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Queirosiana

Blogue sobre livros, leituras, escritores e opiniões

O Imperador de Portugal, Selma Lagerlöf

17.09.19

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Como prometido, iniciei a minha epopeia das Quatorze Fantásticas com Selma Lagerlöf, a primeira mulher a ser laureada com o Nobel de Literatura em 1909, e o seu Imperador de Portugal.

Publicado em 1914, e com tradução em português, que tanto pode variar em título O Imperador de Portugal ou O Imperador de Portugália, trata-se de um romance contemporâneo de uma maravilhosa sensibilidade e cuja leitura, escorreita, se faz sem sobressaltos. 

O mote deste livro e o cerne de toda a sua história é o conto do amor de um pai pela filha. O adjectivo primeiro que me ocorre é "lindo". É um lindo romance, de uma ternura e emotividade vibrantes. 

Jan, um pobre camponês Sueco, descobre o que lhe faltava na vida quando a filha lhe nasceu - o amor. Numa divertida passagem do livro, este queixa-se à parteira de palpitações quando acolhe pela primeira vez a  pequena filhinha nos braços. 

Por circunstâncias que não revelarei, a filha, Clara Bela, é levada a sair de casa dos pais aos 17 anos para ir trabalhar para a cidade de Estocolmo e ajudar os pais a pagar uma dívida aos senhores lordes da terra. Porém, a vida da jovem Clara Bela não lhe corre tão de feição na nova cidade e, embora livre os pais da dívida, não regressa nem envia notícias.

O enredo começa a desenlaçar-se quando Jan, pai de Clara Bela, na falta de notícias da filha, começa a receber aquilo que considera serem sinais da filha. É assim que declara que a filha é imperadora do reino de Portugal, tornando-o, portanto, imperador desse país onde "não se morria de fome, não se sofriam misérias, não havia pessoas maldosas" e onde "reinava a abundância e uma paz perpétua" - assim é descrito esse país imaginário (pois não se enganem, embora Portugal apareça no título, julgo que a escolha da autora seguiu apenas a lógica daquele ser o país europeu mais distante da Suécia). 

A verdade é que, essa "loucura" de Jan, o impede de se aperceber da vida em que a filha caiu, dando-lhe sempre uma boa dose de esperança que o acompanham durante os 20 anos de ausência da pequena, pois tudo o que sonha é pelo regresso da filha. 

O enredo depois oferece-nos pequenos pedaços deliciosos de Jan a enfrentar as hierarquias locais, achando-se em pleno direito, por ser o Imperador de Portugal, munido do seu chapéu e bastão e das suas duas estrelas ao peito. 

O regresso da filha dá-se, por fim, mas coincide com a morte de Jan. Ainda que, no final, seja o seu amor constante e incondicional que a salva. 

Como disse, um livro lindo, delicado e de uma brava doçura. É uma história que nos afaga o coração e por isso, a minha única possibilidade é recomendá-lo a este mundo e arredores!

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