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Queirosiana

Blogue sobre livros, leituras, escritores e opiniões

Herland (1915), Charlotte Perkins Gilman

Ficção científica - Utopia/Distopia - Feminismo

15.07.20 | L.F. Madeira

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Cada leitora tem o seu tempo, por vezes a leitura varre as páginas de um livro numa noite ou numa mão de dias, outras vezes, nem tanto. Neste caso, não posso deixar de mostrar surpresa pelo tempo desta leitura de pouco menos de 150 páginas - mais de um mês mediou o início do final. Não foi desinteresse na história, foi falta de espírito (o que também acontece). 

Não li a edição que ilustra esta publicação, li a edição em inglês Herland da The Women's Press Ltd., porque na altura em que conheci e comprei o livro ainda não existia edição em língua portuguesa. 

Já anteriormente falei deste livro no Queirosiana quando apresentei 5 livros sobre universos matriarcais. Tinha algumas expectativas com esta obra, seria errado dizer que saíram logradas, mas esperava um pouco mais.

A premissa do livro é simples, três homens exploradores encontram um país singular composto apenas por mulheres. Mas este não é um país qualquer, geograficamente inacessível a não ser por via aérea, esta comunidade matriarcal existe e prospera há séculos sem a presença, ou sequer existência masculina. E quando digo "prospera" refiro-me exatamente a uma sociedade sem classes, inveja, guerra, luxúria ou ódio e que atingiu o equilíbrio e coesão social e ambiental tão desejados. Refiro-me aqui ao aspeto ambiental porque foi algo que me suscitou enorme interesse, na medida em que julgo tratar-se de uma temática mais atual e muito pouco explorada nos inícios do século XX, mas que é aqui abordada de forma moderna. 

Nesta utopia feminista, repleta de sentido de humor, Gilman explora as noções do que é feminino e do que é masculino, do que é viril e efeminado, os comportamentos culturalmente apreendidos dos biologicamente determinados. E essa confrontação, tão simples, tão cândida e sem qualquer espécie de retaliação, é deliciosa. 

A noção de coletivo (ou de comunidade), de maternidade e de educação das crianças são talvez os três pilares fundamentais sobre os quais Herland está erigida. Indissociável estão os fortes laços sororais entre as Herlanders. Nas palavras de Ann J. Lane, Gilman transforma a esfera privada de mães e crianças, isoladas no lar individual, numa esfera comunitária de mães e crianças num mundo socializado. Num mundo no qual os valores sociais humanos foram alcançados pelas mulheres no interesse de todas as pessoas.

Neste universo utópico não me afeta a inexistência de luxúria, provocação e sedução, é até bem vinda! Mas surpreendeu-me a ausência da sexualidade, como se esta não tivesse uma existência autónoma, pessoalíssima e íntima. Ademais, a sexualidade surge nesta obra como se dependesse única e exclusivamente do outro. Este universo matriarcal peca por isso, no meu entender, por associar a sexualidade exclusivamente à existência do outro (e de outro sexo), como se esta fosse um "vício" despoletado por aquele. Porém, devo concluir que atenta a intencional desvalorização do individualismo nesta obra, quase como corruptor das relações humanas, talvez esse entendimento justifique a anulação da sexualidade da criação desta utopia - ainda assim, estou pouco convencida. 

Herland tem uma sequela, With Her in Outland (1916) que relata a experiência inversa, a nativa de Herland que explora o nosso mundo, a curiosidade é comedida, confesso, mas pretendo lê-lo para o ano. 

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