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Queirosiana

Blogue sobre livros, leituras, escritores e opiniões

Satânia, Judith Teixeira

23.10.19

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Judith Teixeira, escritora e poetisa, contemporânea de Florbela Espanca, não logrou da mesma fama desta, ainda que ambas se debrucem sobre temáticas semelhantes, como a feminilidade, o erotismo, a sensualidade. A obra poética e narrativa de Judith Teixeira foi, desde o primeiro momento, encarada como perversa ou "maldita", tendo algumas das suas criações sido apreendidas pelo Estado por as considerarem imorais. 

Judith Teixeira destacou-se como das poucas - se não a única - mulher(es) do movimento modernista português, mas após ser publicamente ridicularizada e caricaturada e sido publicamente apelidada de "lésbica" ou ver violentamente criticada a sua obra de forma pessoal, ao atacarem o seu caráter, em 1927 publicou Satânia e remeteu-se ao silêncio, até à sua morte. 

Satânia, corresponde a um conjunto de duas novelas composto por Satânia e Insaciada, seguidas do texto da Conferência De Mim, onde Judith Teixeira enfrentou tudo e todos após o ataque à sua obra e à sua pessoa. 

A novela Satânia reveste-se de uma fabulosa e inebriante adjectivação. Numa luta entre o desejo e o racional, Judith conta-nos a história de Maria Margarida, num élan de mistério, sensualidade e erotismo, que culmina num final de sofrimento, atrofiamento e morte. 

Em Insaciada, Judith Teixeira apresenta-nos um conto que aborda, entre outros, a morte. Num estilo profundamente estético, Judith Teixeira revela-nos uma tarde na vida de Clara, personagem que denuncia um estado de inquietude e incompletude, quase, diria até, um drama existencial. Em contrapartida, temos Maria Eduarda, amiga confidente ou algo mais, de Clara e que a incita à vida e ânimo. Tocando à superfície o suicídio ou o abismo interior, esta é sem dúvida uma novela de ambivalências trágicas. 

O texto da Conferência De Mim é, obviamente, um manifesto artístico de rara coragem, onde Judith Teixeira expõe o seu "Eu" artístico e se defende das vis acusações que havia sofrido publicamente. 

A escrita narrativa de Judith Teixeira recordou-me, em muitos aspectos, a poesia de Espanca. Um certo lirismo, feminilidade, um estado de êxtase, encantamento, bem como a brusquidão, o repentino e o abismo. Sem dúvida que me deixou curiosa, para não dizer ansiosa, de ler a sua obra poética.