a que estas mulheres estavam sujeitas. Entre outras reportagens, Nelly Bly ficou também famosa por ter recriado a volta ao mundo de Julio Verne, neste caso, em 72 dias, viajando quase sempre sozinha. </p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">Não pude deixar de recordar o filme <em>Girl, Interrupted</em>, baseado no livro com o mesmo título de Susanna Kaysen. </p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">Uma pequena curiosidade, eu sabia que já tinha ouvido este nome algures e <a href="http://brookekroeger.com/new-york-evening-journal-march-3-1913/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a> está a razão. </p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: center;">***</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:queirosiana:1614512020-09-07T17:15:00A Utopia (1516), Thomas More2020-09-07T16:23:07Z2020-09-07T19:46:55Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 468px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="A-Utopia.jpg" src="https://c4.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B5017b7c9/21897055_ktBDa.jpeg" alt="A-Utopia.jpg" width="400" height="677" /></p>
<p style="text-align: justify;">Um clássico dos antigos que estava na estante desde 2016. Thomas More tem sido companheiro nos livros de História e de Direito quer pela sua qualidade de estadista, filósofo e humanista do Renascimento; mas também por ser o criador de uma das palavras mais belas, "utopia".</p>
<p style="text-align: justify;">A palavra utopia (<em>ou-topos</em>), construída a partir de outra muito semelhante do Grego (<em>eu-topos = bom lugar</em>), significa, numa tradução literal, "não lugar". A ideia era fazer aqui um jogo de palavras na medida em que esta ilha da Utopia criada por More seria um lugar inexistente. No entanto, quis a providência que a palavra utopia fosse além do intento do seu criador e passasse a significar algo ideal, algo perfeito ou idílico. <em>Utopia</em>, fortemente influenciada pel' <em>A República</em> de Platão, foi ela própria a precursora de um novo género literário de ficção utópica ou distópica. </p>
<p style="text-align: justify;">Utopia, uma ilha em lugar desconhecido, surge pelo contador Rafael Hitlodeu - nascido no Reino de Portugal e que viveu na Utopia cinco anos - como uma sociedade perfeitamente ordenada assente em princípios de justiça, equidade e razoabilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Ante a sociedade da época de sistema feudal calculo que esta tenha sido uma obra, diria, revolucionária. Desde logo, no que concerne à organização societal da ilha da Utopia: o facto de todos trabalharem apenas 6 horas por dia, não existirem advogados (porque as leis eram diminutas e as existentes, escritas de forma a serem facilmente interpretadas por todos), existir algo muito semelhante à morte assistida, a educação ser acessível a mulheres e homens, a propriedade ser essencialmente comum e não existir dinheiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Claro, à luz os olhos de hoje a ilha da Utopia estava longe de ser utópica para todos os Utopianos, desde logo por assumir premissas de desigualdade entre mulheres e homens e parte da organização social estar assente em trabalho escravo. Fora isso, o forte apelo à disciplina e à ordem com limitações de liberdades quase totalitaristas, como a indicação dos cidadãos para determinadas profissões ou a uniformização do vestuário, denotam também pouco apreço pela liberdade individual. </p>
<p style="text-align: justify;">Um pequeno livro que se lê bastante bem e que vale a pena conhecer. </p>
<p style="text-align: center;">***</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:queirosiana:1607582020-09-06T13:05:00O Nome da Rosa (1980), Umberto Eco2020-09-06T12:29:26Z2020-09-07T19:48:47Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 406px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="UEcapa.jpg" src="https://c6.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B1518d62c/21896684_KVAYk.jpeg" alt="UEcapa.jpg" width="300" height="644" /></p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">Ora quem diria que um grupo de monges, frades e inquisidores do século XIV me tiraria o sono de forma tão aditiva. Trata-se de um livro fascinante que talvez não possa ser resumido como farei de seguida, por encerrar significados mais abrangentes e indefinidos. Mas uma certeza eu tenho, este romance é um labirinto! </p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;"><em>O Nome da Rosa</em>, romance debute de Umberto Eco conta a história de uma série de mortes misteriosas de monges numa Abadia de Beneditinos, na Itália do ano de 1327. Li por aí que o enredo é lento. Pelo contrário, não achei. A ação decorre temporalmente em sete dias, sete dias em que acompanhamos hora a hora as deambulações e investigações do frade William e seu noviço Adso. </p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">A história tem lugar no período singular em que o Pontificado abandonou a cidade de Roma para se estabelecer em Avignon - a Crise de Avignon - um momento crucial na História da Igreja Católica que viria mais tarde a originar o Cisma Papal do Ocidente, onde houve Papas e Antipapas. A causa Franciscana (ou a questão da pobreza) é de crucial importância neste período, pois foi utilizada como arma de arremesso de uns contra outros e tida como a pedra de toque para as várias divergências doutrinárias de então. </p>
<p style="text-align: justify;"><em>O Nome da Rosa</em> está populado de personagens que foram figuras reais e fulcrais neste período da História, como Ubertino de Casale ou Miguel de Cesena. Mas depois temos hereges, místicos, fundamentalistas e frades radicais que pretendem a abolição da riqueza, da propriedade, da própria autoridade. Em vários momentos, senti-me transportada para o pensamento Marxista, pura e simplesmente fabuloso. </p>
<p style="text-align: justify;">Fora as especificidades, o que estava verdadeiramente em questão, e o nosso frade William explica com clareza, é aquilo que está sempre em questão nos conflitos: luta pelo poder. Poder aliado à riqueza, poder aliado ao medo - como sempre, dirão. </p>
<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo é estranho porque embora as discussões de teologia e metafísicas pudessem, à partida, constituir um forte entrave e bloqueio à narrativa (então quando começavam a ter visões ou a discursar sobre o Apocalipse conseguiam tirar-me do sério), a verdade é que me mantive hipnotizada diante das páginas e a determinada altura também já eu raciocinava sobre debates teológicos a propósito da pobreza de Cristo ou o poder do riso para afastar o medo. A conclusão lógica não é a magia do escritor, é obviamente o seu génio. Umberto Eco, mais do que um escritor, foi um filósofo dedicado ao estudo da semiótica, um linguista, um historiador medievalista, o seu vasto conhecimento dos estudos medievais fica demonstrado neste romance (alguns dirão que mais do que o conhecimento, há algum pedantismo na escrita de <em>O Nome da Rosa</em>, por mim, diria que há alguma vaidade do escritor mas é totalmente legítima). </p>
<p style="text-align: justify;">Era mais agradável se as passagem em latim estivessem traduzidas. Esta santa ainda foi traduzindo no início com a ajuda do Google tradutor, mas até a minha paciência tem limites. Mas não creio que a sua não tradução prejudique a compreensão da história até porque as passagens em latim acabam por ser mais ou menos contextualizadas no decurso da ação imediata.</p>
<p style="text-align: justify;">Quanto ao título, <em>O Nome da Rosa</em>, é também ele um enigma, um <em>conundrum, </em>Eco afirma ter escolhido o título "porque a rosa é uma figura simbólica tão rica em significados que agora quase não tem mais nenhum significado". </p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">Resumir este livro ao género de mistério e crime ou a uma história de detetives vestidos com o hábito é errado, este romance tem várias facetas e tanto integra o género histórico, o mistério, o <em>thriller</em>, a teologia, filosofia e a metafísica - e consegue incluir tudo isto no seu enredo de forma habilmente insinuante e tentadora numa tensão permanente e em crescendo. É brilhante, sem dúvida!</p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">Disse no início e reforço, este livro é um labirinto de significados, um labirinto de busca pela verdade, um labirinto sem respostas. Enquanto leitora, tanto me senti perdida num labirinto como numa laboriosa engrenagem cerebral. É um livro para ser lido e relido de forma a capturar, tanto quanto possível, a miríade das suas interpretações .</p>
<p style="text-align: center;">***</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:queirosiana:1543252020-09-03T15:34:00The Origins of Totalitarianism (1951), Hannah Arendt2020-09-03T15:54:48Z2020-09-07T19:49:12Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 469px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="91TXQd8uNbL.jpg" src="https://c2.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bc91727ab/21888778_m8QJQ.jpeg" alt="91TXQd8uNbL.jpg" width="469" height="720" /></p>
<p style="text-align: justify;">Ora aqui está uma leitura poderosa e extremamente estimulante. Numa altura de turbulência social e política por todo o mundo, com o (re)surgimento de vagas populistas e demagogias assustadoramente similares a um passado recente, este clássico de não-ficção do século XX, escrito pela filósofa política Hannah Arendt, revela-se, infelizmente, particularmente atual e premonitório. </p>
<p style="text-align: justify;">Em <em>The Origins of Totalitarianism</em> Arendt condensa uma série de informação preciosa sobre as condições e circunstâncias que levaram ao surgimento e instauração dos regimes totalitários Nazi e Soviético no século XX. Navegando por vários períodos da História, desde o século XVIII, ao Imperialismo, Colonialismo, o surgimento do pensamento racial e do pensamento de classes, a crise do Estado-nação, o antissemitismo, o racismo, a desintegração do Império Austro-Húngaro, a I Grande Guerra e, por fim, os regimes totalitários cujas principais características são a dominação e o terror como instrumentos de concretização da ideologia que visa retirar qualquer pingo de liberdade e espontaneidade do ser humano. </p>
<p style="text-align: justify;">A contracapa da minha edição deste livro afirma <em>How could such a book speak so powerfully to our present moment? The short answer is that we, too, live in dark times </em>- e de facto, além deste livro nos dar uma perspetiva integrada de vários acontecimentos históricos (e, no meu caso, acentuar a minha profunda vergonha por desconhecer tanta parte da História que medeia a Revolução Francesa e a II Guerra Mundial), esta obra obriga-nos, com um olhar hodierno, a reconhecer paralelismos intimidantes na nossa sociedade global de hoje. </p>
<p style="text-align: justify;">Quando falo em paralelismos, refiro-me a questões concretas como a fabricação de factos à custa da realidade histórica. Refiro-me a uma generalizada passividade das sociedades europeias ante violações gravíssimas de Direitos Humanos dentro e fora das suas fronteiras e uma cegueira propositada em prol de um dito crescimento económico <em>ad eternum</em>, criando uma realidade onde tudo pode acontecer porque ninguém quer saber. Refiro-me ao facto de cada vez mais o <em>ruído</em> das redes sociais ser tido e confundido com a opinião das pessoas, atribuindo-se àquele um peso e uma dimensão mediática que apenas impele e estimula radicalismos, intolerâncias e surgimento de figuras estéreis em busca de poder pelo poder - <em>the mob always will shout for the "strong man", the "great leader". For the mob hates society from which it is excluded</em>. Refiro-me ao deserto de Estadistas no panorama mundial e à circunstância das práticas privadas de negócios serem trazidas para a esfera pública como as regras ideais para conduzir questões de Estado. Refiro-me à incapacidade de respostas humanistas perante crises humanas que transformam mares em cemitérios. Refiro-me ao apelo constante de atomização das sociedades e da pulverização da defesa de interesses comuns, bem como do atrativo apelo da competitividade como regra de organização. </p>
<p style="text-align: justify;">Mais do que descrever o livro - até porque não o conseguiria fazer sem o tornar num texto académico no qual teria de me pronunciar sobre a visão de Direitos Humanos de Arendt e limar algumas arestas, - preferi deixar aqui as minhas impressões e inquietações resultantes da leitura desta obra, ainda que elas me possam fazer soar a um arauto da desgraça. </p>
<p style="text-align: justify;"><em>No matter how much we may be capable of learning from the past, it will not enable us to know the future</em>, mas certamente confere-nos a sensibilidade de percepcionar quando a Humanidade regressa a vícios passados. </p>
<p style="text-align: center;">***</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:queirosiana:1578072020-09-02T21:04:005 livros escritos por mulheres laureadas com o Prémio Nobel da Literatura (Parte I)2020-09-02T20:29:33Z2020-09-02T20:38:12Z<p><div id="qpjPj61616975899" class="ink-carousel"><ul class="stage"><li style="list-style: none;" class="slide all-100 align-center"><img class="lazyload-item" src="" /></li><li style="list-style: none;" class="slide all-100 align-center"><img class="lazyload-item" src="" /></li><li style="list-style: none;" class="slide all-100 align-center"><img class="lazyload-item" src="" /></li><li style="list-style: none;" class="slide all-100 align-center"><img class="lazyload-item" src="" /></li><li style="list-style: none;" class="slide all-100 align-center"><img class="lazyload-item" src="" /></li></ul><nav style="position: static;" id="qpjPj61616975899-pagination" class="ink-navigation half-top-space"><ul class="pagination chevron"></ul></nav></div>
</p>
<p style="text-align: justify;">Até 2020, num total de 116 laureados com o Nobel de Literatura, apenas 15 são mulheres. Se é certo que, em paralelo com o Nobel da Paz, esta é a categoria com maior representatividade feminina, ainda assim, sobressai a desproporção.</p>
<p style="text-align: justify;">O primeiro Nobel de Literatura foi concedido no ano de 1901. Em 1909 estreava-se a primeira mulher escritora a receber o prémio. A distinção a mulheres escritoras foi sendo parca, mas destaca-se o período entre 1991 e 1966, basicamente um quarto de século, sem que nenhuma escritora tenha sido laureada. Recentemente, sobretudo desde 2004, o Nobel da Literatura tem vindo a ser atribuído a mulheres escritoras com mais frequência.</p>
<p style="text-align: justify;">Não se trata de uma questão de falta de qualidade das obras produzidas por mulheres, mas antes de um histórico de invisibilidade e ausência do feminino nos <em>espaços físicos, institucionais e escritos da arte</em> (a este propósito, recordo aqui um magistral artigo de Filipa Lowndes Vicente, intitulado “Artes, a ilusão da vanguarda”, <em>in</em> XXI, Ter Opinião, n.º 8, 2017).</p>
<p style="text-align: justify;">Ora, para celebrar as 15 mulheres laureadas com o Nobel da Literatura e com o intento de ampliar o meu horizonte literário, apresento a primeira de três partes do Baú dos Livros dedicado às mulheres laureadas com o Prémio Nobel da Literatura. Para cada escritora selecionei uma obra, preferencialmente traduzida em português.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #993300; font-size: 14pt;"><strong>Selma Lagerlöf - Nobel da Literatura 1909 - Suécia</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;"><strong><em>O Imperador de Portugal </em>(1914)</strong></span></p>
<div class="col-sm-9 col-md-9 col-lg-9 left-column ">
<div class="autor-biografia-container">
<div id="autor-biografia" class="autor-biografia truncated is-truncated collapse in" style="text-align: justify;" aria-expanded="true">Selma Lagerlöf nasceu a 20 de novembro de 1858, na Suécia, onde faleceu a 16 de março de 1940. Com uma obra profundamente inspirada nas histórias de encantar e lendas populares do seu país, tornou-se, em 1909, a primeira mulher a ser galardoada com o Prémio Nobel da Literatura <strong><em>"pelo seu elevado idealismo, imaginação vívida e percepção espiritual"</em></strong> e em 1914 foi nomeada membro da Academia Sueca. </div>
<div class="autor-biografia truncated is-truncated collapse in" style="text-align: justify;" aria-expanded="true"> </div>
<div class="autor-biografia truncated is-truncated collapse in" style="text-align: justify;" aria-expanded="true">O livro que proponho, já o li, <em><strong><a href="https://queirosiana.blogs.sapo.pt/o-imperador-de-portugal-selma-lagerlof-122146" target="_blank" rel="noopener">O Imperador de Portugal</a> </strong></em>tem <span style="font-size: 12pt;">um título curioso e que nos agarra a atenção, mas aviso de antemão que não envolve este país à beira mar plantado. Esta é uma história de uma maravilhosa sensibilidade e cuja leitura, escorreita, se faz sem sobressaltos. O mote deste livro e o cerne de toda a sua história é o conto do amor de um pai pela filha. O adjetivo primeiro que me ocorre é "lindo". É um lindo romance, de uma ternura e emotividade vibrantes. </span></div>
</div>
</div>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p><span style="color: #993300; font-size: 14pt;"><strong>Grazia Cosima Deledda - Nobel da Literatura 1926 - Itália</strong></span></p>
<p><span style="font-size: 14pt;"><strong><em>Cinzas</em> (1904)</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;">Grazia Deledda nasceu em Nuoro (Sardenha) a 27 de Setembro de 1871, numa numerosa família da pequena-burguesia insular. Foi a quinta entre sete filhos e filhas. Morreu em Roma aos 64 anos, a 15 de Agosto de 1936. Em 1926, foi-lhe atribuído o Prémio Nobel de Literatura. O júri justificou a atribuição do Prémio <em><strong>"pelos seus textos inspirados e idealistas, que, com uma claridade plástica, retratam a vida na sua ilha nativa (a Sardenha) e que, com profundidade e simpatia, abordam os problemas humanos"</strong></em>. Foi a primeira escritora italiana a receber o Nobel, e a segunda mulher a recebê-lo. </p>
<p style="text-align: justify;">O romance proposto, <strong><a href="https://www.bertrand.pt/livro/cinzas-grazia-deledda/22267634" target="_blank" rel="noopener"><em>Cinzas</em></a></strong>, revela a capacidade criadora de Grazia Deledda que se assume neste romance com extraordinária exuberância, confirmando, uma vez mais, o seu talento genial, inteiramente votado à psicanálise do povo sardo. Digna de especial interesse é Anania, a figura central deste romance desenhada magistralmente pela escritora, que nos põe em contacto com os contraditórios sentimentos dum filho à procura da mãe que o abandonou, numa luta incessante contra os preconceitos duma sociedade egoísta e semi-selvagem. Em torno de Anania movem-se várias personagens secundárias igualmente inesquecíveis, numa história envolvente e orquestrada com perfeição.</p>
<p> </p>
<p><span style="font-size: 14pt; color: #993300;"><strong>Sigrid Undset - Nobel da Literatura 1928 - Noruega</strong></span></p>
<p><span style="font-size: 14pt;"><strong><em>Vigdis, A Indomável</em> (1909)</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;">Romancista norueguesa nascida em 1882, na Dinamarca, e falecida a 10 de junho de 1949, na Noruega. Mudou-se com a família para Christiania (Oslo), na Noruega, com apenas dois anos de idade. No início, ela escreveu sobre mulheres fortes e contemporâneas em luta pela emancipação, tendo mais tarde desenvolvido o gosto pela História medieval e pela mitologia, sagas e baladas escandinavas. Foi galardoada com o Prémio Nobel da Literatura em 1928 <em><strong>"principalmente pelas suas descrições poderosas da vida no Norte durante a Idade Média"</strong></em>. Com a ocupação da Noruega pelos Nazis em 1940, tornou-se membro da resistência e os seus livros foram proibidos pelas autoridades alemãs. </p>
<p style="text-align: justify;">A escolha aqui foi particularmente difícil, pois gostei de quase todas as suas obras pela sinopse, mas optei por <em><strong>Vigdis, A Indomável</strong></em>, ou <em><strong><a href="https://www.bertrand.pt/livro/gunnar-s-daughter-sigrid-undset/22271198" target="_blank" rel="noopener">Gunnar's Daughter</a></strong></em> (encontrei tradução para português, mas apenas em alfarrabistas). Passado na Noruega e na Islândia no início do século XI, esta é a história da bela e mimada Vigdis Gunnarsdatter. Mulher de coragem e inteligência, Vigdis é endurecida pela adversidade, defendendo repetidamente a sua autonomia num mundo governado por homens. </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p><span style="font-size: 14pt; color: #993300;"><strong>Pearl S. Buck - Nobel da Literatura 1938 - EUA</strong></span></p>
<p><span style="font-size: 14pt;"><strong><em>A Mãe</em> (1933)</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;">Escritora norte-americana, Pearl Sydenstricker Buck nasceu a 26 de junho de 1892, nos EUA, no estado da Virgínia Ocidental. A autora faleceu a 6 de março de 1973, nos EUA. Pearl Buck cresceu na China, onde seus pais foram missionários. Educada pela mãe e por um professor particular chinês, estudioso do confucionismo, aprendeu este idioma antes de poder falar inglês. Após vários anos de estudos superiores nos Estados Unidos, ela voltou para a China, onde viveu até 1934. Em 1938 foi laureada com o Nobel da Literatura <strong><em>"pelas suas descrições ricas e verdadeiramente épicas da vida camponesa na China e pelas suas obras biográficas"</em></strong><em>. </em></p>
<p style="text-align: justify;">Pearl Buck tem uma vasta obra e foi complicado encontrar o livro que, eventualmente, poderia ser o melhor para a minha estreia. Assim, escolhi <em><strong><a href="https://www.bertrand.pt/livro/a-mae-pearl-s-buck/21607859" target="_blank" rel="noopener">A Mãe</a></strong></em>, um<span style="font-size: 12pt;"> romance no qual a autora descreve de um modo quase pictórico a vida simples e rude do povo Chinês, numa época que é pouco conhecida. A narrativa vívida e pormenorizada permite que o leitor capte toda a simplicidade e intensidade dos tempos. Ao penetrar no espírito da camponesa, Pearl S. Buck dá a conhecer os sentimentos mais profundos da mente e do coração de uma mulher e de uma mãe. Fá-lo de uma maneira comovente, enérgica e mesmo violenta. A personagem, assume uma grandeza excecional pela forma como encara e ultrapassa os obstáculos que a vida lhe coloca. Uma vida longa, árdua e solitária.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p><span style="font-size: 14pt; color: #993300;"><strong>Gabriela Mistral - Nobel da Literatura 1945 - Chile</strong></span></p>
<p><span style="font-size: 14pt;"><em><strong>Locas Mujeres </strong></em><strong>(2003)</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;">Lucila Godoy Alcayaga nasceu em 1889 no Chile. Utilizou o pseudónimo Gabriela Mistral, que tem na inspiração o seus poetas favoritos, Gabriele D'Annunzio e Frédéric Mistral. Lucila Godoy Alcayaga assumiu várias funções na área da Educação e também <span style="font-size: 12pt;">serviu como cônsul chilena em vários países. Foi a primeira mulher da América Latina a ser distinguida com o Prémio Nobel da Literatura <em><strong>"pela sua poesia lírica que, inspirada por fortes emoções, fez do seu nome um símbolo das aspirações idealistas de todo o mundo latino-americano."</strong></em></span></p>
<p style="text-align: justify;">Encontrei apenas traduzida para português uma das suas obras de Antologia poética, numa edição antiga. Mas optei antes por escolher a sua obra <a href="https://www.bertrand.pt/livro/locas-mujeres-gabriela-mistral/2591430" target="_blank" rel="noopener"><strong><em>Locas Mujeres</em></strong>,</a> na língua original - castelhano, um compêndio poético que reúne poemas de outras obras suas. <em>Locas Mujeres</em> representa um sentido trágico da vida, retratando “mulheres loucas” que são tudo menos loucas. Fortes e intensamente humanas, as mulheres poéticas de Mistral enfrentam situações impossíveis para as quais não existe uma resposta sã.</p>
<p class="sapomedia images"><img style="width: 235px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="bau dos livros.jpg" src="https://c2.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B3118c105/21781115_RoJWi.jpeg" alt="bau dos livros.jpg" width="809" height="211" /></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:queirosiana:1553632020-08-30T20:27:005 mulheres escritoras para (re)descobrir a literatura italiana 2020-08-30T20:00:07Z2020-08-30T21:53:06Z<p><div id="qpTKoY1616975900" class="ink-carousel"><ul class="stage"><li style="list-style: none;" class="slide all-100 align-center"><img class="lazyload-item" src="" /></li><li style="list-style: none;" class="slide all-100 align-center"><img class="lazyload-item" src="" /></li><li style="list-style: none;" class="slide all-100 align-center"><img class="lazyload-item" src="" /></li><li style="list-style: none;" class="slide all-100 align-center"><img class="lazyload-item" src="" /></li><li style="list-style: none;" class="slide all-100 align-center"><img class="lazyload-item" src="" /></li></ul><nav style="position: static;" id="qpTKoY1616975900-pagination" class="ink-navigation half-top-space"><ul class="pagination chevron"></ul></nav></div>
</p>
<p style="text-align: justify;">Fortemente influenciada pelo <em><a href="https://www.nytimes.com/2019/12/09/books/elena-ferrante-italy-women-writers.html" target="_blank" rel="noopener">efeito Ferrante</a>,</em> quis explorar um pouco da literatura italiana, da qual, até à data, apenas li Moravia, Ferrante e alguns clássicos como Boccaccio e Maquiavel. Nessa pesquisa, verifiquei que nas listas dos escritores mais famosos de Itália não me apareciam nomes femininos e acabei por encontrar este artigo brilhante de Jeanne Bonner - <em><a href="https://lithub.com/where-are-the-great-italian-women-writers/" target="_blank" rel="noopener">Where Are the Great Italian Women Writers?</a></em> - que me fez recordar muitas vezes o ensaio de Woolf <em>A Room of One's One</em>, no qual ela ficciona uma visita à biblioteca onde encontra poucas prateleiras com autoras, mulheres escritoras. </p>
<p style="text-align: justify;">Assim, o resultado destes devaneios internáuticos foi esta singela lista de cinco mulheres escritoras italianas cujas obras me suscitaram maior interesse. Por coincidência, as cinco escolhidas têm todas obras traduzidas em português. Deixei ainda algumas menções honrosas porque custa-me sempre desperdiçar sugestões que também considerei interessantes. </p>
<p> </p>
<p><span style="color: #993300; font-size: 14pt;"><strong>Goliarda Sapienza</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;">A escritora e actriz italiana Goliarda Sapienza nasceu na Sicília, em 1924, filha de pai advogado e sindicalista e de mãe militante, próxima do filósofo António Gramsci. Aos 16 anos vai para Roma, onde estuda teatro, interpreta obras de Pirandello e funda a sua própria companhia. Vive ali, talentosa e inquieta, nos meios intelectuais e artísticos até à sua morte, em 1996. <em><strong><a href="https://www.bertrand.pt/livro/a-arte-da-alegria-goliardasapienza/1458086" target="_blank" rel="noopener">A Arte da Alegria</a> </strong></em>(1994) foi o seu quinto e último romance, recebendo fortes críticas e rejeitado por muitos. As razões pelas quais o romance foi condenado não têm que ver, pois, com o seu mérito literário, mas por ser uma obra "ideológica", marcada pelas convicções da autora, bem como pela vida destemperada de Modesta, a sua personagem principal e o fio condutor de toda a narrativa. Ambas, a autora e a sua criação, desafiam, sem falso pudor, o estereótipo da mulher submissa, respeitável e de bons costumes. A tradução portuguesa, <em>A Arte da Alegria</em>, publicado pela D. Quixote, encontra-se esgotadíssima, infelizmente.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p><span style="font-size: 14pt; color: #993300;"><strong>Elsa Morante</strong> </span></p>
<p style="text-align: justify;">Elsa Morante nasceu em Roma, em 1912, cidade onde morreu em 1985. Decidiu dedicar-se à literatura ainda muito jovem, com cerca de 18 anos. Casou com o escritor Alberto Moravia em 1941e conheceu muitos dos pensadores e escritores italianos da época. Durante a guerra, acompanhou o marido no exílio. Elsa Morante foi uma mulher que nunca aceitou ter nascido num mundo onde o amor é efémero e a indiferença ou o ódio habituais. A miúda selvagem nascida num bairro pobre de Roma, a viajante, a enamorada, a angustiada companheira de Moravia, que sonhava com o sol das ilhas napolitanas e as cores da agreste Prócida, percorreu vários continentes, passou por Portugal e viveu as duas últimas guerras mundiais, partilhando a maior parte dos sofrimentos e esperanças do século xx.</p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Traduzido para português encontramos <em><a href="https://www.bertrand.pt/livro/a-historia-elsa-morante/22689760" target="_blank" rel="noopener">A História</a></em> e <em><strong><a href="https://www.bertrand.pt/livro/a-ilha-de-arturo-elsa-morante/4042998" target="_blank" rel="noopener">A Ilha de Arturo</a></strong></em>. <em>A Ilha de Arturo</em> é, conjuntamente com <em>A História</em>, um dos mais importantes romances de Elsa Morante. Na ilha mediterrânica da Prócida, assistimos à formação de Arturo, que sente uma apaixonada admiração por um pai sempre ocupado em misteriosas viagens. Já adolescente, é atraído pela sua jovem madrasta, Nunziatella. A passagem de um tempo de sonhos e ilusões para a realidade será um caminho lento e difícil para Arturo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p><span style="color: #993300; font-size: 14pt;"><strong>Margaret Mazzantini</strong> </span></p>
<p style="text-align: justify;">Margaret Mazzantini nasceu em Dublin em 1961, filha de uma artista plástica irlandesa e de um escritor italiano. Foi actriz de cinema, televisão e teatro mas é sobretudo reconhecida pela sua obra literária. Venceu o prémio <em>Strega</em> com <em>Não te Mexas</em>. Mazzantini é uma das escritoras italianas mais brilhantes, retratando de forma nítida e fiel a sociedade italiana contemporânea.</p>
<p style="text-align: justify;">Traduzido para português apenas encontramos um dos seus romances mais famosos, <em><strong><a href="https://www.bertrandeditora.pt/produtos/ficha/nao-te-mexas/13054234" target="_blank" rel="noopener">Não te Mexas</a> </strong>(2001)</em>, uma história de amor trágica e não oficial entre um homem casado de classe média e uma mulher com uma vida problemática. Este romance não tem espaço para situações ou conceitos estereotipados. A narrativa leva-nos através do espectro infinito das emoções humanas.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p><span style="font-size: 14pt; color: #993300;"><strong>Natalia Ginzburg</strong> </span></p>
<p style="text-align: justify;">Natalia Ginzburg foi uma escritora e tradutora italiana. Natalia nasceu na capital da Sicília, em 1916, ainda que sua família tenha mudado diversas vezes de cidade durante a sua infância e adolescência. Com a ascensão do movimento de extrema direita na Itália, a família juntou-se à luta antifascista. Ginzburg foi Ativista na década de 1930 e pertenceu ao Partido Comunista Italiano. Em 1983, foi eleita para o Parlamento Italiano como independente. Morreu em 1991. <a href="https://www.bertrand.pt/livro/lexico-familiar-natalia-ginzburg/22796546" target="_blank" rel="noopener"><strong><em>Léxico Familiar</em></strong></a> (1963) é o principal livro de Natalia Ginzburg e um clássico da literatura italiana contemporânea. A narrativa acompanha a vida dos Levi, que viveram em Turim entre 1930 e 1950, período em que se assiste à ascensão do fascismo, à Segunda Guerra Mundial e aos acontecimentos que se lhe seguiram. Natalia, uma das filhas do professor Levi, foi testemunha dos momentos íntimos da família e dessa conversa entre pais e irmãos que se converteu num idioma secreto. Nesta narrativa de pendor autobiográfico os acontecimentos quotidianos misturam-se com reflexões que mantêm toda a atualidade. O livro venceu em 1963 o Prémio <em>Strega</em>.</p>
<p class="p1"> </p>
<p><span style="color: #993300; font-size: 14pt;"><strong>Elena Varvello </strong></span></p>
<p style="text-align: justify;">Elena Varvello nasceu em Turim, em 1971. Publicou vários livros de poesia e os seus contos valeram-lhe os prémios Settembrini e Bagutta para primeira obra. Foi também selecionada para o prémio Strega. Em 2011 publicou o seu primeiro romance.</p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Traduzido para português encontramos o seu romance <em><strong><a href="https://www.bertrand.pt/livro/a-vida-feliz-elena-varvello/21077762" target="_blank" rel="noopener">A Vida Feliz</a></strong></em> (2016) é, nas palavras da <a href="https://deusmelivro.com/mil-folhas/a-vida-feliz-elena-varvello-23-9-2019/#.X0pz3nlKhPa" target="_blank" rel="noopener">Sofia Morais</a>, a "reflexão de um filho sobre o pai, sobre si mesmo e sobre a relação de ambos. E a perspectiva de um adolescente da vida sobre a amizade, a sexualidade, a família e o futuro. A sua integração sem interrogações na vida de estudante e na sociedade". O <a href="https://www.publico.pt/2019/07/26/culturaipsilon/critica/assim-comeca-mal-sussurro-1880927" target="_blank" rel="noopener">Público</a> considerou <em>A Vida Feliz</em> um "Diário impiedoso em tom de thriller, mas que ao mesmo tempo pode ser lido como romance de formação, e como um exercício de materialização dos fantasmas do passado".</span></p>
<p> </p>
<p><span style="font-size: 10pt;">Menções honrosas: <em>Eva Sleeps</em> de Francesca Melandri; <em>A Filha Devolvida</em> de Donatella Di Pietrantonio; <em>Café Amargo</em> de Simonetta Agnello Hornby e; <em>70% Acrílico 30% Lã</em> de Viola di Grado. </span></p>
<p class="sapomedia images"><img style="width: 244px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="bau dos livros.jpg" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B3118c105/21781115_RoJWi.jpeg" alt="bau dos livros.jpg" width="809" height="219" /></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:queirosiana:1547162020-08-28T19:37:005 Livros de escritores e escritoras da América do Sul2020-08-28T19:16:11Z2020-09-02T17:23:37Z<p><div id="qp6sHw1616975900" class="ink-carousel"><ul class="stage"><li style="list-style: none;" class="slide all-100 align-center"><img class="lazyload-item" src="" /></li><li style="list-style: none;" class="slide all-100 align-center"><img class="lazyload-item" src="" /></li><li style="list-style: none;" class="slide all-100 align-center"><img class="lazyload-item" src="" /></li><li style="list-style: none;" class="slide all-100 align-center"><img class="lazyload-item" src="" /></li><li style="list-style: none;" class="slide all-100 align-center"><img class="lazyload-item" src="" /></li></ul><nav style="position: static;" id="qp6sHw1616975900-pagination" class="ink-navigation half-top-space"><ul class="pagination chevron"></ul></nav></div>
</p>
<p style="text-align: justify;">Em razão de uma dúvida sobre o número exato de países soberanos no mundo e encontrada a resposta no site da ONU (193 países independentes), acabei por derivar numa navegação sem rumo e dei por mim a procurar um mapa com os livros mais famosos de cada país, e mais tarde terminei embevecida ante estas duas listas literárias - <a href="https://ayearofreadingtheworld.com/thelist/" target="_blank" rel="noopener">esta </a>e <a href="https://geediting.com/most-iconic-book-set-in-every-country/" target="_blank" rel="noopener">esta</a>. </p>
<p style="text-align: justify;">Por momentos, pensei em criar a minha própria lista de títulos por país, mas rapidamente desisti do descomunal empreendimento. Ainda assim, e para combater a minha tendência anglófona e europeia, bem como para equilibrar este enviesamento das minhas escolhas literárias, vou criar uma série de <a href="https://queirosiana.blogs.sapo.pt/tag/bau+dos+livros" target="_blank" rel="noopener">Baú dos Livros</a> com sugestões fundadas em continentes. </p>
<p style="text-align: justify;">Neste caso, começo com uma lista de cinco sugestões de escritores e escritoras do continente sul-americano. Informa a Wikipedia que a América do Sul é constituída por 12 países independentes e 3 territórios ultramarinos. Destes doze e para fazer jus à prática dos cinco títulos do Baú, escolhi os seguintes países - <strong>Suriname</strong>, <strong>Colômbia</strong>, <strong>Argentina</strong>, <strong>Peru</strong> e <strong>Uruguai</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Os critérios de escolha foram subjetivos e sempre que tive dificuldade em decidir, optei por mencionar as alternativas. Tentei, contudo, escolher obras que retratassem o país em função do qual foram escolhidas (tendo, portanto, evitado obras fantásticas, próprias do <em>boom</em> Latino-Americanos, sem local real de ação). </p>
<p> </p>
<p><span style="font-size: 14pt;"><strong><em>The Free Negress Elisabeth </em>(2000), Cynthia Mcleod</strong></span></p>
<p><span style="font-size: 12pt;"><em><strong>De vrije negerin Elisabeth </strong></em><strong>(título original em Holandês)</strong></span></p>
<p><span style="font-size: 12pt;"><strong><span style="font-size: 10pt;">Ficção - Romance Histórico</span></strong></span></p>
<p style="text-align: justify;">Cynthia Mcleod (1936 -) é uma escritora Surinamesa conhecida pela sua ficção histórica e o principal nome da literatura do Suriname. Ambientado no século XVIII na Guiana Holandesa, atual Suriname, este romance conta a história de Elisabeth Samson, uma mulher negra livre. Esta é uma ficção histórica de caráter biográfico que retrata as complexas estratificações sociais e raciais, características das colónias e da escravatura na época, bem como esta mulher notável que superou a discriminação institucionalizada e o preconceito para se tornar uma das pessoas mais ricas da antiga Guiana Holandesa. </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 10pt;">* Alternativa: <em><a href="https://www.bertrand.pt/autor/cynthia-mcleod/391392" target="_blank" rel="noopener">The Cost of Sugar</a></em>, Cynthia Mcleod</span></p>
<p> </p>
<p><span style="font-size: 14pt;"><strong><a href="https://www.bertrand.pt/livro/delirio-laura-restrepo/7295883" target="_blank" rel="noopener"><em>Delírio</em></a> (2004), Laura Restrepo </strong></span></p>
<p><span style="font-size: 12pt;"><strong><em>Delirio</em> (título original em Castelhano)</strong></span></p>
<p><span style="font-size: 12pt;"><strong><span style="font-size: 10pt;">Ficção - Romance </span></strong></span></p>
<p style="text-align: justify;">Laura Restrepo (1950 -) é aclamada como uma das melhores escritoras sul-americanas contemporâneas, tendo rejeitado o chamado realismo mágico. <em>Delírio, </em>com a capital da Colômbia - Bogotá - como cenário, conta-nos a história de um homem que, após uma curta viagem de negócios, regressa a casa e descobre que a sua mulher enlouqueceu. Com uma narrativa de <em>suspense</em> e um enredo bem construído, acompanhamos o esforço deste homem que inicia uma busca pelo passado numa tentativa de recuperar a sanidade da mulher. <em>Delírio</em> retrata a violência latente na sociedade colombiana dos anos 80, a marginalidade e a instabilidade social e política da época.</p>
<p><span style="font-size: 10pt;">* Alternativas: <a href="https://www.bertrand.pt/livro/the-divine-boys-laura-restrepo/23603770" target="_blank" rel="noopener"><em>The Divine Boys</em>,</a><em> </em>Laura Restrepo | <a href="https://www.bertrand.pt/livro/the-armies-evelio-rosero/2846697" target="_blank" rel="noopener">The Armies</a>, Evelio Rosero</span></p>
<p> </p>
<p><span style="font-size: 14pt;"><strong><em><a href="https://www.bertrand.pt/livro/o-tunel-ernesto-sabato/3090919" target="_blank" rel="noopener">O Túnel</a> </em>(1948), Ernesto Sabato </strong></span></p>
<p><span style="font-size: 12pt;"><strong><em>El Tunel </em>(título original em Castelhano)</strong></span></p>
<p><span style="font-size: 12pt;"><strong><span style="font-size: 10pt;">Ficção - Romance </span></strong></span></p>
<p style="text-align: justify;">Ernesto Sabato (1911 - 2011) é um dos maiores nomes da literatura argentina do século XX. <em>O Túnel</em>, cujo enredo ocorre em Buenos Aires, na Argentina, é um romance psicológico e sombrio que conta a história de um pintor e da sua obsessão por uma mulher e a solidão do indivíduo contemporâneo. Integra o rótulo de "literatura existencial", à semelhança de autores como Albert Camus ou Sartre. Para quem ainda não leu, <em>O Túnel</em> é a melhor introdução ao universo prodigioso de Ernesto Sábato</p>
<p><span style="font-size: 10pt;">* Alternativas: <a href="https://www.bertrand.pt/livro/a-invencao-de-morel-adolfo-bioy-casares/22990405" target="_blank" rel="noopener"><em>A Invenção de</em> <em>Morel</em></a>, Adolfo Bioy Casares | <a href="https://www.bertrand.pt/livro/ficcoes-jorge-luis-borges/24074498" target="_blank" rel="noopener">Ficções</a>, Jorge Luis Borges | <a href="https://www.bertrand.pt/livro/o-jogo-do-mundo-julio-cortazar/203447" target="_blank" rel="noopener">Rayuela</a>, Julio Cortázar</span></p>
<p> </p>
<p><span style="font-size: 14pt;"><strong><em><a href="https://www.bertrand.pt/livro/lituma-nos-andes-mario-vargas-llosa/10300660" target="_blank" rel="noopener">Lituma nos Andes</a> </em>(1993), Mario Vargas Llosa </strong></span></p>
<p><span style="font-size: 12pt;"><strong><em>Lituma en los Andes </em>(título original em Castelhano)</strong></span></p>
<p><span style="font-size: 12pt;"><strong><span style="font-size: 10pt;">Ficção - Romance </span></strong></span></p>
<p style="text-align: justify;">Mario Vargas Llosa (1936 -) é o grande nome da literatura peruana, galardoado em 2010 com o Nobel da Literatura. Lituma dos Andes retrata os anos 80 das comunidades peruanas reféns da organização paramilitar de esquerda. <em>Lituma nos Andes</em> é um romance policial fascinante e uma alegoria política perspicaz. O enredo desenvolve-se numa comunidade isolada nos Andes peruanos onde ocorrem uma série de desaparecimentos misteriosos e o cabo Lituma e Tomás iniciam uma investigação. Este romance fascinante está repleto de personagens inesquecíveis, entre eles índios marginalizados, gente local excêntrica, tornando <em>Lituma nos Andes</em> uma obra ímpar no percurso literário de Mario Vargas Llosa, mas também uma das suas mais ferozes críticas à violência estrutural que afectou o Peru durante tantas décadas. </p>
<p><span style="font-size: 10pt;">* Alternativas: <em>Yawar Fiesta, </em>José María Arguedas</span></p>
<p> </p>
<p><strong style="font-size: 14pt;"><em><a href="https://www.bertrand.pt/livro/a-vida-breve-juan-carlos-onetti/1457153" target="_blank" rel="noopener">A Vida Breve</a> </em>(1950), Juan Carlos Onetti </strong></p>
<div class="cell__Cell-g0fptp-0 kVYVMd">
<p><span style="font-size: 12pt;"><strong><em>La Vida Breve </em>(título original em Castelhano)</strong></span></p>
<p><span style="font-size: 12pt;"><strong><span style="font-size: 10pt;">Ficção - Romance </span></strong></span></p>
<p style="text-align: justify;">Juan Carlos Onetti (1909 - 1994) foi considerado não só o escritor mais importante da literatura do Uruguai, mas um dos maiores criadores de ficção em língua espanhola do século XX. O enredo toma lugar entre Buenos Aires e a ficcionada cidade de Santa Maria (um misto de Montevideu e Buenos Aires) e conta a história de um marido que cuida da mulher após uma longa doença. A dicotomia entre a identidade e a ausência de identidade, a recorrente preocupação com o papel desempenhado pelo destino na vida do ser humano e o mundo onírico como impulso, atingem em <em>A Vida Breve</em> um elevado grau de intensidade.</p>
<p><span style="font-size: 10pt;">* Alternativas: <em><a href="https://www.bertrand.pt/ebook/the-ship-of-fools-cristina-peri-rossi/19868866" target="_blank" rel="noopener">The Ship of Fools</a></em>, Cristina Peri Rossi |<em> <a href="https://www.bertrand.pt/livro/a-tregua-mario-benedetti/16790461" target="_blank" rel="noopener">A Trégua</a></em>, Mario Benedetti | <em><a href="https://www.bertrand.pt/livro/espelhos-eduardo-galeano/22075210" target="_blank" rel="noopener">Espelhos</a></em>, Eduardo Galeano</span></p>
<div class="cell__Cell-g0fptp-0 gsGpOg">
<p class="sapomedia images"><img style="width: 261px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="bau dos livros.jpg" src="https://c9.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B3118c105/21781115_RoJWi.jpeg" alt="bau dos livros.jpg" width="809" height="234" /></p>
</div>
</div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:queirosiana:1507872020-08-25T17:52:005 Livros de não-ficção das áreas da filosofia e política escritos por mulheres2020-08-25T14:01:29Z2020-09-02T13:56:17Z<p><div id="qpUtHZ1616975900" class="ink-carousel"><ul class="stage"><li style="list-style: none;" class="slide all-100 align-center"><img class="lazyload-item" src="" /></li><li style="list-style: none;" class="slide all-100 align-center"><img class="lazyload-item" src="" /></li><li style="list-style: none;" class="slide all-100 align-center"><img class="lazyload-item" src="" /></li><li style="list-style: none;" class="slide all-100 align-center"><img class="lazyload-item" src="" /></li><li style="list-style: none;" class="slide all-100 align-center"><img class="lazyload-item" src="" /></li></ul><nav style="position: static;" id="qpUtHZ1616975900-pagination" class="ink-navigation half-top-space"><ul class="pagination chevron"></ul></nav></div>
</p>
<div style="text-align: justify;">O espaço público nas sociedade ocidentais é hoje aberto às mulheres como nunca antes na História. Há ainda dimensões de desigualdades que importa e urge combater, mas não é esse o tema aqui. Hoje quero apresentar cinco mulheres que, em momentos históricos diferentes, mais ou menos adversos para as mulheres no espaço académico ou político, se distinguiram dos seus pares debruçando-se sobre matérias filosóficas, sociais, económicas e políticas, tornando-se num marco na História da Humanidade.</div>
<div style="text-align: justify;"> </div>
<div style="text-align: justify;">As minhas cinco sugestões de obras de não ficção escritas por mullheres no século XX são resultado de um exercício pessoal, reflexo da minha curiosidade, dos meus interesses e afinidades políticas e ideológicas. Procurei igualmente propor títulos que não tivessem ligação imediata ao feminismo pois, para o efeito, irei criar um Baú dos Livros específico. </div>
<div style="text-align: justify;"> </div>
<div style="text-align: justify;">Embora existam edições antigas traduzidas para português para quase todas as obras indicadas, encontramos poucas (ou nenhumas) edições recentes no mercado. Havendo pouca sorte nos alfarrabistas o recurso será, no meu caso, a leitura em inglês. </div>
<div style="text-align: justify;"> </div>
<div style="text-align: justify;"> </div>
<div style="text-align: justify;">
<div style="text-align: justify;"><span style="color: #993300;"><strong><em>A Condição Humana</em> (1958), Hannah Arendt </strong></span></div>
<div style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><strong><span style="font-size: 12pt;"><span style="font-size: 10pt;">Não-Ficção - Política - História</span></span></strong></span></div>
<div style="text-align: justify;"> </div>
<div style="text-align: justify;"><em>A Condição Humana</em>, livro central do pensamento de Hannah Arendt (1906-1975), afirma-se, nos primeiros capítulos, como uma crítica da modernidade, a partir da reflexão sobre ‘o que andamos a fazer’, e da discussão sistemática ‘do labor, do trabalho e da acção’, actividades que constituem traços essenciais da perenidade da condição humana. Arendt aponta para a recuperação de um mundo comum, a ágora, como espaço público do debate e do confronto entre iguais, pela reabilitação da política, a única resistência possível contra a alienação do mundo moderno, e, por inerência, do discurso, ‘pois é o discurso que faz do homem um ser político’.</div>
<div style="text-align: justify;"> </div>
<div style="text-align: justify;">
<div style="text-align: justify;"><span style="color: #993300;"><strong><em>Por uma Moral da Ambiguidade</em> (1947), Simone de Beauvoir </strong></span></div>
<div style="text-align: justify;"><span style="color: #993300;"><strong><span style="color: #000000;"><span style="font-size: 12pt;"><span style="font-size: 10pt;">Não-Ficção - Filosofia </span></span></span></strong></span></div>
<div style="text-align: justify;"> </div>
<div style="text-align: justify;">Simone de Beauvoir (1908-1986), romancista, dramaturga e filósofa, foi a escritora mais ilustre da França moderna. Uma das principais expoentes do existencialismo francês. Em <em>The Ethics of Ambiguity,</em> Beauvoir penetra imediatamente nos problemas éticos centrais da condição da pessoa moderna: o que fará e como fará para construir valores, em face dessa consciência do absurdo da sua existência? Beauvoir obriga o leitor a enfrentar o absurdo da condição humana e, ao fazê-lo, passa a desenvolver uma dialética da ambiguidade que lhe permitirá não dominar o caos, mas criar com ele. </div>
</div>
<div style="text-align: justify;"> </div>
</div>
<div style="text-align: justify;"><span style="color: #993300;"><strong><em>A Origem do Capitalismo</em> (1999), Ellen Meiksins Wood </strong></span></div>
<div style="text-align: justify;"><span style="color: #993300;"><strong><span style="color: #000000;"><span style="font-size: 12pt;"><span style="font-size: 10pt;">Não-Ficção - História - Economia</span></span></span></strong></span></div>
<div style="text-align: justify;"> </div>
<div style="text-align: justify;">Neste livro original e provocativo, Ellen Meiksins Wood (1942-2016) lembra-nos que o capitalismo não é uma consequência natural e inevitável da natureza humana, nem é simplesmente uma extensão de práticas antigas de comércio. Em vez disso, é um produto tardio e localizado de condições históricas muito específicas, que exigiram grandes transformações nas relações sociais e na interação humana com a natureza. A autora discorre sobre imperialismo, história anti-eurocêntrica, capitalismo e o estado-nação e as diferenças entre capitalismo e comércio não capitalista. Traça ainda ligações entre a origem do capitalismo e as condições contemporâneas, como a globalização, a degradação ecológica e a atual crise agrícola. </div>
<div style="text-align: justify;"> </div>
<div style="text-align: justify;"><span style="color: #993300;"><strong><em>The Virtue of Selfishness</em> (1964), Ayn Rand </strong></span></div>
<div style="text-align: justify;"><span style="color: #993300;"><strong><span style="color: #000000;"><span style="font-size: 12pt;"><span style="font-size: 10pt;">Não-Ficção - Filosofia</span></span></span></strong></span></div>
<div style="text-align: justify;"> </div>
<div style="text-align: justify;">Ayn Rand (1905-1982) expõe nesta obra os princípios morais do Objetivismo, a filosofia que considera a vida humana - a vida própria de um ser racional - como o padrão de valores morais e considera o altruísmo como incompatível com a natureza do homem, com os requisitos criativos da sua sobrevivência, e com uma sociedade livre.</div>
<div style="text-align: justify;"> </div>
<div style="text-align: justify;"><span style="color: #993300;"><strong><em>A Acumulação do Capital</em> (1913), Rosa Luxemburg </strong></span></div>
<div style="text-align: justify;"><span style="color: #993300;"><strong><span style="color: #000000;"><span style="font-size: 12pt;"><span style="font-size: 10pt;">Não-Ficção - Economia</span></span></span></strong></span></div>
<div style="text-align: justify;"> </div>
<div style="text-align: justify;">Rosa Luxemburgo (1871-1919) foi uma socialista revolucionária que lutou e morreu pelos seus ideais. Em janeiro de 1919, depois de ser presa por envolvimento numa revolta de trabalhadores em Berlim, foi brutalmente assassinada por um grupo de soldados de direita. O seu corpo foi recuperado num canal dias depois. Seis anos antes, ela tinha publicado o que foi, sem dúvida, a sua obra mais conhecida, <em>The Accumulation of Capital</em> - um livro que continua a ser uma das obras-primas da literatura socialista. Tomando Marx como ponto de partida, Luxemburg oferece uma explicação independente e de crítica feroz sobre as consequências económicas e políticas do capitalismo no contexto dos tempos turbulentos em que viveu, reinterpretando eventos nos Estados Unidos, Europa, China, Rússia e Império Britânico. Muitos hoje acreditam que não há alternativa ao capitalismo global. Este livro é uma declaração oportuna e vigorosa de uma visão oposta.</div>
<div style="text-align: justify;"> </div>
<div style="text-align: justify;">
<p class="sapomedia images"><img style="width: 214px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="bau dos livros.jpg" src="https://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B3118c105/21781115_RoJWi.jpeg" alt="bau dos livros.jpg" width="809" height="192" /></p>
</div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:queirosiana:1538782020-08-17T18:35:00Longe da Multidão (1874), Thomas Hardy2020-08-17T14:56:02Z2020-09-07T19:59:35Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 497px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="01340022.jpg" src="https://c4.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B82174dfa/21882203_cdEue.jpeg" alt="01340022.jpg" width="400" height="750" /></p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">Encantador, pura e simplesmente encantador. Esta tradução então, está magnificamente bem conseguida. Qualquer leitora ou leitor gosta de histórias bem contadas e esta pertence sem dúvida ao rol! Nunca tinha lido Thomas Hardy, embora já fosse espectadora atenta das adaptações de algumas das suas obras (não desta), mas depois de uma ténue e cativante referência feita pela minha orientadora, decidi trazê-lo para cima da mesinha de cabeceira. </p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">Bathsheba Everdene, herdeira de uma propriedade rural, detentora de um caráter singular e de uma rara beleza, é a personagem crucial deste romance, lado a lado com Gabriel Oak. Ao longo da história, de grande profundeza emocional e humana, vamos acompanhando os avanços e recuos da vida de Bathsheba e dos seus amores impulsivos e distraídos, seja com o Sargento Troy ou Mr. Boldwood (que exasperante este último!). </p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">Thomas Hardy é conhecido pela sua escrita poderosa e trágica. Em <em>Longe da Multidão</em> as descrições dos espaços e natureza são tão sensíveis e sensitivas que é um deleite ler parágrafo atrás de parágrafo. A escrita de Hardy é sedutora em todos os graus. A descrição do bucólico, do rural, da natureza é magistral. A cena da tempestade e trovoada, inolvidável! Bem como a da tragédia inicial das ovelhas de Oak, ovelhas essas que retornam como objeto de um delicioso jogo de sentimentos entre Oak e Bathsheba. </p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">Bathsheba Everdene é uma fascinante personagem feminina, mistura o desvario íntegro de uma Karenina e a independência obstinada de uma Margaret Hale. Numa passagem do livro, Bathsheba declara ser <em>difícil para uma mulher definir os seus sentimentos numa linguagem que é, essencialmente, feita para os homens expressarem os seus; </em>não obstante, Hardy com os seus olhos e mãos masculinas foi brilhante na construção desta personagem feminina, colocando-a numa contra corrente, num exercício de constante desafio num universo enraizadamente patriarcal. </p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">Gabriel Oak é outro encanto. Se queremos falar de constância, dedicação e sacrifício, falemos de Gabriel Oak. No início do livro, Thomas Hardy não se isenta de criar um certo ambiente ridículo e inusitado em torno de Oak, a descrição do seu relógio de bolso é impagável! Mas, simultaneamente, coloca-o em constante provação sem nunca lhe retirar a virtude e dignidade.</p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">Hardy explora o ridículo de forma magistral e rouba à leitora e leitor algumas gargalhadas, mas no segundo seguinte, cativa-nos com contornos trágicos e aterradores porque nunca lhes furta a beleza humana - recordo aqui a passagem em que Fanny Robin percorre um par de milhas a pé, num esforço sobre humano, com a ajuda de amigo de quatro patas, mas com um ímpeto que dilacera o coração da leitora ou leitor mais impenetrável; também a cena da abertura do caixão em casa de Bathsheba é sufocante de sentimentos que torcem e retorcem a razão e emoção humana.</p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">Julguei que o final deste romance fosse imensamente mais trágico, a todo o momento esperava algo de estilo <em>shakespeariano</em>, uma morte de uma falésia abaixo numa repetição humana do desvario das ovelhas encaminhadas inadvertidamente para o precipício, mas tal não aconteceu. Pelo contrário, o final foi o equivalente a um abraço caloroso de um amigo a quem já não se via há muito tempo. Que construção de enredo virtuoso! Leiam logo que tenham oportunidade, deste lado colocarei no colo <em>Tess dos D'Urbervilles </em>assim que surja uma nesga de tempo extra das leituras que já planeei para este ano. </p>
<p style="text-align: center;">***</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:queirosiana:1535912020-08-14T11:40:00The Voyage Out (1915), Virginia Woolf2020-08-14T10:50:27Z2020-09-07T20:00:18Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 569px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="71YlBAURCjL.jpg" src="https://c10.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bc61754a4/21879661_VmWYh.jpeg" alt="71YlBAURCjL.jpg" width="467" height="864" /></p>
<p style="text-align: justify;">O primeiro romance de Virginia Woolf, <em>The Voyage Out</em>, ou em português <em>A Viagem,</em> é exatamente isso, o início de um percurso de uma das maiores escritoras da literatura moderna ocidental. Neste romance de estreia, ainda não encontramos o estilo vincado da escrita de Woolf, as suas famosas correntes de pensamento, mas aqui Woolf rompe, claramente, com os ditames do romance do século XIX e revela a travessia que se inicia nos romances escritos por ela, à sua imagem. Confesso que nos primeiros capítulos senti que lia Jane Austen até encontrar um beijo inusitado numa das páginas iniciais e descobrir, a partir daí, um outro estilo de escrita e uma outra liberdade. </p>
<p style="text-align: justify;">Em <em>The Voyage Out</em> temos duas personagens femininas de relevo, Rachel Vinrace e Helen Ambrose, sobrinha e tia. O rumo do enredo leva-nos também a conhecer uma das futuras, principais e mais marcantes personagens de Woolf, Clarissa Dalloway, que se cruza com Rachel no decurso da viagem - mas não só, em <em>The Voyage Out,</em> tive vislumbres de <em>A Room of One's Own</em>, <em>The Waves</em> e mesmo da nota de suicídio de Woolf deixada ao seu marido, não digo que exista algo de premonitório neste romance, mas certamente que ele representa já um conjunto de ideias comuns à literatura woolfiniana. </p>
<p style="text-align: justify;">Rachel Vinrace é uma mulher de 24 anos de idade que, deixada aos cuidados de duas tias no recato de uma região interior de Inglaterra, cresce sem uma cuidada educação formal, mas brilhante nas artes da música, ainda que pouco habituada às formalidades e subtilezas do convívio social. Assim, aos 24 anos embarca numa viagem de barco para a América do Sul, com o pai e tios, viagem essa onde se irá conhecer e descobrir. <em>The Voyage Out</em> está populado de uma lista enorme de personagens, hóspedes do hotel em Santa Marina, por vezes difícil de acompanhar, tornando a leitura confusa, sobretudo quando lido na língua original. Nesta viagem tive também o espanto e a surpresa de me ver transportada para a costa marítima do Tejo em Portugal, na qual a nossa personagem aporta circunstancialmente. Não deixou de ser interessante encontrar Lisboa num romance de Woolf. </p>
<p style="text-align: justify;"><em>The Voyage Out</em> conta-nos uma história de amor, mas conta-nos, em simultâneo, como duas existências, compatíveis nos desejos e pensamentos, podem amar-se sem perder identidade, sem se submeter. O amor entre Rachel e o seu companheiro é invejável pela tranquilidade e suficiência, ainda que sejamos todos meros retalhos de luz num mundo feito de sólidos blocos de matéria (roubando o pensamento de Woolf).</p>
<p style="text-align: justify;">É o silêncio, as palavras que não chegam ou que se escondem e não se dizem alto, é no fundo, ainda que residual, a existência independente e autónoma, pessoalíssima e intransponível do outro que, por muito amor que exista, não é alcançável, e permanece sempre um mistério para a contraparte e um último reduto de liberdade para o outro. Uma existência só nossa, profundamente íntima, que não tem partilha possível e que só existe em nós e connosco. E amar outrem é também amar o desconhecido e a falibilidade do outro, ou melhor, amá-lo independentemente disso. Não sei se foi isto que Woolf quis contar neste romance, mas sem dúvida foi o que retive. </p>
<p style="text-align: justify;">Ainda que sem adotar qualquer discurso radical, <em>The Voyage Out</em> é uma história de emancipação feminina, em muitos momentos, nas palavras e pensamentos de Rachel, mas ainda mais de Helen, senti intemporalidade, aquelas duas mulheres, com outros adereços, certamente, podiam perfeitamente encarnar o nosso século XXI.</p>
<p style="text-align: justify;">Curioso como o título do livro, <em>The Voyage Out</em>, parece trazer implícita uma expansão, uma aventura e descoberta exógena. Muitas vezes perguntei se, <em>The Voyage In</em> não seria mais apropriado, num uso talvez impróprio e não nativo das palavras, no sentido de que, esta é a história de uma viagem interior profunda - com e sem retorno. </p>
<p style="text-align: justify;">Não sei como seria se tivesse sido este o meu livro de introdução à escrita de Woolf, mas creio que teria sido uma boa escolha e um bom conselho. </p>
<p style="text-align: center;">***</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:queirosiana:1529252020-08-01T10:29:00Sultana's Dream (1905), Rokeya Sakhawat Hossain2020-08-01T09:34:51Z2020-09-07T20:00:28Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 450px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="710RtueHZbL.jpg" src="https://c9.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bca17ad1d/21864991_Zyi4w.jpeg" alt="710RtueHZbL.jpg" width="450" height="720" /></p>
<p style="text-align: justify;">Uma pequena história em torno de uma utopia de base matriarcal escrita por uma mulher muçulmana nos primeiros anos do século XX numa Índia de profundas desigualdades. E a grande surpresa foi para mim essa, em face do contexto temporal, histórico, religioso e pessoal da autora, a criação de um conto tão ousado. </p>
<p style="text-align: justify;">Claro que podemos questionar por que razão a ficção científica envolvendo utopias matriarcais tende a criá-las livres de vícios e crime como uma quase consequência da natureza feminina. Mas talvez se justifique antes por se apresentar a idealização de um mundo melhor, de uma sociedade mais organizada e equilibrada. </p>
<p style="text-align: justify;">Mas o cerne desta pequena história é confrontar a leitora de então (e a atual, talvez) com uma realidade alternativa em oposição direta àquela em que vive - se a sua realidade é a da segregação das mulheres, da sua limitação de ação e existência no espaço público, da sua inferiorizarão e crença constante na(s) sua(s) incapacidade(s), então Hossain cria um novo mundo em que é sobre os homens que pende a discriminação e preconceito, com a diferença de que tal se justifica porque os homens tiveram o poder e não o souberam utilizar. </p>
<p style="text-align: center;">***</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:queirosiana:1527392020-07-29T21:40:00História da Menina Perdida (2016), Elena Ferrante2020-07-29T20:55:05Z2020-09-07T20:00:33Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 531px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="monfunjsxhk41.png" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B5e186947/21864333_FcsOA.png" alt="monfunjsxhk41.png" width="463" height="813" /></p>
<p style="text-align: justify;">Aqui está uma história que se entranhou de tal forma em mim que vai demorar tempo até a <em>Amiga Genial</em> me sair da pele. Que história tão bem contada, que é tanto, tanto e tão, tão. Terminei este livro e mantive-o aberto um par de minutos num misto de sensações entre o abandono e a inquietude. </p>
<p style="text-align: justify;">Como leitoras e leitores, convidadas a acompanhar a vida de Lenú e Lila da infância à velhice, explorando os meandros mais profundos e intrincados da relação de amizade que une estas duas personagens, somos fascinadas pela forma como Ferrante nos envolve, torce e retorce e nos vicia e torna cativas, absorvidas pela ambivalência do ser humano. </p>
<p style="text-align: justify;">Neste último volume, que se inicia na década de 70 e avança até aos nossos dias, seguimos a vida das duas meninas, agora mulheres maduras, com especial foco na maternidade e na emancipação. Mas não só, a violência que perpassa toda a história é aqui, devastadora. </p>
<p style="text-align: justify;">O poder emocional da narrativa de Ferrante é arrebatador. Com o seu estilo analítico, intimista e imersivo vai desvelando a ambiguidade da existência humana, numa busca compulsiva pela completude e coerência que se reflete nas suas duas personagens, Lila e Lenú. Gosto de as caracterizar como uma dualidade simbiótica indivisível. Pode parecer descabido, mas terminei o livro sem saber onde começava Lenú e terminava Lila - desconhecendo os contornos de uma e da outra.</p>
<p style="text-align: justify;">Vou entrar num pântano reflexivo e algo confuso, mas quando digo que para mim Lila-Lenú são uma dualidade simbiótica indivisível, refiro-me obviamente ao facto de serem duas personagens independentes mas unidas por um forte laço de amizade, assente numa reciprocidade que é valida para o bem e para o mal. Na amizade, damos e recebemos, entregamos (consciente ou inconscientemente) aos outros partículas de alma, fragmentamo-nos quando amamos e esses impercetíveis átomos de nós, deixam de nos pertencer e ficam ao cuidado dos outros. Somos nós neles - numa espécie de alquimia e transmutação. Não consigo separar Lenú de Lila, indivisíveis pela sua simbiose. </p>
<p style="text-align: justify;">Na serena posição de espectadores, assistimos ao longo dos quatro volumes, mas (talvez) sobretudo, neste último, de como as expectativas, incertezas e inseguranças são determinantes e os verdadeiros fios condutores da nossa vida, porque estão na base das cedências e intransigências que acumulamos ao longo do caminho da existência. Também aqui recordo a impressão nítida, no decurso da leitura, de como o poder das palavras não ditas, o silêncio calado das ações e omissões, são uma forma de consolidação da nossa relação connosco e com os outros. Ao mesmo tempo, e depois deste final, não consigo deixar de olhar para estes quatro volumes e encontrar neles uma beleza e humanidade imensa, na medida em que nos contam como, sucessivamente, o bem e a bondade regeneram sobre o mal e a maldade. </p>
<p style="text-align: justify;">Com a <em>História da Menina Perdida</em>, Ferrante encerra a tetralogia de a <em>Amiga Genial, </em>e fá-lo de forma brilhante. Recordando aqui uma citação que me atingiu e não escapou ainda, <em>I should write the way she speaks, leave abysses, construct bridges and not finish them, force the reader to establish the flow. </em>Para mim (e de forma simplista), resume-se a isto, Ferrante construiu pontes, não as terminou, e deixou o leitor no abismo - o que é, simultaneamente, uma catarse e um desassossego.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:queirosiana:1523952020-07-21T14:31:00As Máscaras do Destino (1931), Florbela Espanca2020-07-21T13:48:38Z2020-09-07T20:00:41Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 457px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="5544518245-mascaras-do-destino-florbela-espanca.jp" src="https://c8.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B15172d98/21859429_sMUZu.jpeg" alt="5544518245-mascaras-do-destino-florbela-espanca.jp" width="457" height="720" /></p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">É hábito falar de Florbela Espanca e de poesia. Não é este o caso. Neste singelo livro, Espanca presenteia-nos com oito contos cujo elo comum é a morte. </p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">Embora escrito após e em razão da morte do seu irmão, Apeles, em 1927, num acidade de aviação, <em>As Máscaras do Destino</em> só viria a ser publicado postumamente, em 1931. </p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">Espanca não nos engana e explica logo de início a quem a leia que aquele é um livro dedicado ao seu morto, o seu irmão. O primeiro conto, inteiramente ficcionado em torno de Apeles e do acidente que o arrancou à vida. </p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">Podemos achar, à partida, tratar-se de uma leitura mórbida. Não é, não é em absoluto. É triste, mas é bela. Para quem já leu Espanca, não se admirará com a riqueza poética da sua narrativa, com a beleza intríseca das palavras e das ideias, com um certo romancear nas construções frásicas. Florbela Espanca é uma romântica, ainda que não tenha integrado nenhum movimento literário. </p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">Uma leitura tão singela e profunda que fui abandonando na mesinha de cabeceira, apesar de me ter apegado tanto ao livro e da perda comum que nos une. Fiquei particularmente tocada por três contos, que li e reli, <em>A Paixão de Manuel Garcia, A Morta</em> e o <em>Aviador</em>. </p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: center;">***</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:queirosiana:1522722020-07-15T12:07:00Herland (1915), Charlotte Perkins Gilman2020-07-15T11:22:58Z2020-09-07T20:00:46Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 475px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="502x.jfif" src="https://c10.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B40183442/21859170_aoIhm.jpeg" alt="502x.jfif" width="475" height="720" /></p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">Cada leitora tem o seu tempo, por vezes a leitura varre as páginas de um livro numa noite ou numa mão de dias, outras vezes, nem tanto. Neste caso, não posso deixar de mostrar surpresa pelo tempo desta leitura de pouco menos de 150 páginas - mais de um mês mediou o início do final. Não foi desinteresse na história, foi falta de espírito (o que também acontece). </p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">Não li a edição que ilustra esta publicação, li a edição em inglês <em>Herland</em> da <em>The Women's Press Ltd</em>., porque na altura em que conheci e comprei o livro ainda não existia edição em língua portuguesa. </p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">Já anteriormente falei deste livro no Queirosiana quando apresentei <a href="https://queirosiana.blogs.sapo.pt/5-livros-sobre-universos-matriarcais-146711" target="_blank" rel="noopener">5 livros sobre universos matriarcais</a>. Tinha algumas expectativas com esta obra, seria errado dizer que saíram logradas, mas esperava um pouco mais.</p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">A premissa do livro é simples, três homens exploradores encontram um país singular composto apenas por mulheres. Mas este não é um país qualquer, geograficamente inacessível a não ser por via aérea, esta comunidade matriarcal existe e prospera há séculos sem a presença, ou sequer existência masculina. E quando digo "prospera" refiro-me exatamente a uma sociedade sem classes, inveja, guerra, luxúria ou ódio e que atingiu o equilíbrio e coesão social e ambiental tão desejados. Refiro-me aqui ao aspeto ambiental porque foi algo que me suscitou enorme interesse, na medida em que julgo tratar-se de uma temática mais atual e muito pouco explorada nos inícios do século XX, mas que é aqui abordada de forma moderna. </p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">Nesta utopia feminista, repleta de sentido de humor, Gilman explora as noções do que é feminino e do que é masculino, do que é viril e efeminado, os comportamentos culturalmente apreendidos dos biologicamente determinados. E essa confrontação, tão simples, tão cândida e sem qualquer espécie de retaliação, é deliciosa. </p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">A noção de coletivo (ou de comunidade), de maternidade e de educação das crianças são talvez os três pilares fundamentais sobre os quais <em>Herland</em> está erigida. Indissociável estão os fortes laços sororais entre as <em>Herlanders</em>. Nas palavras de Ann J. Lane, Gilman transforma a esfera privada de mães e crianças, isoladas no lar individual, numa esfera comunitária de mães e crianças num mundo socializado. Num mundo no qual os valores sociais humanos foram alcançados pelas mulheres no interesse de todas as pessoas.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste universo utópico não me afeta a inexistência de luxúria, provocação e sedução, é até bem vinda! Mas surpreendeu-me a ausência da sexualidade, como se esta não tivesse uma existência autónoma, pessoalíssima e íntima. Ademais, a sexualidade surge nesta obra como se dependesse única e exclusivamente do outro. Este universo matriarcal peca por isso, no meu entender, por associar a sexualidade exclusivamente à existência do outro (e de outro sexo), como se esta fosse um "vício" despoletado por aquele. Porém, devo concluir que atenta a intencional desvalorização do individualismo nesta obra, quase como corruptor das relações humanas, talvez esse entendimento justifique a anulação da sexualidade da criação desta utopia - ainda assim, estou pouco convencida. </p>
<p style="text-align: justify;"><em>Herland</em> tem uma sequela, <em>With Her in Outlan</em>d (1916) que relata a experiência inversa, a nativa de <em>Herland</em> que explora o nosso mundo, a curiosidade é comedida, confesso, mas pretendo lê-lo para o ano. </p>
<p style="text-align: center;">***</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:queirosiana:151964Margarida M.2020-07-10T11:48:00A Rapariga que Roubava Livros (2005), Markus Zusak2020-07-10T10:58:30Z2020-09-07T20:00:58Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 505px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="481267.jfif" src="https://c6.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B6217ea45/21856876_JPUOE.png" alt="481267.jfif" width="428" height="834" /></p>
<p style="text-align: justify;">“A Rapariga que Roubava Livros” retrata mais uma história sobre a Segunda Guerra Mundial e os horrores vividos. Foi o que pensei quando primeiro conheci este livro. No entanto acabou por se tornar um dos meus livros favoritos. Deixou uma marca emocional em mim de forma que me ocorre com frequência à memória esta história.</p>
<p style="text-align: justify;">Antes de mais, devo confessar que cometi um erro de amante de leitura. Vi o filme antes de ler a obra. No entanto, acho que o facto de ter visto a representação no ecrã influenciou a maneira como interpretei a história, dando-lhe um valor sentimental acrescido!</p>
<p style="text-align: justify;">Desde o início o livro capta a atenção e o interesse do leitor. O escritor, Markus Zusak, torna este livro intemporal com a sua escrita que nos dá a perspetiva das personagens da história, mas também de algo mais, que de início não percebi. Apenas direi que este “espectador” embora fictício irá tornar-se um elemento importante no decorrer do livro. Penso que o mais “tocante” nesta história, para além de ser baseada em eventos reais, é o facto de retratar episódios da vida de duas crianças cuja felicidade e liberdade é de repente interrompida e virada do avesso. A chegada de Hitler ao poder e o início de mais uma guerra viria a devastar cidades e países, incluindo a rua, onde ambos viviam, <em>Himmel</em> que, ironicamente significa <em>Céu</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">A história apresenta duas personagens principais Liesel e Rudy que se tornarão melhores amigos. Liesel não chegara à rua Himmel pelas melhores das razões. Como forma de a proteger a ela e ao seu irmão mais novo a sua mãe deixa-os a cargo de um casal que vivia precisamente na rua Himmel e que os iria acolher como filhos. Estes dois companheiros, Liesel e Rudy, irão viver a típica vida de crianças tendo em conta a época histórica, ir à escola, fazer os trabalhos, ajudar em casa e claro, brincar na rua. Embora a mudança repentina de vida, Liesel estava feliz com o novo amigo que tinha feito que parecia ser o único que a compreendia.</p>
<p style="text-align: justify;">A história muda quando uma nova personagem entra na história e na casa de Liesel, e com os avisos de invasão por parte das milícias Nazi na rua Himmel. O livro continua e a leitura torna-se mais captante, deixando no leitor uma vontade de continuar a ler. É maravilhoso ler como duas crianças vivem (ou sobrevivem) perante uma guerra, com ataques aéreos constantes e vidas vividas de forma reservada com medo de revelar algo que os possa incriminar.</p>
<p style="text-align: justify;">A vontade de continuarem a ser livres e felizes reflete um sentimento de coragem o qual apenas as crianças conseguem possuir. No caso de Liesel a sua coragem irá chegar ainda mais longe. Com a vontade imensa de consumir literatura, irá ultrapassar todas as barreiras para poder ter nas mãos o que para si é um dos maiores tesouros que alguém pode ter – um simples agregado de palavras, frases e folhas envoltas em uma capa com um título.</p>
<p style="text-align: justify;">Não querendo revelar muito mais com o entusiasmo da escrita, irei deixar por aqui o meu testemunho deste livro, com a esperança de que inspirei leitores de todas as idades a dar uma oportunidade a esta obra que é sem dúvida merecida de leitura!</p>
<p style="text-align: center;">***</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:queirosiana:1513132020-06-13T15:23:00The Golden Notebook (1962), Doris Lessing2020-06-13T14:28:05Z2020-09-07T20:01:03Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 472px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="71r8v7nY6NL._SL1500_.jpg" src="https://c6.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B8b17e172/21823806_bDfyW.jpeg" alt="71r8v7nY6NL._SL1500_.jpg" width="472" height="720" /></p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">Este é o oitavo livro de Doris Lessing que tomo em mãos. Comecei a ler esta escritora com dezassete anos e depois nos vinte anos fiz um périplo pelas suas obras principais, requisitando livro atrás de livro na Biblioteca Geral da UC, fazendo dela uma amiga sempre disponível nos períodos sem aulas da faculdade. Em muitos momentos, percebo hoje, foi uma leitura precoce e incompleta. Um destes dias terei forçosamente de revisitar algumas obras de Lessing. Mas uma coisa eu sei, gosto do seu estilo de escrita, sem subterfúgios e de uma honestidade imensa. Durante aqueles anos de faculdade carreguei comigo uma certa insatisfação, a de não ter à disposição uma edição traduzida de <em>The Golden Notebook</em>, vastamente considerado o <em>opus magnum</em> de Doris Lessing. Em vão procurei tradução e é para mim, ainda hoje, um enigma a razão pela qual esta obra basilar de uma escritora Nobel da Literatura não ter tradução em Portugal. Fui adiando a leitura pois não me sentia disponível para ler uma obra de 600 páginas em língua inglesa. Este ano, finalmente, concretizei este objetivo que me perseguia há uns tempos - e que feliz empreendimento!</p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;"><em>The Golden Notebook</em> é um livro de uma época construído de forma introspetiva - talvez seja esta a melhor forma de o caracterizar. É uma leitura interessante, não a minha obra preferida, há um certo desfasamento cultural e político que o tornam num excelente retrato de uma época, mas não numa obra intemporal. Esta é a história de Anna Wulf, uma mulher londrina nos anos 60 (reflexo das incertezas, convulsões e mudanças vividas nos anos sessenta nos aspetos sociais e políticos) que, no meio de desilusões e contradições, procura encontrar o fio condutor da sua identidade - abordando temas como a luta de classes, a discriminação racial nas colónias britânicas em África, a desilusão com o Partido Comunista, as contradições entre ser uma mulher "livre" e uma mulher "apaixonada". </p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;"><em>The Golden Notebook</em> assume uma narrativa desestruturada, fragmentada e compartimentada. Existe um enredo condutor (<em>Free Women</em>), a partir do qual todos os outros derivam, ainda que muitas vezes se assumam autónomos.</p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">Fragmentação é a chave mestra deste romance de Doris Lessing. No decurso da história reconhecemos, em todos os aspetos da vida de Anna, uma fratura - seja na sua saúde mental, seja no desmoronar de um ideal comunista, seja nas relações pessoais e sexuais. Numa tentativa de se autocompreender, Anna coloca a escrito as suas várias dimensões pessoais, mas não o faz de forma una - opta por se compartimentar, por fragmentar a sua existência em quatro cadernos distintos, na esperança vã de, por via da divisão da sua existência, das suas desilusões, incongruências e desespero, conseguir organizar a confusão do seu ser e alcançar a plenitude (ou felicidade?). </p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">Cada caderno, cada fragmento, corresponde a um aspeto diferente da vida da personagem: o caderno preto, a sua escrita e a condição de escritora e as suas memórias da Rodésia do sul; o caderno vermelho, as suas opiniões e desilusões políticas com o partido comunista; o caderno amarelo, a sua vida emocional e amorosa; e o caderno azul, o seu dia-a-dia. </p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">O caderno dourado (<em>golden notebook</em>) propriamente dito, surge no final, como o resultado de uma evolução, de um crescimento pessoal, o aglutinador de todos os compartimentos da vida de Anna, servindo como pináculo do (re)encontro de uma mulher com a sua identidade e, poderei dizer, da sua libertação. </p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">É curioso notar como <em>The Golden Notebook</em> foi utilizado no movimento feminista de então e de como Lessing se esforçou por se distanciar do mesmo. O prefácio que ela própria faz ao seu livro, dez anos após a publicação, é inequívoco - Doris Lessing apela a que não se resuma a história de <em>The Golden Notebook</em> a uma "guerra de sexos". <em>The Golden Notebook</em> é mais do que isso, sem dúvida que sim. É o retrato de uma mulher numa dada época e a sua busca por uma identidade - uma identidade com várias dimensões, profundamente adversa, complexa e intrincada, como todas as pessoas, verdadeiramente; e o retrato de uma sociedade que se desintegra e que se encontra em profunda convulsão política e social em busca de um mundo melhor. </p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">Em muitos momentos, foi uma leitura cativante e de tal forma estimulante que era impossível arrancar-me das páginas. Porém, não foi uma experiência constante, algumas passagens são bastante morosas, nessas alturas o livro pareceu-me excessivamente extenso. No final, contudo, é uma leitura gratificante, há um final resolvido e pleno e as reflexões a que este livro obriga são inestimáveis. </p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: center;">***</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:queirosiana:151786Margarida M.2020-06-08T18:27:00A Invenção da Natureza (2015), Andrea Wulf2020-06-08T17:51:58Z2020-09-03T20:36:41Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 472px; padding: 10px 10px;" src="https://1.bp.blogspot.com/-2-4XpAZD9sM/WB8C6ZoqkhI/AAAAAAABIq8/p-u7VlLDttUFzpXKcPlsGflFxTNjfNbKACLcB/s1600/Scanner_20160920.png" width="472" height="720" /></p>
<p style="text-align: justify;">Este livro não só é uma excelente biografia do fantástico Alexander Von Humboldt, como também é um livro que retrata o pensamento deste naturalista e aventureiro. Alexander poderá até ser considerado um visionário e profeta, pelos argumentos e pensamentos que exprimia, relativamente às ações humanas no meio ambiente (que irei referir mais adiante).</p>
<p style="text-align: justify;">Citando o <em>New York Review of Books (2015) </em>esta é “Uma biografia espantosa. (…) Humboldt pode ter sido esquecido, mas as suas ideias nunca estiveram tão vivas”. O próprio título refere Humboldt como “o herói esquecido da ciência”, o que de facto é verdade, não me lembro de uma vez ter visto o seu nome nos livros escolares de história, é por isso que acho importante a recomendação deste livro, é maravilhoso ler sobre todos os seus feitos e aventuras.</p>
<p style="text-align: justify;">O livro começa por abordar a infância e o crescimento de Humboldt. Nascido a 14 de setembro de 1769 no Reino da Prússia, era o irmão mais novo de Wilhelm Von Humboldt. O seu pai era militar e a sua mãe descendente de uma família endinheirada. Desde o início o estatuto de Alexander prometia um futuro com várias portas abertas, começando pela facilidade de adquirir estudos. O seu pai incentivou nos dois filhos uma educação com base nas ideias do iluminismo, “(…) que lhes instilaram o amor pela verdade, pela liberdade e pelo conhecimento.” (Wulf, A. 2015). Retrata ainda a sua vida em jovem antes de ter embarcado na viagem que mudaria a sua vida. Era amigo chegado de Johann Wolfgang “Goethe” um famoso escritor alemão autor de obras como “Fausto”, no entanto para surpresa de muitos era também um aficionado da natureza algo que tinha em comum com Humboldt. Os dois discutiam métodos e técnicas de observação de plantas, flores, animais e outros temas durante horas e horas.</p>
<p style="text-align: justify;">O livro torna-se entusiasmante, quando Alexander embarca numa expedição à América do Sul onde permaneceria por 5 anos, subindo montanhas, andando por florestas tropicais e até se aventurou por rios bravos. Juntou milhares de exemplares de plantas, das quais grande parte não eram conhecidas na Europa. Durante esta temporada nas Américas, Humboldt fez alusão às condições dos escravos e condenou esta ação, apoiando que os povos se revoltassem pela sua liberdade. Teve ainda contacto com Simón Bolívar (militar e líder político), que uns anos mais tarde viria a lutar pela independência das nações sul americanas. Foi ainda durante a sua expedição que desenvolveu o que viria a chamar de “Naturgemälde” – uma pintura da natureza onde são incorporados dados sobre os mais variados elementos. Alexander usou esta técnica quando pintou a montanha do Chimborazo no atual Equador, onde colocou em colunas laterais informação sobre a altitude, latitude, estado da atmosfera entre outros elementos e ainda as várias plantas que podiam ser encontrados nos vários “patamares” da montanha. Alexander Von Humboldt foi a primeira pessoa a falar publicamente sobre a relação entre o homem e a natureza e os efeitos das ações antrópicas no ambiente e atmosfera, fazendo referência ao que hoje tratamos por “alterações climáticas” e a necessidade de alcançar a sustentabilidade enquanto sociedade. Hoje mais do que nunca os argumentos de Humboldt são valorizados.</p>
<p style="text-align: justify;">Após regressar da expedição de 5 anos, Humboldt continuou os seus estudos, dava palestras em diversas universidades, incluindo a universidade de Berlim fundada pelo seu irmão Wilhelm, e tornou-se ainda membro da corte real. No seu regresso, Humboldt apercebeu-se também da sua influência, era agora adorado por todos e conhecido por toda a “gente importante” e mantinha contactos com pessoas como Thomas Jefferson.</p>
<p style="text-align: justify;">O livro conta ainda com várias personalidades do mundo da ciência que foram inspiradas por Humboldt. A que talvez se destaque mais é Charles Darwin, autor da influente obra “A Origem das Espécies”. Em jovem era um grande aficionado de Humboldt, tinha todos os exemplares das suas obras. A vontade e o interesse em estudar a evolução das espécies, teve início quando estudava as teorias de Alexander querendo ir mais longe, dando continuidade a alguns dos seus estudos.</p>
<p style="text-align: justify;">É de salientar que Alexander viveu grande parte da sua vida no limiar da pobreza pois gastava o que ganhava a ajudar outros jovens cientistas, que queriam viajar e estudar o mundo tal como Humboldt fez desde jovem.</p>
<p style="text-align: justify;">Poderia continuar a escrever muito mais sobre este magnífico naturalista, no entanto acho que esta pequena avaliação pessoal é suficiente para demonstrar que este “herói” não deve ser esquecido, mas sim celebrado! Antes demais quero apenas referir o bom trabalho da escritora deste livro – Andrea Wulf – por ter conseguido trazer a todos os leitores a história de Alexander Von Humboldt. Este livro engloba todo o conhecimento necessário adquirir para aqueles que gostem de ciência, mas também para aqueles que gostem de ler sobre personalidades cuja história vale a pena ser contada, lida neste caso! 😉</p>
<p style="text-align: center;">***</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:queirosiana:1495592020-05-31T18:10:005 mulheres escritoras para (re)descobrir a literatura francesa contemporânea2020-05-25T20:33:20Z2020-08-30T21:51:57Z<p><div id="qpaW9c1616975900" class="ink-carousel"><ul class="stage"><li style="list-style: none;" class="slide all-100 align-center"><img class="lazyload-item" src="" /></li><li style="list-style: none;" class="slide all-100 align-center"><img class="lazyload-item" src="" /></li><li style="list-style: none;" class="slide all-100 align-center"><img class="lazyload-item" src="" /></li><li style="list-style: none;" class="slide all-100 align-center"><img class="lazyload-item" src="" /></li><li style="list-style: none;" class="slide all-100 align-center"><img class="lazyload-item" src="" /></li></ul><nav style="position: static;" id="qpaW9c1616975900-pagination" class="ink-navigation half-top-space"><ul class="pagination chevron"></ul></nav></div>
</p>
<p style="text-align: justify;">Na literatura tenho sido refém do legado anglo-saxónico - talvez <em>refém</em> não seja expressão mais correta, porque o tenho sido de livre vontade. No entanto, há sempre um <em>je ne sais pas quoi</em> da cultura francesa que, caindo que nem um patinho na crítica de Eça ao povo português, me encanta sobremaneira - na música, no cinema e na gastronomia. Contudo, tal encantamento não se reflete nas estantes da minha casa, são poucos os autores franceses e ainda menos as autoras. Assim, inspirada pelas minhas infindáveis listas de mulheres escritoras, selecionei um grupo de cinco escritoras francesas contemporâneas, com livros publicados nos últimos dez anos e com edições em língua portuguesa, para mergulhar aos poucos na atual literatura francesa escrita no feminino. </p>
<p> </p>
<p><strong>Annie Ernaux</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Nascida em 1940, graduada em literatura e professora durante grande parte da sua vida. Muitos falam da escrita de Ernaux como autoficção, no sentido de que mistura ficção e biografia, mas a própria escritora recusa esse rótulo. Ainda assim, a verdade é que a sua escrita assume características profundamente introspetivas. Transversal aos seus romances é o toque sociológico, a preocupação por questões sociais e, consequentemente, questões políticas também. Annie Ernaux foi premiada com inúmeros prémios literários, contando o mais recente Prémio Hemingway em 2018. </p>
<p style="text-align: justify;">Infelizmente não existem muitas edições traduzidas para português da obra de Ernaux, ainda assim podemos encontrar, <em><a href="https://www.bertrand.pt/livro/uma-paixao-simples-annie-ernaux/87636?a_aid=5d63ed0787e7c" target="_blank" rel="noopener">Uma Paixão Simples</a></em>, <em><a href="https://www.bertrand.pt/livro/um-lugar-ao-sol-annie-ernaux/86759?a_aid=5d63ed0787e7c" target="_blank" rel="noopener">Um Lugar ao Sol</a></em> e <em><a href="https://www.bertrand.pt/livro/os-anos-annie-ernaux/23706033?a_aid=5d63ed0787e7c" target="_blank" rel="noopener">Os Anos</a></em> todos das edições Livros do Brasil. </p>
<div id="newsletter-wrap-desktop"> </div>
<p><strong>Delphine de Vigan</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Nascida em 1966, Delphine de Vigan, escritora e romancista, é hoje um dos nomes importantes do panorama literário francês. Os seus livros exploram a relação entre ficção e realidade, sendo uma imersão profunda no que de mais íntimo há em nós. Foi com o seu livro <em>Not et Moi</em> que venceu o <em>Prix des Libraires</em> em 2008 bem como outros prémios, e se dedicou inteiramente à escrita. <em>Not et Moi</em> e <em>D’après une histoire vraie</em> foram já adaptados ao cinema. </p>
<p style="text-align: justify;">Nas livrarias portuguesas podemos encontrar três edições das principais e mais aclamadas obras de Delphine de Vigan, <em><a href="https://www.bertrand.pt/livro/no-e-eu-delphine-de-vigan/16231073?a_aid=5d63ed0787e7c" target="_blank" rel="noopener">Nô e Eu</a> </em>(Guerra e Paz)<em>, <a href="https://www.bertrand.pt/livro/a-partir-de-uma-historia-verdadeira-delphine-de-vigan/17424049?a_aid=5d63ed0787e7c" target="_blank" rel="noopener">A Partir de Uma História Verdadeira</a></em> (Quetzal Editores) e <em><a href="https://www.bertrand.pt/livro/lealdades-delphine-de-vigan/22842032?a_aid=5d63ed0787e7c" target="_blank" rel="noopener">Lealdades</a> </em>(Gradiva). </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Marie Ndiaye</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Nascida em 1967 Ndiaye é hoje uma das mulheres escritoras mais importantes em França. Aclamada em 2009 com o Prémio Goncourt pelo romance <em>Trois Femmes Puissantes, </em>NDiaye já se consolidou como um dos grandes nomes da literatura contemporânea francesa. Os seus livros são descritos como complexos e experimentais, não sendo uma leitura ligeira. Os universos dos livros de Ndiaye são, por vezes, sórdidos, imperfeitos, as suas obras falam-nos de famílias fragmentadas, rupturas, crueldade e pela violência.</p>
<p style="text-align: justify;">Infelizmente só apenas uma obra de Ndiaye foi traduzida para português <em><a href="https://www.bertrand.pt/livro/tres-mulheres-poderosas-marie-ndiaye/5788992?a_aid=5d63ed0787e7c" target="_blank" rel="noopener">Três Mulheres Poderosas</a></em> da Texto Editores.</p>
<div class="tls-newsletter-iframe"> </div>
<p><strong>Virginie Despentes</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Nascida em 1969 Virginie Despentes é uma escritora feminista francesa e cineasta. As opiniões sobre ela e a sua escrita vão do oito ao oitenta, mas a verdade é que ninguém lhe fica indiferente. Com uma história e passado complexos e duros, Despentes utiliza a escrita para romper e criar controvérsia. Fá-lo de forma irreverente, polémica e explosiva. Não tem de concordar com ela, mas Despentes deixá-la-á a pensar. </p>
<p style="text-align: justify;">Já encontramos edições traduzidas das suas obras em várias livrarias, nomeadamente o seu afamado <em><a href="https://www.bertrand.pt/livro/teoria-king-kong-virginie-despentes/18879999?a_aid=5d63ed0787e7c" target="_blank" rel="noopener">Teoria King Kong</a></em> e <em><a href="https://www.bertrand.pt/livro/vernon-subutex-1-virginie-despentes/22912824?a_aid=5d63ed0787e7c" target="_blank" rel="noopener">Vernon Subutex</a></em>, das editoras Orfeu Negro e Elsinore, respetivamente. </p>
<p> </p>
<p><strong>Leila Slimani</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Nascida em 1981, Leila Slimani é jornalista, feminista e acérrima defensora dos Direitos das Mulheres. Leila Slimani surge como um dos grandes nomes atuais da literatura francófona. A Vogue descreveu-a como uma escritora com um dom peculiar de contar histórias arrepiantes e desconfortáveis. Slimani ganhou estrelato literário com o seu romance <em>Chanson Douce</em> o qual lhe valeu o Prémio Groncourt em 2016 e entretanto foi já adaptado para o cinema em 2019. </p>
<p style="text-align: justify;">O reportório de Slimani ainda não é extenso, mas em Portugal já podemos encontrar duas edições traduzidas, <em><a href="https://www.bertrand.pt/livro/cancao-doce-leila-slimani/19276814?a_aid=5d63ed0787e7c" target="_blank" rel="noopener">Canção Doce</a></em> e <em><a href="https://www.bertrand.pt/livro/no-jardim-do-ogre-leila-slimani/21825826?a_aid=5d63ed0787e7c" target="_blank" rel="noopener">No Jardim do Ogre</a></em>, ambos da editora Alfaguara Portugal.</p>
<p class="sapomedia images"><img style="width: 260px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="bau dos livros.jpg" src="https://c9.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/P7f1816f4/21781115_gmgQZ.jpeg" alt="bau dos livros.jpg" width="260" height="232" /></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:queirosiana:1471792020-05-28T09:52:005 Livros com a guerra como fundo histórico2020-05-28T09:01:55Z2020-05-28T14:01:38Z<p class="sapomedia images"><div id="qpml881616975900" class="ink-carousel"><ul class="stage"><li style="list-style: none;" class="slide all-100 align-center"><img class="lazyload-item" src="" /></li><li style="list-style: none;" class="slide all-100 align-center"><img class="lazyload-item" src="" /></li><li style="list-style: none;" class="slide all-100 align-center"><img class="lazyload-item" src="" /></li><li style="list-style: none;" class="slide all-100 align-center"><img class="lazyload-item" src="" /></li><li style="list-style: none;" class="slide all-100 align-center"><img class="lazyload-item" src="" /></li></ul><nav style="position: static;" id="qpml881616975900-pagination" class="ink-navigation half-top-space"><ul class="pagination chevron"></ul></nav></div>
</p>
<p style="text-align: justify;">Tenho estado a completar as lacunas do desafio <a href="https://queirosiana.blogs.sapo.pt/ler-os-classicos-145589" rel="noopener">#Ler Os Clássicos</a>, entre os títulos em aberto, tenho "um clássico sobre a guerra". Embora este ano já tenha lido um romance com a guerra colonial como pano de fundo, não cumpre o requisito "clássico anterior a 1970" e assim, iniciei uma investigação sobre livros de guerra que pudesse selecionar.</p>
<p style="text-align: justify;">As sugestões que apresento, não são livros sobre guerra, no sentido de descreverem atos de guerra ou diários de guerra, são livros cujo fundo histórico é de guerra. Trata-se de uma opção pessoal, histórias de guerra de linha da frente não me cativam sobremaneira. Assim, selecionei cinco títulos com cinco guerras diferentes em cenário e para cada escolha apresentei uma alternativa. </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Depois de algumas trocas de comentários decidi retirar da lista a primeira sugestão (que indicava uma obra de Dickens, "Uma História de Duas Cidades", que tinha como pano de fundo o Período do Terror da Revolução Francesa) e substituí-la por uma sugestão mais óbvia e concordante com a temática "guerra" associada ao mote desta publicação - logrei alcançar cinco sugestões referentes a diferentes guerras, a Guerra Civil Americana, a I Guerra Mundial, a Guerra Civil Espanhola, a II Guerra Mundial e a Guerra Colonial Portuguesa. </span></p>
<p> </p>
<p><span style="font-size: 14pt;"><strong><em>O Regresso do Soldado</em> (1997), Charles Frazier</strong></span></p>
<p><span style="font-size: 10pt;">Ficção histórica - Romance - Guerra</span></p>
<p style="text-align: justify;">Ambientado no período da Guerra Civil Americana, <em>O Regresso do Soldado (Cold Mountain)</em> conta-nos a odisseia de Inman, um soldado sulista ferido na batalha de Petersburg, que decide desertar e regressar à Carolina do Norte para aí reencontrar a mulher que ama, Ada, persuadido de que ela o espera. Por seu lado, Ada, sozinha após a morte do pai, sobrevive como fazendeira em Cold Mountain, uma pequena aldeia da montanha. Ambos afrontam, antes de se reencontrarem, as transformações de um mundo onde lhes cabe agora viver.<strong><br /></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://www.bertrand.pt/livro/o-regresso-do-soldado-charles-frazier/40548?a_aid=5d63ed0787e7c" target="_blank" rel="noopener">Comprar na Bertrand (edição traduzida)</a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://www.bertrand.pt/livro/cold-mountain-charles-frazier/1095724?a_aid=5d63ed0787e7c" target="_blank" rel="noopener">Comprar na Bertrand (edição em inglês)</a></p>
<p><span style="font-size: 10pt;"><strong>Outras sugestões: <em><a href="https://www.bertrand.pt/livro/e-tudo-o-vento-levou-2-volumes-margaret-mitchell/14068076?a_aid=5d63ed0787e7c" target="_blank" rel="noopener">E Tudo o Vento Levou</a></em> de Margaret Mitchell</strong></span></p>
<p> </p>
<p><span style="font-size: 14pt;"><strong><em>O Adeus às Armas</em> (1929), Ernest Hemingway</strong></span></p>
<p><span style="font-size: 10pt;">Ficção histórica - Clássicos - Guerra</span></p>
<p style="text-align: justify;"><em>O Adeus às Armas</em>, provavelmente o melhor romance americano resultante da experiência da Primeira Guerra Mundial, é a história inesquecível de Frederic Henry, um condutor de ambulâncias que presta serviço na frente italiana, e da sua trágica paixão por uma enfermeira inglesa.<strong><br /></strong></p>
<p><a href="https://www.bertrand.pt/livro/o-adeus-as-armas-ernest-hemingway/15328353?a_aid=5d63ed0787e7c" target="_blank" rel="noopener">Comprar na Bertrand</a></p>
<p><span style="font-size: 10pt;"><strong>Outras sugestões: <em><a href="https://www.bertrand.pt/livro/testament-of-youth-vera-brittain/15842275?a_aid=5d63ed0787e7c" target="_blank" rel="noopener">Testament of Youth</a></em> de Vera Brittain </strong></span></p>
<p> </p>
<p><span style="font-size: 14pt;"><strong><em>A Praça do Diamante</em> (1962), Mercè Rodoreda</strong></span></p>
<p><span style="font-size: 10pt;">Ficção histórica - Romance - Guerra</span></p>
<p style="text-align: justify;">Publicado originalmente em 1962 como <em>La Plaça del Diamant</em>, é considerado o romance catalão mais importante de todos os tempos. Retrata uma Barcelona no início dos anos 30 e conta a história comovente, intensa e poderosa de uma mulher envolvida num período convulsivo da história. Embora a editora Dom Quixote tenha uma tradução da obra, hoje em dia já não se encontra facilmente à venda a não ser em alfarrabistas, contudo, existe oferta por parte de editoras brasileiras. </p>
<p><a href="https://www.bertrand.pt/livro/la-plaza-del-diamante-pocket-merce-rodoreda/2286593?a_aid=5d63ed0787e7c" target="_blank" rel="noopener">Comprar na Bertrand (edição espanhola)</a></p>
<p><a href="https://www.bertrand.pt/livro/in-diamond-square-merce-rodoreda/15248607?a_aid=5d63ed0787e7c" target="_blank" rel="noopener">Comprar na Bertrand (edição inglesa)</a></p>
<p><span style="font-size: 10pt;"><strong>Outras sugestões: <em><a href="https://www.bertrand.pt/livro/o-tempo-entre-costuras-maria-duenas/4299484?a_aid=5d63ed0787e7c" target="_blank" rel="noopener">O Tempo Entre Costuras </a></em>de María Dueñas</strong></span></p>
<p> </p>
<p><span style="font-size: 14pt;"><strong><em>Expiação</em> (2001), Ian McEwan</strong></span></p>
<p><span style="font-size: 10pt;">Ficção - Romance - Guerra </span></p>
<p><a href="https://queirosiana.blogs.sapo.pt/expiacao-ian-mcewan-113827" rel="noopener">Opinião da Queirosiana</a></p>
<p style="text-align: justify;">Expiação é, porventura, a melhor obra de Ian McEwan. Descrevendo de forma brilhante e cativante a infância, o amor e a guerra, a Inglaterra e a situação de classes, contém no seu âmago uma exploração profunda - e muito comovente - da vergonha, do perdão, da expiação e da dificuldade da absolvição. A sua ação ocorre em três períodos de tempo - na Inglaterra de 1935, na Inglaterra e França na Segunda Guerra Mundial e na Inglaterra de 1999. </p>
<p><a href="https://www.bertrand.pt/livro/expiacao-ian-mcewan/60682?a_aid=5d63ed0787e7c" target="_blank" rel="noopener">Comprar na Bertrand (edição traduzida)</a></p>
<p><a href="https://www.bertrand.pt/livro/atonement-ian-mcewan/1541854?a_aid=5d63ed0787e7c" target="_blank" rel="noopener">Comprar na Bertrand (edição em inglês)</a></p>
<p><span style="font-size: 10pt;"><strong>Outras sugestões: <em><a href="https://www.bertrand.pt/livro/suite-francesa-irene-nemirovsky/16283729?a_aid=5d63ed0787e7c" target="_blank" rel="noopener">Suite Francesa</a></em> de Irène Némirovsky.</strong></span></p>
<p> </p>
<p><span style="font-size: 14pt;"><strong><em>A Costa dos Murmúrios</em> (1988), Lídia Jorge</strong></span></p>
<p><span style="font-size: 10pt;">Ficção - Romance - Guerra</span></p>
<p><a href="https://queirosiana.blogs.sapo.pt/a-costa-dos-murmurios-lidia-jorge-1988-142523" rel="noopener">Opinião da Queirosiana</a></p>
<section id="product_about" class="col-xs-12 col-lg-8 pull-right ">
<div id="productPageSectionAboutBook" class="col-xs-12 section sinopse">
<div id="productPageSectionAboutBook-collapseSobreLivro" class="col-xs-12 right-side collapse">
<div class="wells">
<div id="productPageSectionAboutBook-sinopse" class="right-text">
<p style="text-align: justify;">Romance de um império de ocupação de costa, nada é atenuado ou escamoteado neste livro. Enredo e personagens arrastam consigo o significado caótico de um universo desregulado, onde o risco permanente torna os protagonistas dependentes em extremo de fortuitas coincidências. Aborda aspetos da guerra colonial portuguesa em Moçambique, de uma perspetiva feminina. </p>
</div>
</div>
</div>
</div>
</section>
<p><a href="https://www.bertrand.pt/livro/a-costa-dos-murmurios-lidia-jorge/71712?a_aid=5d63ed0787e7c" target="_blank" rel="noopener">Comprar na Bertrand</a></p>
<p><span style="font-size: 10pt;"><strong>Outras sugestões: <em><a href="https://www.bertrand.pt/livro/memoria-de-elefante-antonio-lobo-antunes/13978187?a_aid=5d63ed0787e7c" target="_blank" rel="noopener">Memória de Elefante</a></em> de António Lobo Antunes </strong></span></p>
<p class="sapomedia images"><img style="width: 260px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="bau dos livros.jpg" src="https://c9.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/P7f1816f4/21781115_gmgQZ.jpeg" alt="bau dos livros.jpg" width="260" height="232" /></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:queirosiana:1493202020-05-24T15:15:00História de Quem Vai e de Quem Fica (2013), Elena Ferrante2020-05-24T14:20:15Z2020-09-07T20:01:11Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 428px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="história de quem vai e de quem fica (2).jpg" src="https://c2.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bd8186592/21815924_kewZ1.jpeg" alt="história de quem vai e de quem fica (2).jpg" width="393" height="663" /></p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">Cada nova leitura de Ferrante é um assombro. Publicado originalmente em 2013, <em>História de Quem Vai e de Quem Fica</em> é o terceiro volume da série <em>A Amiga Genial</em>. Nesta continuação, acompanhamos as duas personagens principais ao longo dos seus vinte e trinta anos numa Itália em verdadeiro tumulto político, social e cultural. </p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">Muito mais denso e obscuro que os anteriores, uma certa sensação de abismo e solidão perpassam toda a história, bem como a incerteza de identidade (saber quem sou ou o que quero ser), sobretudo com Lenú, cuja personagem tem particular enfoque neste volume, como se a sua vida não fosse mais do que uma aglutinação sem fusão. </p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">Este volume parece ser uma sucessão de recuos daquilo que se havia aberto no segundo volume, sobretudo pela desfragmentação do debute de Lenú que, após a publicação do seu livro e de algum reconhecimento no meio literário, se vê ancorada a uma vida que lhe suga o potencial, a criatividade e a ambição.</p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">A emancipação feminina, tema transversal na série da <em>Amiga Genial</em>, é particularmente incisivo neste terceiro volume em que a intimidade e sexualidade feminina e a maternidade assumem relevo, bem como a libertação daquilo que é um mundo construido por homens à sua semelhança e do qual as nossas personagens tentam escapar. </p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">Igualmente importante é o contexto social, político e cultural dos anos sessenta, com os seus tumultos, cisões e revoluções, um universo que se abre inteiramente ao leitor no seu fervilhar simbólico, cruel e de ilusões e que é profundamente revigorante para alguém que, como eu, só tem por fonte os relatos históricos e não a vivência e as sensações.</p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">No final do livro, parece existir uma rutura na relação simbiótica entre Lenú e Lila, quando Lenú decide quebrar a apatia e invisibilidade da sua vida presente num aparente regresso ao passado que, no meu entender, me parece deslocado para quem pretende seguir em frente. Mas só o quarto e último volume poderão satisfazer a curiosidade desta leitora. </p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">Até lá, num esforço sobre-humano (pois prometi a mim mesma ler cada volume da série espaçadamente, com pelo menos um mês de intervalo), reforço a ideia que já vi escrita por muitos, ler a série <em>A Amiga Genial</em> é imergir num universo violento, ambivalente e masculino e escalpeliza-lo lentamente pela visão, voz e tacto femininos, numa ânsia constante de rutura e destruição, numa repulsa lancinante pelas desigualdades e hipocrisias, numa busca por um lugar e uma oportunidade num exercício de plena liberdade. </p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">A escrita de Ferrante é inexplicavelmente honesta e torna a leitora cativa, num afã de abarcar essa sinceridade que, mais das vezes, cala. Por intermédio da sua misteriosa arte de cerzir emoções, Ferrante encanta-nos e aprisiona-nos porque, quando escreve, confessa a vida. </p>
<p style="text-align: center;">***</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:queirosiana:1481812020-05-22T19:21:00Alma Lusitana2020-05-22T10:30:01Z2020-05-22T10:30:01Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 844px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" src="https://1.bp.blogspot.com/-2FbPvLB53xk/Xq8H5ajQH4I/AAAAAAAAZ_Q/dTC2VLwbZxwFv5ifPnYoyYFGAUm_Yu_1wCNcBGAsYHQ/s640/1.1.%2BLogo.png" width="640" height="287" /></p>
<p style="text-align: justify;">A Andreia lançou-nos o <a href="https://asgavetasdaminhacasaencantada.blogspot.com/2020/05/desafio-alma-lusitana.html" target="_blank" rel="noopener">desafio da Alma Lusitana</a> para assinalarmos, coletivamente, o Dia do Autor Português. Já aqui referi anteriormente que tenho uma lacuna enorme no que toca a escritores portugueses, sobretudo, contemporâneos. Completar este desafio foi uma chamada de atenção para colmatar essa falha literária! </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<ul>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #993300;"><strong>Porto | Um autor que nunca tenhas lido, mas que está na tua lista</strong></span></li>
</ul>
<p><strong>Natália Correia</strong>, quero muito ler a sua poesia, mas também a sua narrativa. A sua personalidade é fascinante, a sua escrita sê-lo-á igualmente. </p>
<ul>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #993300;"><strong>Aveiro | Um livro para morar</strong></span></li>
</ul>
<p><strong><em>Cidade e as Serras</em> de Eça de Queirós</strong> porque, tal como Jacinto, é o bucólico e a sua pureza que me preenche a alma. </p>
<ul>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #993300;"><strong>Coimbra | Um livro do teu autor favorito</strong></span></li>
</ul>
<p><strong><em>O Primo Basílio</em> de Eça de Queirós</strong>, escolhi este por ter sido o primeiro que li do autor, tinha então treze anos e foi o primeiro "clássico" que tomei em mãos. </p>
<ul>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #993300;"><strong>Leiria | Um livro para reler</strong></span></li>
</ul>
<p><strong><em>Amor de Perdição</em> de Camilo Castelo Branco</strong>, não porque tenha gostado da leitura da primeira vez, simplesmente porque acho que o li no momento errado e não apreciei a sua grandeza, tendo colocado o autor de lado de vez (muito por culpa da feroz rivalidade com Eça de Queirós). Quero remendar esta situação. </p>
<ul>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #993300;"><strong>Ericeira | Um livro que te transporta para uma zona do país de que gostas</strong></span></li>
</ul>
<p><strong><em>Os Maias</em> de Eça de Queirós</strong>, por causa de Sintra e das memórias da meninice. </p>
<ul>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #993300;"><strong>Guimarães | Um livro que deveria ter uma adaptação cinematográfica</strong></span></li>
</ul>
<p><strong><em>Memorial do Convento</em> de José Saramago</strong>, este livro merecia uma versão na tela. Não era incrível? </p>
<ul>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #993300;"><strong>Sintra | Um livro de poesia</strong></span></li>
</ul>
<p><strong><em>Antologia Poética</em> de Florbela Espanca</strong> por aos treze anos me ter enfeitiçado. </p>
<ul>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #993300;"><strong>Bragança | O primeiro autor que leste</strong></span></li>
</ul>
<p><strong>Alice Vieira</strong> a primeira escritora portuguesa que li e adorei. </p>
<ul>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #993300;"><strong>Gaia | Um livro infanto-juvenil</strong></span></li>
</ul>
<p><strong><em>Rosa Minha Irmã Rosa</em> de Alice Vieira</strong>, um livro ternurento e que tanto sentido vez para mim na altura em que o li. </p>
<ul>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #993300;"><strong>Lisboa | Um livro que mencione outras expressões artísticas</strong></span></li>
</ul>
<p><strong><em>Felizmente Há Luar!</em> de Luís de Sttau Monteiro</strong>, pela sua dramaturgia e simbologia histórica. </p>
<ul>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #993300;"><strong>Braga | Um livro passado na tua estação do ano favorita</strong></span></li>
</ul>
<p><strong><em>O Rapaz de Bronze</em> de Sophia de Mello Breyner</strong>, por evocar a Primavera em todas as palavras. </p>
<ul>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #993300;"><strong>Óbidos | O livro com a capa mais bonita</strong></span></li>
</ul>
<p><strong><em>Os Lusíadas</em> de Luís de Camões</strong>, o que tenho cá em casa tem uma encadernação dura com filamentos dourados, gosto muito dela. </p>
<p>E por último, o desafio extra, tal como a Andreia pediu!</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #993300;"><strong>Lousã | O último livro que leste, escrito por uma mulher</strong></span></li>
</ul>
<p><em><strong>A Costa dos Murmúrios</strong></em><strong> de Lídia Jorge</strong>, um livro a que tenho de voltar. </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:queirosiana:1490202020-05-18T18:46:00As Horas (1998), Michael Cunningham2020-05-18T16:05:57Z2020-09-06T20:37:35Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 475px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="Digitalizar0004.jpg" src="https://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B1c17485e/21811374_bF7m6.jpeg" alt="Digitalizar0004.jpg" width="475" height="720" /></p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">Tenho tido sorte com grande parte das minhas escolhas de leitura para 2020. Adiei por muito tempo a leitura deste livro, mas creio que o fiz no momento certo, como uma circunferência que se completa.</p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;"><em>As Horas</em>, romance premiado do escritor Michael Cunningham, publicado originalmente em 1998 merece lugar cimeiro na minha prateleira de favoritos como, aliás, já esperava. Terminei o livro há instantes e já lhe sinto a falta. Acredito que todos os livros são exercícios contínuos de empatia, seja o escritor que cria as personagens, seja o leitor que observa, omnipresente, o desenrolar da vida daqueles seres ficcionados. Nada melhor há do que um livro para nos ensinar, passo a passo, a colocarmo-nos na posição do outro, a compreender que, mesmo que não tenhamos partilhado as mesmas circunstâncias, mesmo que o nosso contexto seja em tudo distante daquele, conseguimos criar empatia com aquele ser ilusório, com aquele outro que nos guia pela mão e nos mostra outras perspetivas, outras formas de olhar o mundo, na sua insignificância, ambivalência e transcendência. Escrever um livro, mas ler um livro também, são derradeiros atos de empatia e de partilha. Isso é sublime. E o que Michael Cunningham fez com <em>As Horas</em> foi precisamente isso - um exercício perfeito de empatia. </p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">Pessoal e intimamente, este livro tem um profundo significado para mim. Laura e Richard Brown deixaram uma marca indelével - a primeira, pela sua inquietante presença e semelhança; o segundo, pela insaciabilidade e esperança. Duas personagens que me ajudam a compreender pessoas reais, que contribuem para a expiação da culpa, para o perdão e para a empatia. </p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">Para o título do seu romance, <em>The Hours</em>, Cunningham foi buscar inspiração àquele que teria sido o título inicial pensado por Virginia Woolf para a sua obra <em>Mrs. Dalloway</em>. Mas não é só no título que há relação - todo o romance de Cunningham está alicerçado em <em>Mrs. Dalloway.</em> Em <em>As Horas</em>, cujos capítulos se encontram divididos pelas três personagens principais, numa ação que ocorre num dia apenas (tal como<em> Mrs. Dalloway</em>), encontramos Virginia Woolf a criar e escrever <em>Mrs. Dalloway</em>; Laura Brown, uma mulher insatisfeita com a sua vida e que lê <em>Mrs. Dalloway</em>; e Clarissa Vaughan que vive a vida de Mrs. Dalloway na década de 90. É o livro de Woolf que entrecruza a existência destas três mulheres. Eu li <em>Mrs. Dalloway</em> de Virginia Woolf antes de ler <em>As Horas</em>, não digo que seja essencial, mas considerando que os alicerces se encontram naquela obra de Woolf, diria que ter conhecimento prévio de Clarissa Dalloway é uma mais valia. </p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">Em <em>As Horas</em> a tragédia é latente, na vida de todos os personagens, contudo, verificamos como, ainda que maculados pela tragédia, com os seus monstros e melancolias, todos vivem, todos acordam - todos os dias - para mais um dia, mais horas, mais tempo, mais vida. É incrível como, envolto em tanta tristeza, este livro é, no final, um ato de plenitude e clarividência - uma ode à vida, à beleza, aos pequenos átomos quotidianos que constroem a nossa história e que a tornam preciosa porque a felicidade não se busca, ela simplesmente acontece. </p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.bertrand.pt/livro/as-horas-michael-cunningham/60575?a_aid=5d63ed0787e7c" target="_blank" rel="noopener">Quero ler este livro</a></p>
<p style="text-align: center;">***</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:queirosiana:1487672020-05-15T12:31:00Melodia Interrompida (1934), Boris Pasternak2020-05-13T15:06:58Z2020-09-03T19:54:38Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 394px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="Melodia-Interrompida-de-Boris-Pasternak.jpg" src="https://c8.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bb818192f/21804478_U3hk1.jpeg" alt="Melodia-Interrompida-de-Boris-Pasternak.jpg" width="394" height="625" /></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Povest</em> (título original em russo), publicado em 1934, viria depois a ser republicada em inglês em 1958 com o título <em>Last Summer</em>. Este pequeno livro, uma novela, conta-nos a história de Sérgio, o personagem principal que, no inverno de 1916 visita a sua irmã e, num momento de sonolência recorda o verão de 1914, altura em que era preceptor em Moscovo, o último momento de paz antes da Primeira Guerra Mundial. O enredo é uma sucessão de evocações, sonhos e memórias que vão da tristeza à melancolia sem nunca refletirem verdadeira alegria. </p>
<p style="text-align: justify;">Infelizmente, não posso dizer que tenha sido uma leitura enriquecedora ou interessante. Pensei que seria uma boa introdução à escrita de Pasternak, mas não foi. Inicialmente até julguei que por ser uma edição de bolso, não seria a obra completa, depois percebi que era e comecei a achar que o mal estava na tradução. Sinceramente, não sei. A verdade é que tive de pesquisar sobre o livro para o perceber, porque da leitura só encontro uma amálgama de episódios desconexos e descontextualizados. </p>
<p style="text-align: justify;">Foi depois de ler opiniões em inglês que comecei a entender a história que não vislumbrei no decurso da leitura. Pergunto-me se não arriscarei um dia destes regressar a esta obra, mas na sua edição em inglês (ou então tentar a tradução da Europa-América), porque todas as apreciações literárias são muito boas e não encontrei reflexo dessa beleza de escrita na minha experiência. </p>
<p style="text-align: justify;">Tenho imensa vontade de ler <em>Doutor Jivago</em> do mesmo autor e, não obstante a frustração desta leitura, assim farei brevemente, não estivéssemos nós a falar de um autor laureado com o Nobel da Literatura e cujas obras estiveram proibidas na antiga URSS até 1987. </p>
<p style="text-align: center;">***<br /><a href="https://www.bertrand.pt/livro/melodia-interrompida-boris-pasternak/64247?a_aid=5d63ed0787e7c" target="_blank" rel="noopener">Quero ler este livro</a></p>
<p style="text-align: center;">***</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:queirosiana:1485452020-05-13T11:38:00Deus Ajude a Criança (2015), Toni Morrison2020-05-11T10:31:50Z2020-09-03T19:58:34Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 478px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="01040632.jpg" src="https://c9.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bf21715f4/21803363_zz8I9.jpeg" alt="01040632.jpg" width="400" height="722" /></p>
<p style="text-align: justify;">Dizem que Toni Morrison se deve ler na edição original em inglês, na medida em que o seu estilo de narrativa poética e a riqueza da sua escrita é dificilmente alcançável por intermédio de uma tradução. Talvez. Publicado originalmente em 2015, <em>Deus Ajude a Criança</em> foi o último romance escrito pela laureada Toni Morrison, primeira mulher negra a receber o Nobel da Literatura em 1993.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste livro conhecemos personagens cuja existência brotou de episódios, mais ou menos contínuos, de profunda violência. A violência praticada contra crianças é o tema desta obra, violência física, psicológica, sexual, demonstrando de que forma a brutalidade se pode tornar no quotidiano de uma criança e de como o terror molda - reverte e inverte - a personalidade da criança que depois se torna adulta. </p>
<p style="text-align: justify;">Quando iniciei a minha leitura, tinha outra expectativa, talvez devido à sinopse do livro, esperava algo mais pungente. Gostei do livro, mas achei-o incompleto. A estrutura da narrativa prende o leitor, sem dúvida. Contudo, fica a sensação de com mais umas cem páginas, este romance estaria pleno e as lacunas no enredo inexistentes. São descritas cenas e episódios de profunda violência, mas a consequência que estes têm na vida dos personagens, fica um pouco aquém. Aborda-se o racismo, a violência sexual, o silenciamento de crimes, porém, tudo parece ser tratado pela superfície, de forma inconsequente. Quero ler <em>Beloved</em> da mesma autora, temo que <em>Deus Ajude a Criança</em> não seja a melhor amostra do seu trabalho. </p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.bertrand.pt/livro/deus-ajude-a-crianca-toni-morrison/17817737?a_aid=5d63ed0787e7c" target="_blank" rel="noopener">Quero ler o livro</a></p>
<p style="text-align: center;">***</p>