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Queirosiana

Blogue sobre livros, leituras, escritores e opiniões

Shirley, Charlotte Brontë (1849)

Ficção - Romance - Clássicos

01.03.20 | L.F. Madeira

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Shirley foi publicado em 1849, após o sucesso de Jane Eyre. Muitas vezes menosprezado, Shirley apresenta características inovadoras na escrita narrativa, nomeadamente, a utilização do narrador na terceira pessoa ou a existência de duas personagens principais. Inovador também pelos temas abordados de uma perspetiva feminina, incomum na época. Em Shirley, Bronte posiciona-se sobre religião, política, direitos das mulheres, direitos de classes, entre outras.

Yorkshire de 1811 é o cenário do enredo e está envolto em inúmeras referências (que nem sempre acompanhamos) relacionadas com a crise da Revolução Industrial provocada pelas Guerras Napoleónicas e a Guerra de 1812 entre Inglaterra e os EUA, mas também outras referências socioculturais da época. Esta é uma característica que pode, eventualmente, maçar o leitor ou leitora. Sobretudo porque não são meras referências, as personagens do livro tomam partidos, discutem e debatem pontos de vista. Mas ultrapassada a estranheza do choque temporal, confesso que é salutar e enriquecedor abraçar este romance de Bronte onde a escritora põe a escrito uma série de declarações e posições pessoais sobre temas variados o que torna o romance simultaneamente complexo e caótico. 

Existem duas personagens principais neste romance, Shirley e Caroline, unidas por fortes laços de amizade, tendo ambas desafiado os padrões de comportamento da época. Uma curiosidade a respeito de Caroline é que esta personagem terá tido como inspiração a irmã de Charlotte, Anne e Shirley terá correspondido a uma versão idealizada da outra irmã de Charlotte, Emily. Uma outra curiosidade, é a de que foi depois da publicação deste romance que o nome "Shirley" passou também a ser utilizado no feminino, pois até então era um nome exclusivamente masculino. 

Mas como estava a dizer, Shirley fala-nos da amizade entre duas mulheres, aparentemente com muito pouco em comum. E sim, mais do que as relações entre mulher e homem, é a relação entre estas duas mulheres que representa o elo do romance. Shirley é uma mulher que condensa em si atitudes e comportamentos apelidados de masculinos, na medida em que independência e assertividade não eram "próprios" do género feminino. Caroline representa a mulher sem fortuna e as vicissitudes que tal condição implicava na vida e destino da mulher. As relações de desigualdade de género e de poder perpassam todo o romance e compreendemos, pelo paralelismo entre as duas mulheres, quão indissoluvelmente associados estão as questões de género e de poder, na medida em que, pela comparação, verificamos que a vida e destino de Shirley estão muito mais facilitados por esta ter dinheiro, não obstante ser mulher. 

Não é uma Jane Eyre mas, em certa medida, creio que Shirley é uma obra muito mais feminista do que a sua antecessora. Vale a pena mergulhar em Shirley, talvez não como obra de iniciação a Charlotte Bronte, mas como uma continuação e  aprofundamento do pensamento da escritora. Shirley requer paciência e vontade e ajuda muito ler reviews antes de avançarmos para a sua leitura. 

Uma nota, traduzido para português apenas conheço a edição da book it que, creio, já não se encontra facilmente para compra. Não conheço outras edições desta obra traduzidas para português, deixo a sugestão de compra em língua inglesa, embora julgue que será uma leitura mais complicada para não nativos da língua. 

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