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Queirosiana

Blogue sobre livros, leituras, escritores e opiniões

The Origins of Totalitarianism (1951), Hannah Arendt

Não-ficção - História - Política - Filosofia - Clássicos

03.09.20 | L.F. Madeira

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Ora aqui está uma leitura poderosa e extremamente estimulante. Numa altura de turbulência social e política por todo o mundo, com o (re)surgimento de vagas populistas e demagogias assustadoramente similares a um passado recente, este clássico de não-ficção do século XX, escrito pela filósofa política Hannah Arendt, revela-se, infelizmente, particularmente atual e premonitório. 

Em The Origins of Totalitarianism Arendt condensa uma série de informação preciosa sobre as condições e circunstâncias que levaram ao surgimento e instauração dos regimes totalitários Nazi e Soviético no século XX. Navegando por vários períodos da História, desde o século XVIII, ao Imperialismo, Colonialismo, o surgimento do pensamento racial e do pensamento de classes, a crise do Estado-nação, o antissemitismo, o racismo, a desintegração do Império Austro-Húngaro, a I Grande Guerra e, por fim, os regimes totalitários cujas principais características são a dominação e o terror como instrumentos de concretização da ideologia que visa retirar qualquer pingo de liberdade e espontaneidade do ser humano. 

A contracapa da minha edição deste livro afirma How could such a book speak so powerfully to our present moment? The short answer is that we, too, live in dark times - e de facto, além deste livro nos dar uma perspetiva integrada de vários acontecimentos históricos (e, no meu caso, acentuar a minha profunda vergonha por desconhecer tanta parte da História que medeia a Revolução Francesa e a II Guerra Mundial), esta obra obriga-nos, com um olhar hodierno, a reconhecer paralelismos intimidantes na nossa sociedade global de hoje. 

Quando falo em paralelismos, refiro-me a questões concretas como a fabricação de factos à custa da realidade histórica. Refiro-me a uma generalizada passividade das sociedades europeias ante violações gravíssimas de Direitos Humanos dentro e fora das suas fronteiras e uma cegueira propositada em prol de um dito crescimento económico ad eternum, criando uma realidade onde tudo pode acontecer porque ninguém quer saber. Refiro-me ao facto de cada vez mais o ruído das redes sociais ser tido e confundido com a opinião das pessoas, atribuindo-se àquele um peso e uma dimensão mediática que apenas impele e estimula radicalismos, intolerâncias e surgimento de figuras estéreis em busca de poder pelo poder - the mob always will shout for the "strong man", the "great leader". For the mob hates society from which it is excluded. Refiro-me ao deserto de Estadistas no panorama mundial e à circunstância das práticas privadas de negócios serem trazidas para a esfera pública como as regras ideais para conduzir questões de Estado. Refiro-me à incapacidade de respostas humanistas perante crises humanas que transformam mares em cemitérios. Refiro-me ao apelo constante de atomização das sociedades e da pulverização da defesa de interesses comuns, bem como do atrativo apelo da competitividade como regra de organização. 

Mais do que descrever o livro - até porque não o conseguiria fazer sem o tornar num texto académico no qual teria de me pronunciar sobre a visão de Direitos Humanos de Arendt e limar algumas arestas, - preferi deixar aqui as minhas impressões e inquietações resultantes da leitura desta obra, ainda que elas me possam fazer soar a um arauto da desgraça. 

No matter how much we may be capable of learning from the past, it will not enable us to know the future, mas certamente confere-nos a sensibilidade de percepcionar quando a Humanidade regressa a vícios passados. 

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