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Queirosiana

Blogue sobre livros, leituras, escritores e opiniões

Grandes Esperanças, Charles Dickens

03.05.19

Grandes Esperanças é o décimo terceiro romance do autor, publicado inicialmente em 1861 em três volumes. Está entre os títulos mais famosos de Dickens.  

A história gira em torno da vida de Pip, um menino órfão que vive com a irmã mais velha, uma mulher fria, ríspida e algo temperamental e respectivo marido, Joe, o seu oposto, a bondade, humildade e amizade em pessoa. Ao longo da história, acompanhamos a vida de Pip desde os 7 anos até à idade adulta. 

Em Grandes Esperanças somos confrontados com situações bizarras. Desde logo, o início, com o encontro do pequeno Pip com um condenado agrilhoado, num cemitério, que o aterroriza e o obriga a roubar comida da despensa da irmã, causando vários sarilhos.

Depois, a excêntrica Miss Havisham, a noiva abandonada no altar que estagnou no tempo, vestindo eternamente o seu vestido de noiva, mantendo o banquete nupcial na mesa, num perpétuo luto pelo que poderia ter sido. Aliás, há quem sustenha que esta personagem se baseou na história real de Eliza Emily Donnithorne.

Pode não ser uma personagem que esperemos encontrar na rua, contudo, o impacto imaginário de Miss Havisham é tal, que ela permanece intensamente nítida na nossa mente, vestida toda de branco, mas de um branco que há muito tempo “perdeu o brilho, ficou desbotado e amarelo”. O abandono, a infelicidade e o despeito, são o sangue que corre nas veias de Miss Havisham. O momento traumático da sua vida, em que é abandonada no altar pelo homem que amava, transforma-se numa sede por vingança e ódio contra todos os homens – ideal que ela transmite à sua bela filha adoptiva Estella. Se, no início, julguei estar diante de uma altamente radical personagem defensora dos direitos das mulheres, terminei o livro, consciente do quão errada estava e de quão prejudicial ela foi na criação e na vida de Estella. 

Ainda rapaz, Pip é chamado à presença de Miss Havisham com intuito de brincar com Estella. Um papel que não era difícil de desempenhar, não fosse a frieza e crueza de espírito da alma de Estella, ainda que num invólucro de extrema beleza que, ao mesmo tempo que humilha e rebaixa, encanta o nosso Pip, deixando-o apaixonado para toda a vida, um amor não correspondido.

Alcançada a juventude, Pip recebe a boa nova de se saber detentor de uma avultada fortuna que, se crê, vir da própria Miss Havisham, com vista a que Pip venha a ser o marido da Estella.

Contudo, as coisas não se passam bem assim e esta é a primeira reviravolta na história. A fortuna de Pip é oriunda, afinal, do mais improvável dos personagens, se bem que no final tal fortuna acabe entregue ao Estado, deixando-nos crer que lá se foram as grandes esperanças de Pip. Mas não desanimemos, Pip acaba por se sair bem na vida, a custo de trabalho, amizade e dedicação.

A verdade é que começamos a ler uma história em que a relação entre as personagens parece ser circunstancial. Mas não, alcançado o final, verificamos quão entrelaçadas estas estão em torno de Pip.

Uma curiosidade deste livro é o facto de ter tido dois finais possíveis.  Ou melhor, o final publicado não foi exactamente aquele que Dickens havia pensado inicialmente. A verdade é que, influenciado pela opinião de um amigo, acabou por dar uma reviravolta ao final, tornando-o mais doce e deixando no ar um laivo de esperança para Pip e Estella.

A edição que li continha os dois finais e, sem dúvida, aquele que Dickens havia traçado inicialmente era, talvez, mais congruente, mas deixava um amargo na boca. O final publicado deixa-nos a pairar na possibilidade que resulta da enigmática frase “não descortinei quaisquer sombras que sinistramente prenunciassem nova separação entre mim e ela”.

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