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Queirosiana

Blogue sobre livros, leituras, escritores e opiniões

O Nome da Rosa (1980), Umberto Eco

Ficção Histórica - Mistério/Thriller - Clássicos

06.09.20 | L.F. Madeira

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Ora quem diria que um grupo de monges, frades e inquisidores do século XIV me tiraria o sono de forma tão aditiva. Trata-se de um livro fascinante que talvez não possa ser resumido como farei de seguida, por encerrar significados mais abrangentes e indefinidos. Mas uma certeza eu tenho, este romance é um labirinto! 

O Nome da Rosa, romance debute de Umberto Eco conta a história de uma série de mortes misteriosas de monges numa Abadia de Beneditinos, na Itália do ano de 1327. Li por aí que o enredo é lento. Pelo contrário, não achei. A ação decorre temporalmente em sete dias, sete dias em que acompanhamos hora a hora as deambulações e investigações do frade William e seu noviço Adso. 

A história tem lugar no período singular em que o Pontificado abandonou a cidade de Roma para se estabelecer em Avignon - a Crise de Avignon - um momento crucial na História da Igreja Católica que viria mais tarde a originar o Cisma Papal do Ocidente, onde houve Papas e Antipapas. A causa Franciscana (ou a questão da pobreza) é de crucial importância neste período, pois foi utilizada como arma de arremesso de uns contra outros e tida como a pedra de toque para as várias divergências doutrinárias de então. 

O Nome da Rosa está populado de personagens que foram figuras reais e fulcrais neste período da História, como Ubertino de Casale ou Miguel de Cesena. Mas depois temos hereges, místicos, fundamentalistas e frades radicais que pretendem a abolição da riqueza, da propriedade, da própria autoridade. Em vários momentos, senti-me transportada para o pensamento Marxista, pura e simplesmente fabuloso. 

Fora as especificidades, o que estava verdadeiramente em questão, e o nosso frade William explica com clareza, é aquilo que está sempre em questão nos conflitos: luta pelo poder. Poder aliado à riqueza, poder aliado ao medo - como sempre, dirão. 

Ao mesmo tempo é estranho porque embora as discussões de teologia e metafísicas pudessem, à partida, constituir um forte entrave e bloqueio à narrativa (então quando começavam a ter visões ou a discursar sobre o Apocalipse conseguiam tirar-me do sério), a verdade é que me mantive hipnotizada diante das páginas e a determinada altura também já eu raciocinava sobre debates teológicos a propósito da pobreza de Cristo ou o poder do riso para afastar o medo. A conclusão lógica não é a magia do escritor, é obviamente o seu génio. Umberto Eco, mais do que um escritor, foi um filósofo dedicado ao estudo da semiótica, um linguista, um historiador medievalista, o seu vasto conhecimento dos estudos medievais fica demonstrado neste romance (alguns dirão que mais do que o conhecimento, há algum pedantismo na escrita de O Nome da Rosa, por mim, diria que há alguma vaidade do escritor mas é totalmente legítima). 

Era mais agradável se as passagem em latim estivessem traduzidas. Esta santa ainda foi traduzindo no início com a ajuda do Google tradutor, mas até a minha paciência tem limites. Mas não creio que a sua não tradução prejudique a compreensão da história até porque as passagens em latim acabam por ser mais ou menos contextualizadas no decurso da ação imediata.

Quanto ao título, O Nome da Rosa,  é também ele um enigma, um conundrum, Eco afirma ter escolhido o título "porque a rosa é uma figura simbólica tão rica em significados que agora quase não tem mais nenhum significado".  

Resumir este livro ao género de mistério e crime ou a uma história de detetives vestidos com o hábito é errado, este romance tem várias facetas e tanto integra o género histórico, o mistério, o thriller, a teologia, filosofia e a metafísica - e consegue incluir tudo isto no seu enredo de forma habilmente insinuante e tentadora numa tensão permanente e em crescendo. É brilhante, sem dúvida!

Disse no início e reforço, este livro é um labirinto de significados, um labirinto de busca pela verdade, um labirinto sem respostas. Enquanto leitora, tanto me senti perdida num labirinto como numa laboriosa engrenagem cerebral. É um livro para ser lido e relido de forma a capturar, tanto quanto possível, a miríade das suas interpretações .

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