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Queirosiana

Blogue sobre livros, leituras, escritores e opiniões

Lady Macbeth de Mtsensk, Nikolai Leskov (1864)

Ficção - Clássicos

30.10.19 | L.F. Madeira

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Sim, uma verdadeira "jóia Russa", publicada originalmente em 1865. Leskov, contemporâneo de Tolstoi e Dostoievski, embora escritor de igual genialidade, é pouco conhecido fora do seu país. 

O título remete-nos, de imediato, para Macbeth de Shakespeare, a história de um general impoluto que, por influência da mulher, entra num ciclo de crueldade e de devassidão. Um herói que se torna vilão. Mas como li algures, na obra de Leskov, não há heróis.

Em Lady Macbeth de Mtsensk, a personagem principal, Catierina Lvovna surge inicialmente como uma mulher de vinte anos, casada por conveniência com um homem duplamente mais velho, um comerciante rural. Assume estritamente a sua função de esposa submissa, vivendo de forma abastada, numa solidão muda e enfastiante.

Mas, subitamente, na ausência do marido e do sogro, Catierina descobre-se, e acorda para uma nova luz na sua vida - apaixona-se por Sergei, capataz da propriedade do marido. Este amor, porém, torna-se numa calamidade. Catierina assume-se como a orquestradora de uma sucessão de crimes que mancham qualquer paixão, qualquer humanidade, qualquer dignidade. 

E é precisamente assim que termina este romance, numa personagem sem pingo de dignidade, desumanizada pela brutalidade de uma paixão. Ainda que, por vezes, Lady Macbeth de Mtsensk nos traga resquícios de Madame Bovary, acaba por não encontrar respaldo, talvez pela subtil ferocidade da escrita e enredo de Leskov. 

É uma história de uma crueza inquietante, pela perversidade da sua mansidão. Aqui não há heróis nem vilões, não há loucos nem lúcidos, ou poderosos e submissos, quer Catierina quer Sergei são despojados de humanidade, quase como sentença das suas consciências anárquicas.